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Fatima Guedes

FilhXs das Filas

12 de junho de 2026 Fatima Guedes
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Nada mais deprimente que um escravo satisfeito.

 (Cipriano Ricardo Flores Magón) *

MANAUS – Muita fantasia conflita com leitura crítica! Na Ilha Tupinambarana*, fantasias transformaram-se em alucinógenos viciantes! E o pior: até em momentos dolorosos a massa analfabetizada se mantém negligente, descuidada tal qual em sono profundo.

Já na primeira semana de junho/2026, a “capital brasileira do folclore*”, em meio a balbúrdias/descasos, fora surpreendida com a Operação Excelsior idealizada pela FAB* e Voluntários do Sertão* em parceria com a administração local. A Operação anunciava atendimentos médicos amplos e variados. Movida por carências diversas, a comunidade aceitou e ainda se balanceou sob o velho ritmo: um pra cá; dois pra lá. 

Hum!… Hum!… Que será?… Que será?… Que propósitos se escondem sob fardas, armamentos, voluntariados empresariais em parceria com gestores locais?…

Impactado com a surpresa, compadre Joca*, cabreiro de natureza, na fila há dois dias desde a madrugada, sonhando com um atendimento oftalmológico, suspirou: “-Hummm!… Sei não! Gato escaldado de água fria tem medo!…”

Apesar das dúvidas, as propagandas contagiaram a massa! Joca se arriscou. Outros e outras o acompanharam; desafiaram as próprias limitações, haja vista o volume de adoecidos em esperas por atendimentos e sem respostas confiáveis.

Quem acompanhou a muvuca da Operação Excelsior, no porto da Ilha, comprova os fatos: naquele momento, o peso das fantasias alucinógenas machucou/decepcionou centenas de corpos, mentes e almas sofridas, cansadas de promessas. Por um momento vivenciou-se o falseamento das propagandas sobre a atenção para com a saúde pública – “Direito de TodXs e dever do Estado”.

Infelizmente a dormência ainda é profunda: concursos bumbalinos voltados a lixos coloridos de azul e vermelho nas ruas da ‘cidade do folclore’ seduzem, entorpecem a razão e aumentam as filas de escravizados felizes; a massa sofrida esquece o pesadelo e tudo volta à estaca zero.

Sem dúvidas, a empolgação sobre os anúncios da Operação Excelsior foi grande! O sonho da cabocada, após tantas mendicâncias inglórias, apontava um raiozinho de esperançar sobre o caos dos serviços públicos. 

O sonho da cabocada, após tantas mendicâncias inglórias, apontava um raiozinho de esperançar sobre o caos dos serviços públicos (Foto: Fátima Guedes)
O sonho da cabocada, após tantas mendicâncias inglórias, apontava um raiozinho de esperançar sobre o caos dos serviços públicos (Foto: Fátima Guedes)

O embate por atendimento foi doloroso! Filas quilométricas no porto da cidade e em outros locais anunciados.  Seres humanos em situações diversas camuflavam dores, fome, fraqueza, desconfortos por inacessibilidade a assentos, a banheiros… Dificuldade para conseguir uma ficha nem se fala!… Sem contar, o volume de armas até o pescoço! A justificativa era “segurança” a possíveis reações daquela massa sofrida exigindo respeito à dignidade; exigindo o cumprimento do que determina a Constituição Federal/88: “Todos são iguais perante a Lei!”. Quem experienciou o drama confirma!

No rabicó das filas

Na contramão dos desconfortos, enfileirados tentavam descontrair compartilhando memórias antigas de cuidados naturais de saúde sem filas, sem humilhações e sem rastejamento a direitos universais transformados em favores.

Foi aí que compadre Joca lembrou Tevardo quando este foi à luta pelo TFD*.

Outras e outras histórias e até fofocas camuflavam/aliviavam a canseira durante as esperas.

