
O conceito zirum boléo circula até hoje em nossas rodas de conversas como descontração; também para definir situações de alto grau (boléo) de alienação (zirum)

Na caça de temáticas problematizadoras sob perspectivas de despertares crítico libertários, fluem fragmentos ímpares de filosofias populares da cultura de Parintins/Am. Visualizações sobre o cenário político e respectivos perfis sociais da terra dos bumbás nos trazem memórias do mestre de obras, um dos primeiros residentes da rua Sá Peixoto, Hílzio Menezes da Cruz, o Pirolote, falecido em 30/09/ 2004, com 75 anos, vítima de derrame. Apesar das limitações próprias da condição de trabalhador autônomo, Hílzio cultivava um perfil descontraído, ao mesmo tempo, filosófico sobre a realidade.
Não por acaso, observando a rotina de funcionários públicos da Ilha totalmente dependentes de chefias, Pirolote deixara fluir: – tá tudo zirum boléo!
Pra encurtar, o conceito zirum boléo circula até hoje em nossas rodas de conversas como descontração; também para definir situações de alto grau (boléo) de alienação (zirum).
A propósito, os códigos de subserviências sistêmicas definem os níveis de alienação da maioria de trabalhadores e trabalhadoras em nome do que chamam sobrevivência. No popular, essas categorias são definidas como puxa-sacos. E diga-se: são boléo! Tal situação tornou-se obrigatoriedade como meio de garantir privilégios institucionais.
Em número reduzido, contrapondo-se a tal lógica, estão os puxadores de carroças conduzindo o burro a trancos e barrancos como sabem, como podem e bem entendem.
Em face a tal realidade, considerando a diversificação de valores, educação e opções, as duas categorias ocupam espaços diferentes, embora os puxadores de carroças, vez por outra, entram no quadro dos ziruns e mudam de posição.
Numa abordagem mais sociológica, o cenário em pauta estabelece uma linha real e, ao mesmo tempo ilusória, como limite entre as duas classes. Nesse divisionismo, o Artigo 50 da Constituição Federal Brasileira é irresponsavelmente cumprido: a liberdade de escolha depende do conjunto de influências, de compromissos e responsabilidades pessoal e social. O que está posto: entre um “título de primogenitura” e um “prato de lentilhas”, este último sai na preferencial.
Tudo isso está em profunda conexão, conforme dito, à alienação que domina a servidores e servidoras sem leitura crítica da própria realidade, dependentes de padrões deterministas, unilaterais.
É sabido que as fileiras da puxassacomania são formadas por uma maioria com formação superior, o que lhes garante liderança, reificando, assim, o império da mediocridade. Mascarados de uma palidez viciosa, própria de quem se alimenta de restos e migalhas, puxa-sacos calejam e sujam as mãos massageando sacos diversos… E mais, providos de uma “deselegância discreta” e “exagerando nos detalhes da miséria” adotam postura autoritária, embora, visivelmente vulneráveis aos diversos tipos de corrupção.
É muito comum entre essa categoria a livre concorrência. Como há pouco saco para muito puxador, ganha a concorrência: quem mais disser AMÉM; quem demonstrar maior habilidade em fuxicologia; quem sustentar por mais tempo o peso e o desconforto do saco em concorrência. Na puxassacomania tudo é proibido, exceto transgredir direitos e garantias definidos em lei. Em contrapartida, os puxadores de carroças caminham contra o vento, sem lenço e a maioria sem documentos…
Enquanto os primeiros calejam as mãos e se contaminam com sacos velhos, doentes e asquerosos, os de baixo trazem nas mãos as duras marcas do trabalho honesto, cujo saldo é a conquista da cidadania e o direito de viver sem donos ou caciques. Apresentam-se mais livres, mais descontraídos. Na dialogicidade entre os pares descobrem-se senhores, senhoras, donos e donas de si – vanguardas da própria liberdade.
Parintins clama por libertação, por autonomia, por qualidade de vida digna… Concurso público é um nutriente incontestável. Chega de zirum boléo!
Fátima Guedesé educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage e Organizadora do Dicionário - Falares Cabocos.
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