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Economia

Maiores empregadores mantêm trabalho remoto, mesmo com vacinação

22 de maio de 2022 Economia
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Trabalho em casa já era tendência e pandemia reforçou mudança (Foto: Marcelo Camargo/ABr)
Por Douglas Gavras, da Folhapress

SÃO PAULO – Impulsionados pelas medidas de distanciamento tomadas em razão da pandemia, o home office e o trabalho híbrido permanecem sendo adotados por algumas das maiores empregadoras do país, e a expectativa é que sejam mantidos, mesmo com o avanço da vacinação.

A decisão de seguir com a opção de trabalho remoto, ao menos por algumas vezes por semana, está em linha com o que apontam levantamentos recentes, em que os trabalhadores dizem querer aproveitar a experiência de trabalho que tiveram nos últimos anos e preferem não estar no escritório todos os dias.

Segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Previdência, fazem parte dos maiores empregadores formais do país instituições bancárias (Banco do Brasil, Caixa, Bradesco e Itaú), os Correios, empresas do setor de alimentação (BRF e Seara), de teleatendimento (Atento) e de saúde (Raia-Drogasil).

Pelos critérios da Rais, o topo do ranking antes da pandemia, em 2019, era dos Correios e do Banco do Brasil. De acordo com os dados atuais de número de funcionários fornecidos pelas empresas à reportagem, o primeiro lugar em 2022 pode ficar com o Itaú Unibanco.

Com quase 100 mil colaboradores hoje, o Itaú Unibanco chegou a migrar metade de seu quadro para o modelo remoto, com o início da pandemia, em 2020.

Em fevereiro deste ano, já com a vacinação em estágio mais avançado, o banco passou a adotar três modelos de trabalho nos escritórios administrativos: presencial, para os colaboradores cujas funções demandam presença no banco todos os dias; híbrido, para times que precisam trabalhar nos escritórios com frequência ou em situações predefinidas; e flexível, que prevê mais autonomia.

No caso dos Correios, atualmente com 88,5 mil empregados, 2% (cerca de 1.770) estão em trabalho remoto. Segundo a empresa, mesmo antes da pandemia, a partir da reforma trabalhista de 2019, o teletrabalho é uma opção para parte do quadro de funcionários, “observando as condições legais, bem como a conveniência na prestação dos serviços”.

No Bradesco, há a expectativa de manter cerca de 30% do quadro de funcionários no sistema híbrido para as áreas administrativas com atividades elegíveis.

“O aprendizado com o trabalho remoto permitiu que, por meio de acordo coletivo com o movimento sindical, fôssemos o primeiro banco de grande porte a assumir o compromisso de adotar essa forma de trabalho após a pandemia”, diz a instituição, que tem cerca de 87,5 mil funcionários.

Eles também têm a avaliação de que, em algumas áreas, essa modalidade de trabalho passou a ser relevante para a atratividade e a retenção de talentos.

 Caixa chegou a ter mais de 56 mil empregados (35,6% do total) trabalhando de casa, em razão da pandemia, e teve um retorno positivo por parte dos que atuaram remotamente, sobretudo pela maior autonomia e possibilidade de conciliação entre trabalho e família.

“Com isso, considerando o cenário atual, estudam-se a implantação e percentuais aplicáveis para manutenção do trabalho remoto na empresa”, diz a assessoria do banco.

Depois de usar a modalidade durante a pandemia, o Banco do Brasil implantou o trabalho de formato híbrido, com até dois dias na semana fora do escritório. Atualmente, são cerca de 4% dos 86,3 mil funcionários alternando entre o trabalho remoto e o presencial.

A instituição diz acompanhar a tendência das novas modalidades de trabalho desde 2015, quando criou um projeto-piloto para alguns funcionários, e a necessidade de adotar o trabalho remoto durante a pandemia reforçou as vantagens dessas modalidades.

No fim de março, o governo editou uma medida provisória que regulava o trabalho híbrido. Especialistas em direito do trabalho ainda se dividem sobre a possibilidade de as novas regras virem a incentivar mais empregadores a ofertar essa modalidade de trabalho.

Dos 70 mil colaboradores da Atento, cerca de 35% estão em home office – o restante se divide entre os modelos híbrido e presencial. “O sistema tem se mostrado benéfico para todos. Esse formato de trabalho ampliou as possibilidades de contratação e movimentação interna de profissionais que, por algum motivo, priorizam o modelo remoto”, diz Ana Marcia Lopes, vice-presidente de Pessoas e Responsabilidade Social da Atento no Brasil.

Moradora de Sorriso (MT), a consultora Vanessa Marquiafavel, 42, é um exemplo disso. Formada em letras e na Atento desde o começo do ano, ela ajuda a desenvolver interfaces para assistentes virtuais, que deixam mais humanizado o atendimento feito por robôs em call centers.

“Sou linguista computacional e trabalho em home office desde 2007. Antes, a vida de quem trabalhava de casa era um pouco mais complicada, mas a pandemia acabou deixando as empresas mais preparadas”, diz.