A história das filas, porém, não se encerra no “atendimento” aqui relatado. Continua com perfis variados, intermináveis cuja lógica denunciam o espectro do sistema de “saúde” na terra dos bumbás: disfarces em agendamentos de consultas, exames… Na tapeação, as filas engatinham silenciosas, silenciadas… Bom lembrar: na lentidão tortuosa, muitas e muitos já partiram sem quaisquer atenção ou respostas justas. Há como negar ouomitir?…

Vale trazer às memórias: não é pequeno o volume de investimento público em propagandas fantasiosas: camisetas, banners, abanos, bonés e outras bugigangas… E, na contramão, a precariedade dos serviços públicos emergenciais (ou não) no Município pedem ‘socooooorro’!

É o que está posto: os sonhos por atenção médica digna, os esforços desperdiçados para silenciar os desconfortos sentidos na pele, na alma por dois ou três dias, no porto de Parintins, a ausência de teoria e prática revolucionárias na ética dos oprimidos, impuseram o recuo e o silêncio: muitos voltaram pra casa frustrados, conformados com “a vontade de deus” e mais ainda adoecidos.

Pra surpresa e revolta dos enfileirados do porto, já há três dias na mendicância e sem quaisquer orientações prévias, UBSs e Grupos Operadores liberaram fichas e encaminhamentos privilegiando aliados, consortes e etc. Acordos internos??? Artimanhas eleitoreiras??? Problematizar é direito!

E as filas continuam… Os serviços de saúde ditos públicos estão sob o domínio do mercado do adoecimento aliado à politicagem instalada: quanto mais adoecidos, mais filas, mais votantes encabrestados e mais lucratividade político laboratorial! 

Impossível também abafar uma realidade até desapercebida na sonolência das massas: dadas às precariedades de atendimentos nas UBSs e Hospitais, o próprio sistema forja “alternativas comerciais”: encaminha pacientes a clínicas e laboratórios particulares, via de regra, propriedades de profissionais contratados pelo SUS. Testemunhos não faltam!!!

Sabedorias Xamânicas referem-se ao vômito, às fezes, ao suor, às lágrimas, ao mijo e ao espirro como espíritos libertadores… A problematização em pauta propõe alternativas de escolha: vomita-se o que faz mal ou envenenamos ainda mais nossos corpos mental, emocional, físico, espiritual e político.

Quem sabe, após as intensas chicotadas, a massa vire povo, anuncie toadas revolucionárias e atice os últimos da fila a ocuparem seus legítimos espaços na Vida e na História!

Sonhos por atenção médica digna, esforços desperdiçados para silenciar os desconfortos sentidos na pele, na alma por dois ou três dias (Foto: Floriano Lins)
Sonhos por atenção médica digna, esforços desperdiçados para silenciar os desconfortos sentidos na pele, na alma por dois ou três dias (Foto: Floriano Lins)

Falares de Casa

Capital Brasileira do Folclore – Referência midiática à cidade Parintins/Am – território da festa folclórica dos bumbás Garantido e Caprichoso.

Cipriano Ricardo Flores Magón: Fundador e redator do Periódico Libertário Regeneración e do Partido Liberal Mexicano. Partiu em 1922, aos 49 anos, no Complexo Penitenciário, Kansas, Estados Unidos.

Compadre Joca – Apelido de um Companheiro da resistência. 

FAB – Força Aérea Brasileira

Ilha Tupinambarana – Cidade de Parintins, localizada no estado do Amazonas, 369 km de Manaus.

TFD – Tratamento Fora de Domicílio. Portaria SAS/MS n0 55/1999.

Voluntários do Sertão – ONG de atendimento à saúde, criada em Ribeirão Preto (SP) 2000.


Fátima Guedesé educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Uma das fundadoras da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS). Autora das obras literárias, Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage e Organizadora do Dicionário - Falares Cabocos.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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‘Gostoso Veneno’

Assuntos atendimento médico, filas, Parintins, tupinambarana
Cleber Oliveira 12 de junho de 2026
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