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Luz no fim do túnel

22 de setembro de 2017 Follow Up
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Publicamos, mais uma vez, artigo do professor Paulo Haddad, especialista em desenvolvimento regional e analista próximo dos problemas que o Brasil tem adiado: o enfrentamento da crise em suas especificidades por região. Desemprego, violência, programas alternativos, crise e criatividade, as sequelas do desemprego… o momento exige protagonismo civil.

Arrumar essa casa, seja ela o Amazonas, a Amazônia ou o Brasil, é uma responsabilidade intransferível e inadiável. E nesse bolo indigesto de problemas e omissões do poder público e da representação política, os jovens precisam de uma atenção especial. Eles vão assumir o leme de uma embarcação ora à deriva, e padecem de um voto de confiança para vislumbrarem a luz no final desse túnel de adversidades. Este é o tema do Professor Paulo Haddad.

Juventude desalentada em países em crise econômica e políticoinstitucional

Paulo R. Haddad (*)

Em 1976, participei de uma missão da OEA para elaborar um projeto de integração nacional do Uruguai. O país atravessava uma profunda crise econômica e político-institucional. Um terço de sua economia estava polarizado por empreendimentos no Sul do Brasil e outro terço, por empreendimentos no Leste da Argentina.

O objetivo da missão era propor políticas públicas para a integração do espaço econômico do país. Tivemos a oportunidade de entrevistar um grande número de jovens universitários na faixa etária de 20 a 25 anos. Quando perguntados sobre o seu projeto de vida, a resposta sistematicamente era mudar do país para estudar ou trabalhar no exterior.

Um indicativo de que eram sombrias suas expectativas em relação ao futuro e de que parcela significativa do capital social nacional se faria ausente num processo de transformação do país. Concluímos: pobre Uruguai!

Sequelas

Historicamente, quando se observam diferentes crises econômicas e sociais de países da América Latina, vemos que as mazelas dessas crises recaem mais pesadamente sobre os jovens. Aqueles cujo ciclo de vida deveria contribuir mais para o desenvolvimento das sociedades, não apenas com os ganhos de competência profissional que obtiveram com uma educação avançada, mas também com a própria realização de seus projetos de vida. É o que está ocorrendo atualmente com o Brasil, que atravessa um dos períodos de maior decadência econômica, política e moral em sua história.

Desemprego e desesperança

No primeiro trimestre desse ano, o desemprego entre os trabalhadores de 18 a 24 anos alcançou 28,8% ou 4,503 milhões de jovens, mais do que o dobro da taxa de desemprego geral de 13,6%. Duas observações adicionais: primeira – os anos a mais de estudos não se traduziram na garantia de um emprego, quando muito de algum subemprego (engenheiros dirigindo táxis, psicólogas como vendedoras de lojas de grife, etc.); segunda – quando se observa o comportamento da renda obtida pelos diferentes grupos no mercado de trabalho, entre o primeiro trimestre de 2015 e o primeiro trimestre de 2017, a renda real caiu 3,3% para o conjunto de todos trabalhadores brasileiros, mas retrocedeu 15,3% para os jovens de 15 a 19 anos e 7,9% para aqueles com idade de 20 a 24 anos.

Atlas da Violência

Os analistas dos mercados de trabalho apontam também que os trabalhadores mais jovens sofrem particularmente os efeitos da crise de forma mais profunda por uma dupla razão. São os primeiros a perder o emprego por causa do baixo custo de demissão de acordo com a legislação trabalhista prevalecente à época. E não encontram maiores oportunidades nos mercados por falta de experiência profissional.

Os últimos dados estatísticos do Atlas da Violência apontam que, de 2005 a 2015, 318 mil jovens brasileiros foram assassinados, dos quais, em cada 100, 71 são negros. Muitos na informalidade do trabalho, na pobreza das condições de vida e no desalento das perspectivas do futuro.

Pobre Brasil?

Enquanto isso, como a atual política de ajuste fiscal não dispõe de um plano de desenvolvimento para o futuro do País, vão se reduzindo a pó, através dos cortes casuísticos dos recursos financeiros e institucionais, muitas políticas públicas que poderiam estar abrindo um campo de oportunidades para que a nossa juventude possa construir uma nação mais progressista, mais justa e mais sustentável.

É ilusão acreditar que os jovens brasileiros sejam conformistas e que assistem passivamente a desconstrução e o esfacelamento de seus sonhos. Como lembrou-nos Che Guevara: “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. Espera-se que a juventude brasileira se conscientize do seu papel no processo da grande transformação do nosso País e que não necessite migrar os seus projetos de vida para o exterior. De outra forma: pobre Brasil!

(*) Paulo tem formação acadêmica internacional em Planejamento Econômico no Instituto de Estudos Sociais de Haia – Holanda, é Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, ex-Ministro da Fazenda e do Planejamento da República Federativa do Brasil (1992-1993) do Governo Itamar Franco, ex-Secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de Minas Gerais (1979-1982), consultor do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do PNUD, da ECLA e de outras organizações públicas e privadas, nacionais e internacionais, Presidente da PHORUM Consultoria e Pesquisas em Economia e Diretor da AERI – Análise Econômica Regional e Internacional. Publicou diversos livros e artigos em jornais especializados no Brasil e no Exterior, dentre os quais, um dos mais recentes intitula-se “Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Sustentável”, lançado em 2015, pela Editora Saraiva. Foi um dos fundadores do CEDEPLAR/UFMG, tendo sido o seu primeiro diretor. Foi também o primeiro secretário-executivo da ANPEC. Consultor qualificado da FIPE FEA USP, publicará ainda neste mês o e-book “Economia Ecológica e Ecologia Integral” de sua autoria.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

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