
Do ATUAL
MANAUS – Na varanda de uma palafita – casa sobre estacas de madeira – às margens do Rio Tefé, no Amazonas, o presidente Lula conversou com ribeirinhos sobre os efeitos da estiagem no estado, nesta terça-feira (10). Em um bate-papo descontraído, Lula ouviu dos comunitários relatos que indicam a ausência do estado na região e cobrou diretamente de ministros que também o acompanharam na viagem uma atuação mais forte do governo federal no Amazonas.
“O pessoal gosta muito de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, mas vir aqui na comunidade Campo Novo é mais difícil”, disse o presidente, na zona rural de Tefé.
Lula cumpriu agenda em Tefé, Manaquiri e Manaus, onde anunciou medidas para mitigar os efeitos da seca na região. Os 62 municípios do Amazonas estão em situação de emergência por conta da estiagem. Os rios, que são as vias de transporte de pessoas e alimentos secaram e ribeirinhos enfrentam dificuldades para se locomover e para se alimentar.

A ribeirinhos, o presidente disse que queria sentir o drama da população afetada. “Eu confesso que não precisaria vir aqui para saber dessas coisas que vocês contaram. Eu poderia falar com o governador, com prefeito, com os senadores. Mas eu vim aqui para poder olhar na tua cara, na cara das mulheres, das crianças porque aquilo que os olhos não veem o coração não sente. E eu vim aqui para sentir o drama de vocês”, disse o presidente.
Na conversa, Lula perguntou sobre a presença de médicos na região. “Me diga uma coisa. E a saúde? Vem médico aqui?”, questionou Lula a um morador chamado Moisés, na Comunidade Campo Novo. Moisés respondeu: “Vem. No começo do ano, o prefeito trouxe uma equipe de médicos”.
Surpreso, Lula disse: “Só para você lembrar. Estamos no mês de setembro. Você está dizendo que foi no início do ano. Isso significa nove meses. De lá pra cá não veio mais médicos? Nem pediatra? Nem médico para cuidar as mulheres que estão grávidas? Nem técnico de saúde?”. Moisés negou e Lula disse: “Sabe por que eu estou te perguntando isso? A ministra da saúde [Nísia Trindade] está aqui. Ela é a mulher que comanda a saúde no Brasil”.
O presidente defendeu uma atuação conjunta entre governo federal, governo estadual e prefeituras. “É preciso que o governo federal junto com o governo estadual e a prefeitura encontrem um jeito de criar condições”, disse Lula, na presença do governador do Amazonas, Wilson Lima (União Brasil), e do prefeito de Tefé, Nicson Marreira.
Os comunitários relataram que o programa “Luz Para Todos” tem falhas. Lula cobrou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. “Alexandre Silveira, não está de qualidade o ‘Luz para todos’ aqui. Quem está dizendo é o Moisés, presidente da comunidade, e o Irenilson, do conselho fiscal. É preciso que a gente dê uma olhada no que fazer aqui”, disse Lula.
Lula também estava acompanhado das ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Nísia Trindade (Saúde) e dos ministros Wellington Dias (Desenvolvimento), Waldez Góes (Integração) e Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos). Os senadores Eduardo Braga (MDB) e Omar Aziz (PSD) também estavam no encontro.
Produção de alimentos
Moisés relatou que os comunitários plantam cacau, banana, caju, manga e abacaxi e que também produzem a farinha de mandioca – também conhecida como farinha d’água. A produção, no entanto, segundo eles, foi afetada com a seca dos rios.
“Hoje nós não podemos fazer farinha porque os poços e igarapés secaram”, disse Moisés. “Não temos mais condições de tirar [produzir farinha]. Precisamos de ajuda para melhorar nosso trabalho”, completou.
O agricultor relatou que no período da cheia dos rios o transporte do alimento para a sede do município dura três horas de voadeira (embarcação de alumínio movida por motor de popa). De canoa (embarcação de madeira), a viagem dura seis horas. No período da seca, são dez horas para ir da comunidade até a cidade.
De um helicóptero, o presidente testemunhou queimadas em florestas. Ele questionou ribeirinhos sobre a produção de outros alimentos na região e defendeu a conservação de florestas. “Os nossos companheiros ICMBio vão cuidar para que a floresta fique em pé e vocês só desmatem aquilo que vocês plantam para comer”, disse Lula.

