
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS — A violência contra mulheres no ambiente acadêmico não é pontual, mas estrutural. Ela está ligada a relações hierárquicas e desigualdades de gênero nas universidades, favorecendo situações de assédio, dificultando denúncias e impactando a permanência das vítimas na vida acadêmica, mostra estudo de pesquisadores da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e da UEA (Universidade do Estado do Amazonas).
Segundo a pesquisa, a sala de aula é apontada pela maioria dos participantes como o local mais violento para mulheres e homens. É nesse espaço que a figura do professor é percebida como de superioridade e que relações hierárquicas de subordinação podem levar a condutas abusivas, principalmente de assédio.
A pesquisa “Violência contra as mulheres na universidade: uma análise nas instituições de ensino superior no Amazonas” foi realizada em 2020 por pesquisadoras e pesquisadores da Ufam e da UEA, com financiamento da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), e publicada em 2021 em formato de e-book pela Editora da Ufam em parceria com a Alexa Cultural.
O estudo foi organizado pela professora Milena Fernandes Barroso, vinculada ao Temppus, Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Teoria Social Crítica, Estado, Movimentos Sociais e Políticas Sociais.
A pesquisa ouviu 1.166 pessoas nas três principais instituições públicas de ensino superior do estado, incluindo o Ifam (Instituto Federal do Amazonas), sendo 65% mulheres, 32% homens e cerca de 2% de outro gênero, tendo como referência os cinco anos anteriores à pesquisa.
Das pessoas que relataram sofrer violências nas instituições, 73% são mulheres. Os resultados apontam também que, embora mulheres e homens sejam vítimas de violência, sua prática é predominantemente executada por homens em um percentual que ultrapassa 85%.

Do total, 38% afirmam que foram vítimas de algum tipo de violência nos últimos cinco anos antes de 2020. Foram identificados assédio moral e sexual, estupro, discriminação social, racismo, xenofobia, homofobia, lesbofobia e transfobia.
Entre as mulheres, 24,39% sofreram assédio, inclusive na internet; 16,11% sofreram humilhação; 11,96% sofreram assédio sexual, estupro ou importunação sexual; 5,17% foram ameaçadas; 3,91% sofreram discriminação social; 4,02% sofreram furto; 1,95% sofreram discriminação racial e 1,61% foram vítimas de lesbotransfobia.
Machismo e efeito patriarcal
Para a professora Iranildes Caldas, da Ufam, que acompanhou os resultados da pesquisa, o fenômeno é reflexo de uma estrutura maior. “A nossa sociedade é muito machista. O sistema patriarcal é visível na sociedade brasileira, há uma dominação masculina que tenta sufocar a voz das mulheres, que tenta diminuir, desvalorizar as mulheres. E é claro que essa perspectiva patriarcal vai estar presente também nas universidades, como vai estar presente nas igrejas, nas instituições, até no jogo de futebol”.
A professora Milena Barroso, organizadora da pesquisa e que atuava na Ufam quando o estudo foi conduzido — hoje ela está na UFS (Universidade Federal de Sergipe) —, corrobora essa leitura.
“A universidade não é uma bolha, uma ilha. Assim sendo, é também espaço de desigualdades que se apresentam na sociedade em geral. As universidades são espaços elitizados, patriarcais e racistas, e a presença de mulheres seja em sala de aula como discentes, docentes, em cargos de gestão, como técnicas-administrativas e na área de serviços como terceirizadas, incomoda e mobiliza a inquietação de quem detém os privilégios desse espaço”, explica.

Silêncio e medo
Grande parte dos casos de violência identificados na pesquisa não foi denunciada formalmente. Os motivos são variados: medo de retaliações, vergonha, desconhecimento dos canais disponíveis e descrença na efetividade das respostas institucionais.
Para quem está no início da vida acadêmica, o receio é ainda maior. “Os efeitos da violência em estudantes ingressantes contribuem para a desistência e para a pouca iniciativa em denunciar, com receio de perda de bolsas e espaços em grupos de pesquisa, ou medo de reprovação”, afirma a professora Milena Barroso.
O impacto sobre a permanência na universidade é concreto. “Há estudantes que não querem ir para a universidade porque vão encontrar com tal professor. Isso tem a ver com desistências. Ele não quer encontrar com tal professor, então não vai para aula”, disse a professora Iranildes Caldas, que cita traumas psicológicos gerados por essas experiências.
“Essas meninas que se viram necessitadas da nota do professor, da inclusão delas em projeto de Pibic, de Pibex, de outros benefícios que a universidade tem para estudante, elas se viram em meio a assédio sexual. Então, o professor dizia: ‘se você quiser passar de nota de disciplina, você sai comigo. Mas se não sair, não tem problema, vai ficar reprovado’”, relatou
No dia 20 de maio de 2026, estudantes da Ufam protestaram no campus de Manaus, principalmente alunos da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia, contra abusos. Os manifestantes exibiram cartazes com frases “Não é professor, é assediador”, “Assédio é crime” e “Silêncio protege o agressor, não a vítima”. O movimento surgiu após denúncias recorrentes de abusos de professores e da falta de respostas efetivas da instituição.
Estudantes afirmaram que professores utilizavam atividades práticas e exigências de vestimenta esportiva como contexto para comportamentos inadequados, incluindo toques físicos e comentários considerados abusivos. Algumas vítimas disseram ter denunciado o caso à polícia.
A mobilização também ganhou força após a denúncia de estupro envolvendo dois estudantes da universidade. A vítima, uma estudante de Ciências Agrárias, denunciou ter sido violentada após uma festa universitária. O caso ocorreu fora do campus, mas mobilizou os centros acadêmicos e ampliou a pressão por medidas institucionais mais rigorosas.
Iranildes Caldas mencionou uma mudança de postura com a gestão atual. “Quando acontece uma manifestação de estudante denunciando o assédio, aí nós tivemos o reforço da administração superior com a reitora Tanara (Lauschner), fazendo frente, enfrentando essa situação, dizendo que serão punidos aqueles que forem denunciados, e isso nos deixou com um pouco mais de esperança aqui dentro da Ufam com relação a esse tema”.
Acolher e afastar
Em nota, a Ufam informou que, ao receber uma notificação, a prioridade é o acolhimento à vítima e a aplicação imediata de medidas cautelares, incluindo o afastamento temporário do investigado. A investigação dura, em média, 30 dias e pode resultar na instauração de um PAD (Processo Administrativo Disciplinar). Caso as acusações sejam comprovadas, as penalidades previstas são expulsão para estudantes ou demissão para docentes.
A universidade informou ainda que o Ministério Público Federal e a Polícia Federal passaram a ser acionados logo no início das apurações, sem necessidade de aguardar a conclusão do processo administrativo. Os canais de denúncia incluem a Ouvidoria da Ufam, por meio da Plataforma Fala.BR. A instituição não enviou os dados numéricos solicitados até o fechamento desta reportagem.