Em casa, ela consegue aproveitar melhor o tempo com o marido, que é agrônomo, e o filho, de cinco anos. “Ainda não encontrei uma desvantagem no home office.”

Já a Raia-Drogasil decidiu manter os cerca de 3.000 funcionários da área corporativa no modelo híbrido. “Levamos em conta todos os aprendizados extraídos ao longo dos últimos dois anos”, diz Patricia Vasconcelos Giacomo, diretora na empresa.

Quando iniciou o retorno ao presencial, a rede de farmácias, que tem 50 mil colaboradores, optou por fortalecer a independência das equipes. “O estar junto agora tem outro significado, muito mais profundo que o cumprimento de uma tarefa. Os times têm liberdade de definir quando faz sentido estar presente”, diz ela.

Híbridos

Uma consulta feita com mil pessoas pela Edelman América Latina em março aponta que os brasileiros estão satisfeitos com seus empregos atuais, percepção que aumentou com o trabalho remoto. Para 61%, o home office fez crescer a satisfação com o emprego, enquanto apenas 16% disseram que diminuiu.

Além disso, o estudo – que foi encomendado pela plataforma de suporte tecnológico para empresas ServiceNow – diz que 7 em cada 10 estão trabalhando de casa ao menos em dois dias na semana, ante 52% no pré-pandemia.

Antes da crise sanitária, 21% nunca haviam trabalhado em home office, e agora há apenas 1% nessa situação. “Foram várias descobertas e ganhos com o trabalho remoto, e a maioria não quer abrir mão disso. O que se observa é uma tendência de o funcionário negociar um modelo híbrido com a empresa, sempre que possível”, diz Katia Ortiz, executiva da ServiceNow no Brasil.

Entre os aspectos positivos do home office apontados pelos entrevistados, estão a economia de tempo de deslocamento (51%), a economia de dinheiro (43%) e o maior tempo com a família (41%). Por outro lado, 28% se sentem mais desconectados do trabalho, e 27% dizem que é mais fácil se distrair.

Ortiz complementa que a própria empresa percebe que é importante tornar os funcionários mais satisfeitos. “Nos Estados Unidos, há um movimento forte de empregados pedindo demissão, também por terem sido obrigados a voltar ao escritório. Para reter talentos, a empresa acaba tentando ofertar modelos alternativos e aumentar o investimento em tecnologia”.

Outro estudo recente, da Eaesp/FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas) e em parceria com o PageGroup e a PwC Brasil, apontou que 72% dos executivos dizem acreditar que a chefia se adaptou ao trabalho remoto, e 71% dos colaboradores têm expectativas de mudanças no ambiente de trabalho, rumo a uma maior flexibilização.

Em empresas de menor porte, a decisão também tem sido manter dias de trabalho fora do escritório. “Ao adotarmos o home office como modelo oficial, percebemos vantagens tanto em termos de satisfação dos colaboradores quanto na atração de talentos. Mais de 40% estão fora do eixo Rio-São Paulo”, diz Bruno Pereira, executivo da Cortex, plataforma de big data que vende soluções para vendas e comunicação, onde o trabalho é totalmente remoto para os 300 colaboradores.

Entre eles está Amanda Sena, 40, gerente do time de atendimento e marketing. Após trabalhar por três meses no começo de 2020 no sistema presencial, ela migrou, como o restante da empresa, para o home office e não pretende voltar à antiga rotina.

“Quando precisava me deslocar para o escritório, na zona sul de São Paulo, tudo era mais complicado: o trânsito caótico, o transporte público não ajudava. Agora, consigo conviver mais com meu marido, que é músico, e o nosso cachorro. A empresa também só ganhou ao ter mais pessoas de fora”, disse.

“Antes da pandemia, nossos times ficavam concentrados em São Paulo e Curitiba. Hoje, temos gente espalhada por seis estados. O home office também facilitou as contratações de profissionais de tecnologia”, diz Tayara Simões, diretora-executiva da plataforma de criação de conteúdo digital NZN.

A empresa tem 30% de seus 117 funcionários em trabalho remoto e 70% em sistema híbrido, indo ao escritório duas vezes por semana.

Maiores empregadores

Em 2019 (antes da pandemia):

Correios: 109,6 mil

Banco do Brasil: 104,5 mil

Caixa: 91 mil

BRF: 87,6 mil

Bradesco: 86,7 mil

Em 2022*:

Itaú Unibanco: 99,6 mil

Correios: 88,5 mil

BRF: 96 mil

Caixa e Bradesco: 87,5 mil (cada um)

Banco do Brasil: 86,3 mil

*Até o primeiro trimestre; dado mais recente da BRF é de 2021

Fontes: Empresas e Rais (Ministério do Trabalho e Previdência)

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Assuntos home work, trabalho remoto
Cleber Oliveira 22 de maio de 2022
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