
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Presa nesta segunda-feira (19) por suspeita de se passar por médica em Manaus, Sophia Livas de Morais Almeida, de 30 anos, é investigada por atender clandestinamente pacientes, inclusive crianças com cardiopatia e autismo. Nas redes sociais, a mulher expunha a rotina como se fosse médica. Usava jaleco e estetoscópio, e até publicava fotografias de procedimentos cirúrgicos.
A mulher se infiltrou no HUGV (Hospital Universitário Getúlio Vargas) através um curso de mestrado, onde conheceu médicos e conquistou a confiança deles. Segundo a Polícia Civil do Amazonas, Sophia enganou não apenas médicos, mas também pacientes e até parlamentares federais. Com a confiança que obteve, chegou a atender pacientes em uma clínica particular.
Sophia não é formada em medicina e, por isso, não possui registro no Conselho Regional de Medicina. A polícia suspeita que ela tenha se aproveitado do acesso ao HUGV para usar o carimbo com o nome e registro de uma médica do hospital e, assim, emitir atestados falsos.
As fraudes vieram à tona após uma empresa comunicar o Conselho Regional de Medicina sobre a comercialização de atestados com o carimbo da médica do HUGV. Notificada, a médica verdadeira registrou o caso na polícia.
A polícia suspeita que Sophia usou o nome da médica para conceder atestados para justificar faltas, com afastamentos de até 12 dias. Em dois casos, as fraudes nos documentos foram identificadas e os trabalhadores foram demitidos. Os atestados continham o timbre do HUGV.

Sophia foi presa por policiais do 1º DIP (Distrito Integrado de Polícia) enquanto treinava em uma academia no bairro Cachoeirinha, na zona sul de Manaus. Na delegacia, ela preferiu ficar em silêncio.
Em nota, o HUGV informou que Sophia “nunca atuou como médica no hospital e nem constam registros de atendimento médico feito por ela na unidade hospitalar”.
O Cremam (Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas) comunicou que não recebeu qualquer denúncia formal sobre a atuação de Sophia e que, em casos como este, encaminha as informações à polícia e ao Ministério Público.
Como ela se infiltrou no HUGV?
Sophia é formada em Educação Física pela Ufam. Em 2023, ela foi classificada para o cursar mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Ufam, cujo edital não exigia graduação em medicina. O processo seletivo ofertava 43 vagas, mas só 31 foram classificados.
Conforme os documentos publicados pela própria Ufam, Sophia foi aprovada para fazer o curso sob a orientação da professora Luciane Rocha, médica cardiologista pediátrica e fetal. Segundo a polícia, foi ali que Sophia conheceu outros médicos e passou a se passar por profissional da medicina.
Inicialmente, ela afirmou aos professores que havia trancado o curso de Medicina. Depois, disse que conseguiu concluir a graduação pela Universidade Nilton Lins. Chegou a apresentar um histórico escolar com o timbre da instituição — documento que, segundo a polícia, era forjado.
No dia 10 deste mês, a professora relatou à polícia que também foi vítima de Sophia. Um trecho do depoimento dela registrado na delegacia diz: “[Luciane declarou que] foi usada pela nacional acima citada e que, na realidade, é mais uma vítima dessa senhora”.
Luciane disse que a mulher se apresentava como sobrinha do prefeito de Manaus, David Almeida. Essa informação foi negada pelo prefeito nesta segunda-feira. “Não tenho qualquer parentesco com a mulher investigada”, disse David, nas redes sociais.
A médica contou que, antes de ser aprovada no mestrado da Ufam, Sophia entrou em contato com ela e relatou que tinha sido gestora de uma unidade de saúde, que teve que lidar com casos de malformação fetal e que queria seguir nessa linha de pesquisa no mestrado da Ufam.
Luciane afirmou que marcou entrevista com Sophia e, depois disso, foi criado um projeto de pesquisa em cardiologia fetal. A professora afirmou que a proposta permitia a participação de profissionais formados em Educação Física.
A professora disse que realizava todo o atendimento médico, acompanhada por uma equipe multidisciplinar da qual Sophia fazia parte. A médica negou que Sophia tenha realizado qualquer atendimento médico no âmbito do projeto.
Luciane afirmou que, no dia 8 deste mês, recebeu uma informação que indicava que Sophia se passava por médica: um print de um atestado médico concedido pela aluna. Diante dos fortes indícios, a professora disse que solicitou o desligamento de Sophia de todos os projetos do hospital.

Influência
A investigação aponta que, após se infiltrar no HUGV, Sophia enganou Luciane e o professor Robson de Amorim — que também coordena o curso de mestrado da Ufam — alegando ter “conhecimentos políticos” capazes de “abrir portas” para a obtenção de auxílios do governo federal.
Em razão disso, a mulher viajou a Brasília para reuniões nos ministérios da Saúde e Educação e até posou ao lado de parlamentares, incluindo o deputado federal Fausto Júnior (União Brasil-AM).
Sophia também participou de um podcast organizado pela professora Luciane. No programa, apresentava-se como médica e entrevistava convidados sobre temas relacionados à cardiologia pediátrica e fetal. Segundo Robson, em um dos episódios, a própria Sophia foi entrevistada para falar sobre o aconselhamento de gestantes em casos de cardiopatias fetais.
A confiança em Sophia era tanta que ela passou a ajudar os professores na organização do evento Congresso de Neurocirurgia do Brasil, que será realizado em julho em Manaus.

