
Por Eduardo Laguna, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – O presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Josué Gomes da Silva, defendeu nesta quarta-feira (10) o fim dos repasses a entidades patronais de recursos do Sistema S, como é chamado o conjunto de organizações que inclui o Senai, Sesc, Sesi e Sebrae, mantidas com contribuições recolhidas da folha de pagamento de empresas.
“Eu acho que deveria zerar. E já achava antes da decisão do TCU”, comentou Josué, referindo-se ao acórdão do Tribunal de Contas da União, de 23 de julho, que trata do acompanhamento da transparência das entidades do Sistema S.
Após classificar como “muito bem fundamentada” a decisão do TCU, Josué disse durante café da manhã com jornalistas que os desperdícios de recursos do Sistema S estão, principalmente, na distribuição da taxa de administração a entidades patronais. “E aí não se trata esse recurso com transparência. O TCU determinou que esse recurso deve ter transparência”, comentou o empresário.
O presidente da Fiesp discordou das críticas feitas por algumas entidades de que houve interferência do tribunal de contas na liberdade sindical. “O TCU não quis interferir na liberdade sindical … A entidade patronal precisa existir. É fundamental que ela exista. Mas é fundamental que ela tenha transparência na aplicação de um recurso que é público”, disse.
Jogo de interesses
Às vésperas de encerrar mandato, Josué Gomes da Silva afirma que Congresso tem sido “muito permeável” a grupos de interesses corporativos. Segundo ele, pressões de organizações com maior capacidade de articulação política têm prevalecido sobre os interesses do setor produtivo, em especial no Congresso. Isso levou, entre outros resultados, a um grande número de exceções na reforma tributária, com consequente derrota da Fiesp no pleito por um IVA máximo de 25%.
Josué disse que sai da Fiesp mais liberal do que quando entrou. “Estou quase abraçando o discurso ultraliberal. Eu saí da Fiesp mais liberal do que quando entrei. Sempre fui liberal (…) É que eu cheguei aqui e meio que me desanimei sobre a capacidade do Estado em agir corretamente. Porque o Estado acaba agindo de acordo com a influência dos grupos de pressão. E aí ele pode agir corretamente para aqueles grupos de pressão, mas não para toda a economia”, afirmou.
“Então, como eu estou hoje cético quanto à capacidade de o Estado atuar de maneira adequada para o desenvolvimento nacional, estou abraçando a tese de que talvez seja melhor tirar de fato o Estado, tornar tudo isonômico, não dar benefício para ninguém e deixar que cada um se vire”, complementou.
Ao falar sobre a perda de influência do setor produtivo ante segmentos que obtiveram benefícios, Josué voltou a criticar o que chama de Síndrome de Estocolmo, referindo-se ao apoio de industriais à agenda do mercado financeiro.
“É comum, em qualquer atividade, em qualquer entidade de classe empresarial, a defesa dos mesmos pontos que o setor financeiro sempre defende, como que o problema da taxa de juros é que o Estado gasta mal, gasta demais. É até verdade, em parte, mas não é isso que vai resolver o problema da taxa de juros. E a gente repete o mesmo mantra do setor financeiro”, comentou.
“Nós nos tornamos como aquele sequestrado que se apaixonou pelo sequestrador, e que fica repetindo o discurso do sequestrador. Nós nos apaixonamos pela causa dos outros setores que sequestraram a agenda econômica brasileira. É por isso que a gente não consegue vencer esse debate”, concluiu.
