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Dia a Dia

Estudo busca identificar se remédios já existentes podem tratar outras doenças

7 de março de 2022 Dia a Dia
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pesquisadores
Pesquisa busca identificar se remédios já existentes podem tratar outras doenças (Foto: Divulgação/Fiocruz)
Por Samuel Fernandes, da Folhapress

SÃO PAULO – Uma pesquisa avaliou milhões de artigos científicos para observar possíveis ligações ainda desconhecidas entre doenças de diferentes origens e tipos.

A expectativa é que as descobertas colaborem para inovações em reposicionamento de fármacos –quando um medicamento é utilizado em um tratamento diferente daquele para o qual foi desenvolvido inicialmente.

A pesquisa foi publicada na revista científica iScience e é assinada por pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, como UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e USP (Universidade de São Paulo).

Helder Nakaya, um dos autores do estudo e pesquisador sênior do Einstein, explica que uma das razões de iniciar o projeto foi o fato de que a quantidade de artigos publicados é enorme, o que impede que um cientista consiga acessar todo o conhecimento disponibilizado para uma doença. “Isso é muito frustrante porque o que a gente quer é conseguir todo o conhecimento sobre aquela doença e ser o especialista principal dela”, afirma.

No total, foram analisados 30 milhões de artigos publicados entre 1990 e 2018, abrangendo 99 doenças e mais de 3.700 genes. Para acessar todo esse conteúdo, utilizou-se inteligência artificial para identificar relações entre os marcadores genéticos, as doenças e os remédios que eram utilizados nos seus tratamentos.

“O que o [método] fez foi ler automaticamente milhões e milhões de artigos, criar uma rede de relações entre genes, doenças e drogas, então você tinha na verdade uma rede de conexões de conhecimento”, afirma.

Nakaya explica que, no estudo, foram considerados alguns parâmetros para evitar erros nas análises dos artigos. Por exemplo, só foi considerada uma relação entre genes, doenças ou drogas quando ela era encontrada em duas publicações independentes, para não considerar estudos ainda muito incipientes.

A partir dessa rede advinda das análises das publicações, é possível observar os genes que estão relacionados a uma doença e os fármacos que tratam essa enfermidade. Também pode-se comparar com outras doenças que têm marcadores genéticos semelhantes e eventualmente testar se a droga utilizada para tratar uma enfermidade pode ser reposicionada para uma outra.

Mesmo com a finalidade de gerar esse mapa de relações, a pesquisa não busca cravar o reposicionamento dos fármacos. “Esse é um trabalho inicial que serve para apontar ‘olha pessoal, tentem usar esse fármaco para tratar essa doença'”, explica.

Segundo Nakaya, é importante que outras pesquisas sejam feitas para confirmar ou não a segurança e viabilidade do reaproveitamento de um remédio para outra doença.

Nesse caminho, o pesquisador menciona que já existem algumas iniciativas que observam a rede mapeada para propor outras investigações. Um desses casos é de um fármaco que, se reposicionado, pode agir contra a esquizofrenia e que está sendo estudado por cientistas na Unicamp (Universidade de Campinas).

“A ideia consiste em testar um fármaco usado contra a artrite para validar o seu potencial uso no tratamento da esquizofrenia”, afirma Daniel Martins-de-Souza, professor de bioquímica da Unicamp.

Ele explica que o ponto de partida para esta pesquisa foram as associações de marcadores genéticos entre as duas doenças –a mesma coisa observada na pesquisa de Nakaya. A hipótese é que o remédio tenha uma função anti-inflamatória com a esquizofrenia e também atue nos atrócitos, que são células associadas com a doença.

Na Unicamp, os pesquisadores estão realizando estudos in vitro nesse tipo celular e, segundo Martins-de-Souza, o resultado inicial “tem sido bem promissor”.

Outras análises do medicamento que vêm sendo feitas em animais na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP têm tido desfechos preliminares semelhantes ao modelo in vitro.

Embora as análises iniciais sejam positivas, ainda são necessárias diversas outras etapas para se comprovar a eficácia e a segurança do remédio para outra doença.

Caso se comprove a possibilidade de uso para esquizofrenia, o professor de bioquímica da Unicamp explica que os pacientes podem ter dois benefícios: menos efeitos colaterais e maior eficácia em alguns casos.

Essa preocupação de chegar a um tratamento que acarrete em menos problemas para os pacientes e que tenha uma eficácia maior também é algo que Nakaya aborda sobre sua pesquisa. “Uma rede [de conexões de genes, doenças e fármacos] é importante porque você consegue ver quais são as regiões específicas que podem ser afetadas por drogas sem destruir e sem afetar a rede toda”, diz.

No momento, ele já está envolvido em outra pesquisa de caráter parecido, mas agora focada somente em doenças virais. “É uma análise similar a essa, só que para todos os vírus humanos, incluindo obviamente o Sars-CoV-2”, afirma.

A expectativa é semelhante: identificar os genes associados às enfermidades causadas por esses patógenos, podendo resultar em novos meios de tratamento.

“Se você sabe quais são os genes afetados pelos diferentes vírus, se [eles] são respiratórios ou se são outros tipos de vírus, quais são os mecanismos associados com eles, então a gente consegue entender quais genes são genéricos, ou seja, que qualquer infecção viral aumenta esses genes”, explica.

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Assuntos doenças, estudos, remédios
Murilo Rodrigues 7 de março de 2022
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