Falsa rotina
A polícia teve acesso a prints de vários stories do perfil de Sophia, nos quais ela exibia uma rotina como se fosse médica. Chegou, inclusive, a utilizar fotografias retiradas da internet de procedimentos cirúrgicos para simular essa atuação.
Em diversas imagens, Sophia aparece usando jaleco — com a inscrição “cardiologia fetal” na manga — e estetoscópio, ao lado de outros médicos.
Muitas dessas fotos foram tiradas em locais onde aparecem, ao fundo, os brasões da Ufam e do HUGV, sugerindo que ela atuava naquele hospital. Ela também publicou imagens com a localização do Hospital Platão Araújo, na zona leste, acompanhadas da legenda: “Plantão sabático”.
Sophia ainda postava fotos em que aparecia de jaleco, abraçando crianças que dizia estar atendendo. Em algumas legendas, escreveu: “Dia de avaliar meu príncipe” e “Hoje também foi dia de conhecer minha nova mini melhor amiga”.
Desde 2023, ela integrava a Comissão Própria de Avaliação da Ufam como representante da Faculdade de Medicina — órgão responsável por conduzir os processos de avaliação internos da universidade.
Outras vítimas
Sophia também é suspeita de enganar a médica Renata Silva, que tem uma clínica particular na zona oeste de Manaus. A polícia investiga se foi Sophia quem atendeu e receitou medicamentos a crianças autistas nessa clínica.
No dia 6 deste mês, o pai das crianças disse à polícia que os filhos foram atendidos pela mulher, que se identificou com o nome da médica do HUGV. Ele relatou que a mulher receitou medicamentos às crianças e afirmou estar perplexo por saber que se tratava de uma falsa médica.
Renata disse à polícia que conheceu Sophia no curso de mestrado da Ufam e que foi informada que a mulher estava concluindo o curso de medicina. Conforme Renata, Sophia prestava atendimento como médica no HUGV. A médica confirmou que a mulher chegou a prestar atendimento e acompanhamento a crianças com cardiopatia e mães grávidas na clínica dela.
Os investigadores também identificaram outras pessoas que foram atendidas por Sophia. A polícia apresentou a essas pessoas fotografias de quatro mulheres e as testemunhas reconheceram Sophia Almeida como sendo a pessoa que se passou por Sophia Dib.
Boletim falso
No dia 1º de maio, após ser exposta como falsa médica nas redes sociais, Sophia Almeida registrou uma ocorrência na delegacia com informações falsas. Segundo a polícia, foi uma estratégia para convencer outros médicos de que ela estava sendo difamada.
No boletim de ocorrência registrado por ela consta o seguinte teor: “No dia 01/05/2025 fui surpreendida com um print enviado para mim de uma falsa acusação de que eu estaria exercendo ilegalmente a minha profissão de médica, posto que sou devidamente registrada no CRM”.
Ao ser presa nesta segunda-feira, Sophia foi questionada se era médica e negou. Ela é investigada pelos crimes de falsidade ideológica, charlatanismo, curandeirismo, falsa identidade, exercício ilegal da medicina, falsificação de atestado médico e estelionato contra vulnerável.
Leia a íntegra da nota enviada pelo HUGV ao UOL:
“O Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV-UFAM/Ebserh) esclarece que Sophia Livas de Morais Almeida nunca atuou como médica no hospital e nem constam registros de atendimento médico feito por ela na unidade hospitalar. Ela foi aluna do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal do Amazonas como educadora física. O acesso às instalações da UFAM, incluindo o HUGV, se dava apenas na condição de mestranda. E, por já ter concluído o mestrado na Universidade, a ex-aluna não tem nenhum vínculo com a instituição. O HUGV está à disposição das autoridades policiais para ajudar no que for necessário”
Leia a íntegra da nota do Conselho Regional de Medicina do Amazonas:
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CREMAM), no exercício de suas atribuições legais e com fundamento na Lei nº 3.268/1957, vem a público esclarecer que, até a presente data, não recebeu qualquer denúncia formal acerca da atuação da pessoa identificada como “Sophia Almeida”, cuja eventual prática ilegal da medicina tem sido objeto de ampla repercussão em redes sociais e meios de comunicação.
Não obstante, o CREMAM destaca que, sempre que recebe comunicações envolvendo indícios do exercício ilegal da medicina por pessoas não inscritas nos seus quadros, encaminha prontamente tais informações aos órgãos competentes, notadamente às autoridades policiais e ao Ministério público, para que sejam adotadas as providências legais cabíveis.
Por fim, com o objetivo de contribuir para a proteção da sociedade e o combate à atuação de falsos profissionais, o CREMAM orienta que a verificação da regularidade de médicos pode ser realizada diretamente pelo público por meio do portal do Conselho Federal de Medicina, disponível no endereço eletrônico: https://portal.cfm.org.br/busca-medicos.
AMARILDO BRITO
Presidente em exercício do CREMAM
