
Por Feifiane Ramos, do ATUAL
MANAUS — O cardeal e arcebispo de Manaus, dom Leonardo Steiner, afirmou nesta terça-feira (26) que o país vive um momento de tensão entre grupos “a favor e contra a democracia” a poucos dias do julgamento “da assim chamada tentativa de golpe”, no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete aliados são réus. Ele defendeu a democracia, que considerada necessária, e afirmou que o diálogo é essencial para sua preservação.
“Não podemos desistir da democracia. Se tramaram contra a democracia, é preciso ir a julgamento com toda defesa que é possível fazer, mas é preciso que a democracia mostre o caminho. O caminho da convivência não tem outro se não a democracia, independentemente do tipo de governo que exista, é necessário a democracia”, disse em entrevista coletiva.
Para dom Leonardo Steiner, a democracia não corre risco, pois as “instituições funcionam”. Ele citou o STF (Supremo Tribunal Federal), o Congresso Nacional e o Executivo. O cardeal disse, porém, que o modo de pensar as relações democráticas, entre ser contra ou a favor da democracia, dificulta a plena existência dela. “Mas nós, como cristãos e católicos, não podemos desistir do diálogo”.
Ao avaliar o cenário político, dom Leonardo destacou que a defesa da democracia exige vigilância constante diante de ameaças autoritárias. Segundo ele, quando setores da sociedade relativizam princípios democráticos, acabam abrindo espaço para retrocessos históricos. “Flertar com o autoritarismo é flertar com a ditadura”, afirmou.
Ele ressaltou ainda que a democracia não se mantém apenas pelo voto, mas pela prática cotidiana do diálogo e do respeito às diferenças. Para ele, é necessário criar uma cultura de escuta, capaz de conter discursos de intolerância e divisão. “É preciso educar para o diálogo e para a escuta, porque sem isso só cresce a intolerância”, disse.
O arcebispo se manifestou na apresentação do 31º Grito dos Excluídos e Excluídas 2025, que tem como lema: “Cuidar da Casa Comum e da Democracia é luta de todo dia”. Na ocasião, Leonardo Steiner explicou que o evento busca “dar horizontes” para o cuidado com a vida e com todos que habitam o planeta.
Steiner citou que, especialmente na Amazônia, há o “privilégio” de apreciar a natureza em sua origem, mas também a preocupação com a destruição ambiental, sobretudo por projetos de lei que, segundo ele, deveriam beneficiar a população, mas priorizam o ganho econômico e interesses privados.
“Com projetos que estão no Congresso, nós veremos que a destruição [da natureza] acontecerá ainda mais, especialmente se for aprovada a mineração em terras indígenas que tem caminhado para uma segunda comissão […] É interessante essa questão, porque eu não sei se os deputados e senadores permitiriam a mineração nas próprias terras, mas como é terra dos outros e se trata de terras indígenas, então pode. Vejam onde foi parar a nossa democracia. A imposição de um determinado grupo de pessoas com interesse de grupos, principalmente de mineradoras”, declarou.
Segundo o cardeal, o Grito dos Excluídos busca mostrar um olhar de “vida em primeiro lugar”. “A vida humana, a vida da natureza e a vida das nossas relações, por isso também falamos da vida democrática”.
Grito dos Excluídos
O Grito dos Excluídos e Excluídas deste ano tem o tema “Vida em primeiro lugar”, com programação em dois momentos: o primeiro será na sexta-feira (29) com a abertura do evento, incluindo o lançamento da campanha “Água e lixo não combinam”, voltada ao combate à poluição e ao saneamento dos igarapés de Manaus, e a apresentação de uma carta-compromisso que contará com 40 instituições.
No dia 5 de setembro ocorrerá a caminhada pelas ruas da cidade para dar voz a quem sofre injustiças sociais e “clama” por moradia digna, assistência à saúde, democracia e políticas públicas, conforme explicou, o vice-presidente da Cáritas, padre José Alcimar Souza de Araújo.

“O tema do Grito é sempre esse: vida em primeiro lugar, a vida com seu valor, dignidade e direitos, e a necessidade do cuidado. A Casa Comum é fundamental para que a vida tenha dignidade, por isso gritamos para que, nesse processo democrático, sejam garantidos os direitos da natureza e dos povos. A democracia nos possibilita manifestar nossas opiniões, nos organizar e, como coletivo, pressionar os governos”, disse José Alcimar Souza de Araújo.
Segundo ele, se não há participação popular na democracia, “há controle” dos grupos do Congresso, e não há representação massiva dos interesses da sociedade. Hoje, a maioria dos políticos, segundo ele, defende pautas de interesse próprio ou de uma pequena minoria. “É necessário que a sociedade tenha consciência do seu papel nas questões sociais, porque, se não cuidarmos, outros vêm e tomam conta”, concluiu.

Eu esperava um pouco mais de inteligência de um arcebispo. Ou talvez não seja inteligência o que lhe falta.