Sala segura
No Ifam (Instituto Federal do Amazonas), os abusos foram revelados em 2025 a partir de denúncias de estudantes. O principal caso envolve um professor acusado de assédio sexual, violência psicológica e importunação contra estudantes, incluindo adolescentes, que utilizava sua posição acadêmica para abordagens inadequadas dentro e fora da instituição, inclusive por aplicativos de mensagens. E
m abril de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Sala Segura em que cumpriu mandados de busca e afastamento cautelar do professor investigado.
As denúncias também atingiram a cúpula da instituição. O reitor Jaime Cavalcante Alves tornou-se réu na Justiça Federal após investigação do Ministério Público Federal apontar suposto vazamento de dados sigilosos de vítimas e testemunhas para servidores investigados. As denúncias ocorrem desde 2019 sem solução. Estudantes e familiares relataram sensação de insegurança e medo de represálias.
Dados fornecidos pelo Ifam ao ATUAL mostram que entre 2020 e 2026 a instituição instaurou 22 Processos Administrativos Disciplinares relacionados a assédio moral e sexual. Todos resultaram em afastamento cautelar dos investigados. No total, 12 servidores foram demitidos ao longo do período: um em 2020, um em 2021, dois em 2022, cinco em 2023, um em 2024 e dois em 2025 — sendo uma demissão e uma suspensão neste último ano. Atualmente, há seis investigações em andamento.
O Ifam informou que desde novembro de 2024 executa a Política Institucional de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual.
Vinte e uma denúncias
Na UEA, a Comissão de Regime Disciplinar registrou, entre 2023 e maio de 2026, 15 denúncias de assédio moral e seis de assédio sexual. Dessas, 17 envolveram professores e duas implicavam estudantes. Entre as vítimas, 11 são alunos e sete são docentes. As medidas incluíram exoneração e desligamento estudantil. Atualmente, um caso está em investigação.
Em 2024, a UEA criou, em parceria com o TCE-AM (Tribunal de Contas do Estado do Amazonas), o Núcleo da Mulher da Ouvidoria da UEA para prevenção ao assédio. A universidade informou que trabalha para instituir um Comitê de Prevenção e Enfrentamento à Violência e ao Assédio, formado por professores de Direito, psicólogos e outros profissionais, que deverá lançar uma política específica sobre o tema.
A Ufam não disponibilizou dados atuais e alegou espaço de tempo curto e ao número de solicitações para atender o pedido que o ATUAL deve fazê-lo pela Lei de Acesso à Informação.
A solicitação foi feita na Plataforma Fala.BR e o prazo inicial de atendimento é 15 de junho de 2026. “O seu pedido de informação deverá ser processado no prazo de 20 (vinte) dias, conforme estabelecido no art. 11, § 1º, da Lei nº 12.527/2011, podendo esse prazo ser prorrogado por mais 10 (dez) dias, mediante justificativa expressa, conforme dispõe o art. 11, § 2º, da referida Lei”, informou a Ufam.
Mudança estrutural
Para as pesquisadoras ouvidas pelo ATUAL, punições isoladas não são suficientes. “A mudança deve ser estrutural, em toda a organização. A violência não é um problema individual, de pessoas isoladas. Tem fundamento nas relações patriarcais, racistas e elitistas”, disse a professora Milena Barroso.
Ela também apontou exemplos de políticas universitárias que podem servir de referência: o NAH (Núcleo de Acolhimento Humanizado às Mulheres em Situação de Violência da Uece ( Universidade Estadual do Ceará), a Ouvidoria Feminina Athenas da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), a Política de Equidade de Gênero da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), a Casa Frida Kahlo da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e a Política contra o Assédio na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
No caso da Ufam, destacou que a Política de Equidade de Gênero, aprovada pelo Consuni em 2018, ainda enfrenta desafios de implementação.
A pesquisadora também alertou que gênero, raça e classe explicitam desigualdades estruturais. Para ela, as políticas precisam contemplar toda a comunidade acadêmica, “principalmente estudantes e trabalhadoras terceirizadas que muitas vezes não estão incluídas nos textos das políticas”.
A professora Iranildes Caldas reconhece a dificuldade da tarefa. “A gente parece nadar, nadar… Eu sou feminista desde os 15 anos e já com muitas pesquisas realizadas, mas mesmo assim há momentos que a gente fica meio cética e sem acreditar que pode haver mudança nessa sociedade. Mas estamos batalhando para que haja”.
