
Por Luiz Araújo, Mateus Maia e Gabriel Hirabahasi, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que, diante de um eventual cenário de suspensão de compras de commodities brasileiras por parceiros internacionais, parlamentares do agronegócio que se colocaram contra seus vetos ao projeto de licenciamento ambiental (PL 2159/21) podem voltar a procurá-lo para intermediar negociações diplomáticas. Lula disse que a própria bancada ruralista pode enfrentar pressões caso importadores adotem restrições ambientais mais severas.
“Essa mesma gente que derrubou meu veto, quando a China e a Europa parar de comprar vão vir falar comigo”, afirmou Lula, mencionando ainda outros parceiros comerciais como Estados Unidos e Rússia.
Em discurso durante a 6ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável, Lula disse que os congressistas ignoraram alertas internos sobre os riscos comerciais associados ao enfraquecimento das regras ambientais. “Se a bancada do agronegócio ouvisse Eraí Maggi, não teriam derrubado vetos sobre licenciamento ambiental”, afirmou, em referência ao empresário que também discursou no evento.
O presidente enfatizou que os vetos foram impostos para evitar prejuízos futuros ao setor. “Não vetamos licenciamento porque não gostamos do agro, mas para proteger o agro”, disse.
O presidente afirmou que medidas que fragilizem a sustentabilidade da produção podem dificultar o acesso aos principais mercados internacionais. Ele defendeu que o Brasil avance em práticas sustentáveis para garantir competitividade e lembrou que o país opera com níveis de energia renovável superiores aos de economias desenvolvidas.
Jornada 6x’
Lula também defendeu a revisão da jornada semanal de trabalho no Brasil, afirmando que os avanços tecnológicos tornam obsoleto o modelo atual, de seis por um.
“O que avançou tecnologicamente que a gente não reduz a jornada de trabalho?”, questionou durante discurso na 6ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável (CDESS), o Conselhão.
Segundo o presidente, o debate sobre redução da jornada deve ser retomado de forma estruturada, à luz das transformações do setor produtivo. “Não tem mais sentido nosso País, com avanços tecnológicos, manter a atual jornada de trabalho”, afirmou.
Lula disse que a discussão precisa envolver sindicatos e especialistas, com foco na reorganização do modelo de seis dias trabalhados por um de descanso.
Mandatos remotos
O presidente questionou por que autoridades do Judiciário e do Legislativo podem ficar meses viajando e exercendo seus mandatos via remota. Segundo ele, é preciso que instituições deem exemplo e que isso chateia a sociedade.
“Por que um ministro da Suprema Corte pode ficar três meses viajando e vota pelo celular? Por que um ministro do Superior Tribunal de Justiça vota pelo celular? Por que um juiz de primeira Instância está em casa tomando cerveja e ele vota pelo celular, condenando uma pessoa? Por que um deputado pode ficar três meses fora votando pelo celular e eu tenho que passar o mandato para o Alckmin”, disse.
O presidente disse que isso são coisas que vão incomodando a sociedade e que é preciso dar exemplo e dar seriedade. Lula disse ainda que, se depender dele, o país jamais será governado por quem não acredita na democracia.
