
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — A democracia não pode ser usada para justificar a imposição de uma única visão religiosa, afirma Daniel Araújo, da Federação Espírita do Tocantins, ao analisar o crescente envolvimento de igrejas evangélicas na política brasileira. Segundo ele, a falta de compreensão sobre a diversidade de ideologias religiosas fragiliza a democracia.
“A democracia está ameaçada justamente pela nossa falta de capacidade de compreender que as ideologias religiosas, os princípios religiosos são diversos. E se a gente não compreende essa diversidade, nós estamos fragilizados. A democracia, ela se faz de forma plural. É muito importante que tenhamos essa compreensão”, disse em entrevista ao ATUAL.
Araújo alerta que tentar enfraquecer a democracia utilizando o discurso de que é “democrático ser contra a democracia” é perigoso, pois legitima ações contrárias ao bem coletivo. Ele enfatiza que a democracia brasileira foi conquistada com lutas históricas e deve ser protegida dentro das instituições consolidadas, garantindo a autonomia dos três poderes.
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Daniel Araújo participou em Manaus, na quinta (28) e sexta-feira (29), do IRI Brasil (Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais) que reuniu líderes de todas as religiões. No evento foi lançado o movimento Rede Amazônia Viva.

“Porque é isso que a gente precisa nas instituições consolidadas; garantir a autonomia dos três Poderes porque hoje a gente vive uma democracia assentada nesses três pilares: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Eles precisam ter os seus campos fortalecidos e não enfraquecidos. E para isso acontecer, é necessário um entendimento crítico que não pode ser inviabilizado pelas religiões a pretexto de ter as suas ideologias garantidas como supremacias em detrimento das outras”, argumenta.
Araújo afirma que qualquer tentativa de enfraquecer a democracia, mesmo sob pretexto de agir democraticamente, é incoerente. “Os direitos conquistados representam o bem coletivo e devem ser protegidos por todos: Aquilo que conquistamos, que é o bem coletivo, merece ser defendido por todos nós”.
Política e limites da religião
Para Daniel Araújo, a mistura entre religião e Estado pode gerar riscos históricos. Ele lembra que regimes autoritários e autocráticos surgiram quando religião e governo se uniram e que é “temeroso” levar uma agenda religiosa como princípio ideológico para a pauta governamental.
“Precisamos, sim, ocupar esses espaços de decisão, mas entender que o Estado é plural e, portanto, deve ser respeitado”. Ele alega que ocupar espaços de poder não é negativo, mas ignorar a pluralidade e tentar impor uma visão única sobre todos representa um risco real.
A essência da religião, explica, permanece intacta, mas o distanciamento individual dos princípios fundamentais é preocupante: “Perder a essência é quando você não tem a consciência do que os seus princípios te convidam a agir. Se nós nos distanciamos do princípio da promoção da pessoa, do amar ao próximo, aí não é a religião, são os religiosos que se afastaram”.
Ele cita a necessidade de conhecer a história para não repetir erros, incluindo legados de escravidão e opressão cultural. “Aquilo que foi conquistado pode ser perdido”.
Tais Yamazaki, representante da comunidade judaica em Rondônia, compartilha o mesmo entendimento de Daniel Araújo e defende que a participação política é inevitável, mas deve ser exercida com responsabilidade e consciência. Para ela, a política deve ser discutida dentro das religiões, pois impacta a sociedade e a formulação de políticas públicas.

“Alguns usam de maneira equivocada esse poder, esse espaço, e que a gente precisa fazer uma retomada das bases”. Iamazaki ressalta que a polarização enfraquece o sistema político e que as religiões podem contribuir promovendo debates internos sobre o papel de cada um na sociedade civil, sem perder a fé. “Não podemos deixar que esses dogmas sejam perdidos dentro de um contexto político. A política é importante, mas a gente não pode perder aquilo que é base fundamental de qualquer instituição religiosa”.
Para o pastor Francivaldo Nascimento, da Assembleia de Deus do Maranhão, a igreja tem papel social e de promoção da paz. Segundo ele, todos estão inseridos em um mundo político e que agir com consciência é essencial.

“Todos estamos incluídos em um mundo político. A gente só precisa ter consciência de como se comportar em cada ambiente”. Para Francivaldo, o envolvimento político não é negativo, desde que respeite as leis e promova harmonia.
Sobre restrições legais à manifestação religiosa, ele acredita que o Estado laico, garantido pela Constituição, protege suficientemente a liberdade de fé e expressão: “Se obedecermos à lei que já temos hoje, que é pétrea [firme, duradoura e difícil de ser alterada e que garante o Estado laico] não vejo nenhuma forma de atrapalhar”.
Apesar das diferenças de perspectiva, os três líderes concordam que a participação religiosa precisa ser equilibrada e respeitosa, garantindo a democracia e a pluralidade. Daniel Araújo alerta para os riscos de imposição de uma única ideologia. Tais Iamazaki reforça a necessidade de proteger a essência religiosa diante da polarização, e o pastor enfatiza que a lei e a convivência pacífica são suficientes para preservar a liberdade de crença.
Ambos citam que a participação religiosa na política é inevitável, mas precisa ser exercida com responsabilidade, conhecimento histórico e compromisso com o bem coletivo. Do contrário, ela enfraquece, fragiliza e se torna ameaça à democracia.
As declarações foram feitas durante o encontro de religiões e tradições espirituais da Amazônia Legal, realizado em Manaus nos dias 28 e 29 de agosto, promovido pela IRI Brasil (Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais).
O evento teve como objetivo discutir estratégias de enfrentamento da crise climática e fortalecer a mobilização social e ambiental na região, conectando lideranças religiosas para ampliar o alcance das ações em defesa da floresta e das populações vulneráveis. Na ocasião, também foi lançada a Rede Amazônia Viva.