“Aqui já veio a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária]? O ministro que cuida da agricultura familiar?”, questionou Lula, que ouviu mais uma vez uma negativa dos comunitários. O presidente sugeriu o reaproveitamento do solo em áreas desmatadas para produção de outros alimentos como feijão e milho.
“Sabe o que eu estou estranhando? Eu estou estranhando que vocês poderiam plantar um pouquinho de feijão. Feijão dá em 90 dias, cara. Você planta um pouquinho e você vai colher três sacos de feijão, dá pra comer em um ano. E plantar um pouco de milho também. Vou falar com o ministro para ele dar uma caminhada por aqui, porque o pessoal gosta muito de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, mas vir aqui na comunidade Campo Novo é mais difícil. Mas nós vamos ver, vamos tentar vê se a gente dá condições para vocês produzirem mais alimentos para vocês comerem. Não pode ser só mandioca”, disse o presidente.
Lula também acionou o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário, para prestar apoio na produção de outros alimentos. “Eu estou assumindo o compromisso de que o ministro do Desenvolvimento Agrário junto com técnicos do ministério vão vir aqui conhecer a comunidade de Campo Novo e outras comunidades que têm só plantação de mandioca. Não é possível. Vocês tem que plantar mais coisas”, disse Lula.
Purificadores
Na conversa com os comunitários, o presidente anunciou que o governo federal iria distribuir 150 purificadores de água, que são capazes de filtrar 5 mil litros de água por hora.
“Dá para você pegar aquela água do rio do jeito que está, colocar no purificador, ela vai purificar cinco mil litros de água por hora para você poder beber na beira do rio. Você vai ver a água entrar suja e vai tomar ela limpa. Nós trouxemos 150 e vamos ver como vamos fazer a distribuição aqui”, disse Lula.

Realidade
Lula perguntou de Jaqueline, uma das comunitárias, como era a vida de uma mulher ribeirinha. Ela respondeu que acompanhava o esposo na roça e quando voltava para casa ainda tinha que lavar as roupas. “Quando chega da roça, não tem a água no taque, a mulher pega a bacia e vai para a beira do rio pegar a água”, disse Jaqueline.
Lula questionou: “Mas agora que a água está suja como é que lava a roupa?”. A mulher respondeu: “A gente lava assim mesmo”. Lula disse: “Mas não limpa, suja”. Jaqueline: “Não limpa, mas dá pra usar”.
Em um dos momentos descontraídos do bate-papo, o presidente se dirigiu a Irenilson, esposo de Jaqueline, e perguntou: “Deixa eu ver essa sua camisa. Foi lavada na beira do rio? Ela que lava?”. Ele disse: “Ela que lava”. Lula perguntou: “E por que você não lava?” Irenilson: “Porque eu me ocupo com ouras coisas”. Lula: “Mas ela disse que vai pra roça trabalhar com você”. A mulher respondeu: “É porque as mulheres trabalham mais que os homens”.
Lula afirmou: “Esse é um problema. É que as mulheres aprenderam a ir para o campo trabalhar com os homens, mas os homens não aprenderam a ir para a cozinha trabalhar com as mulheres”. Irenilson respondeu: “Mas eu vou para a cozinha nessa parte”.
Lula: “Você faz o que?”. Irenilson: “Faço almoço, janta”. Lula: “Você sabe cozinhar?”. Irenilson: “Algumas coisas”. Lula: “Sabe nem fritar um ovo, cara”.
O presidente abriu espaço para que os ministros falassem. A ministra Marina Silva defendeu a atuação da Embrapa para reaproveitamento do solo e a ministra Nísia Trindade prometeu reforçar a presença de médicos na região.
