
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — Os interesses econômicos estão se sobrepondo ao bem-estar e ao interesse da sociedade e da preservação ambiental, especialmente na exploração de minerais em terras indígenas, afirma o cardeal e arcebispo de Manaus Leonardo Steiner. Segundo ele, o modelo econômico concentra lucro em poucos grupos e ameaça a sustentabilidade e a justiça social.
Em entrevista ao ATUAL, Leonardo Steiner criticou leis e tentativas de exploração de minerais em terras demarcadas e onde vivem indígenas. Ele cita que quando se trata de exploração, como no caso de garimpos ilegais, a destruição permanece e os impactos afetam diretamente as comunidades ribeirinhas, além da sociedade que consome peixes dessas regiões.
“Mineração significa destruir a terra indígena, mas significa também destruir os nossos rios. O garimpo tem levado o mercúrio para as nossas águas. Hoje, sem saber, às vezes estamos ingerindo carne de peixe com mercúrio. E nós sabemos que o nosso organismo não consegue eliminar o mercúrio. Temos povos indígenas com dificuldades enormes. E crianças, inclusive, com dificuldade de percepção porque no leite materno já recebem mercúrio. Isso é gravíssimo”, afirmou.
O arcebispo disse que, para quem busca lucro como empresas mineradoras, a vida humana e a natureza pouco importam. “Para quem está interessado em ouro, isso não importa. O outro não importa, o ser humano não importa, a natureza não importa. Importa o dinheiro. Então, realmente, a economia está se sobrepondo às relações humanas. Está se sobrepondo ao sentido da dignidade da pessoa humana e por que não dizer, está se sobrepondo à questão da justiça do meio ambiente”, disse.

Steiner lembrou que a exploração de minerais ocorre em um contexto de fragilização da política e das instituições em que decisões prioritariamente econômicas prejudicam o coletivo. “Essa ganância em relação ao minério e ao nióbio é uma questão econômica hoje, mas nós vamos acabar nos destruindo. A terra não vai aguentar essa exploração. Já estamos sentindo essas manifestações na natureza”.
Leonardo Steiner citou ainda o projeto aprovado pela Comissão de Direitos Humanos, em 20 de agosto, que admite atividades de pesquisa e lavra para extração mineral em terras indígenas, o que, segundo ele, fere os direitos dos povos originários. O CIMI (Conselho Indigenista Missionário), presidido por ele, tem atuado junto ao STF na defesa desses povos.
“A questão da demarcação, a questão do marco temporal tem a ver com a mineração em terras indígenas, tem a ver com o desfazer-se das terras indígenas. Não se quer demarcar terras indígenas por quê? Porque assim não querem devolver as terras que eram dos povos indígenas. E a Igreja faz um grandíssimo esforço através do CIMI”, afirma.
Para Steiner, repensar a economia é fundamental. “O Papa Francisco indicou que a economia deve estar a serviço de todos que estão na Casa Comum. Mas hoje a economia está na mão de pouquíssimas pessoas, cada vez mais ricas, e a população cada vez mais pobre, avançando sobre a natureza para enriquecer ainda mais. Uma hora isso vai estourar”.
Ele chamou atenção para os riscos de um modelo econômico concentrado em poucas mãos e que avança sobre a natureza para gerar lucro. Segundo ele, os impactos são sentidos em eventos climáticos extremos, como chuvas intensas no sul do país, e, embora o Norte apresente temperaturas naturalmente altas, a sensação térmica está acima da “normalidade”.
“O mundo está ultrapassando 1,5 [°C de aquecimento global em relação à era pré-industrial], nós estamos, devagarinho, pedindo que a morte se aproxime”, afirmou. Para Steiner, a exploração desenfreada da natureza, aliada à concentração de riqueza, coloca em risco toda a vida no planeta.
O cardeal explicou que a expressão “Casa Comum”, usada pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si, refere-se ao planeta como um espaço habitado por todos os seres — humanos, animais, vegetais e micro-organismos — que coexistem e se interrelacionam. “É uma casa onde todos moramos, e todos precisam ser protegidos e cuidados. É o cuidado da Casa Comum que sustenta a vida e a dignidade de todos”.
Steiner concluiu que, para enfrentar os desafios econômicos e ambientais é necessário diálogo e conscientização. “Não devemos ter medo de discutir, de propor conversão ecológica, mesmo sendo atacados por ir contra um sistema econômico. Queremos o cuidado da Casa Comum, que a terra continue sendo nossa mãe e nossa irmã, na expressão de São Francisco”.
Política e democracia
Steiner também comentou sobre a fragilização da política e das instituições democráticas no país citando a Operação Lava Jato: “A Lava Jato manchou a política e os políticos. É claro que existem políticos que não merecem ser políticos, mas a questão da política é vital para a sociedade. Hoje, a grande maioria dos políticos não está interessada na sociedade brasileira. Estão interessados em si. Tudo visa a si mesmo. Não visa o bem comum”.
Ele alerta sobre a crescente onda de ataques a órgãos como STF, Congresso e Executivo, que, segundo ele, fragilizam a democracia e flertam com regimes autoritários. “Estamos no Brasil perdendo a força da institucionalidade, o respeito pela instituição. Isso significa flertar com a ditadura”. Para ele, mesmo partidos fragilizados têm papel central na construção de uma sociedade democrática, e o diálogo é a ferramenta essencial para garantir participação social e justiça.
Para Steiner, o caminho para que as pessoas voltem a acreditar nas instituições é a discussão e o diálogo, mesmo que há grupos que se recusam a ter uma escuta, e não a polarização, mostrando o conceito do que é democracia e de que forma ela se manifesta:
“É importante a relação de escuta. Para quê? Para que se possa, de novo, ver qual é o fundo, por exemplo, que faz com que a democracia seja democracia. Ou que faz com que exista uma república. Ou que faz com que as instituições tenham a sua importância que têm. E isso não acontece sem uma discussão. Mas cada vez mais você tem o quê? Tem fake news cada vez mais. E a respeito dessas questões. Isso é gravíssimo”, disse.
Evangelho e sociedade
Dom Leonardo refletiu sobre o papel da Igreja e do evangelho na sociedade atual no combate ao autoritarismo, muitas vezes fortalecidas por grupos religiosos. Para ele, os princípios do evangelho, vida, justiça e fraternidade, devem orientar as ações humanas, contrapondo-se a interesses que priorizam lucro e poder.
Além disso, ele diz que independentemente de religião, a igreja tem um papel fundamental na disseminação de informações que fortaleçam a democracia e a volta à credibilidade de instituições no país.
“O evangelho propõe vida comum, justiça, fraternidade. Mas esses grupos, independentemente de igreja, não estão interessados nessa questão de fundo. É muito importante que a Igreja Católica dê testemunho e trabalhe para que haja compreensão democrática que ajude a convivência digna e justa”, afirmou.
