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Dia a Dia

Especialista em vírus diz que, ao pegar Covid-19, pensou: ‘eles se vingaram’

14 de maio de 2020 Dia a Dia
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Todos devem ser desinfetados com cloro após cada viagem carregando casos suspeitos de Ebola (Foto: Foto: Martine Perret/ONU)
Por Ana Estela de Souza Pinto, da Folhapress

BRUXELAS,- O virologista belga Peter Piot, que participou da descoberta do vírus ebola em 1976 e passou as últimas quatro décadas combatendo doenças infecciosas, foi quase derrotado pelo coronavírus.

Contaminado em março, se autoisolou por 14 dias, ficou internado por uma semana em um hospital de Londres e se recupera em casa. Ainda hoje, seu fôlego falha e sente que à noite lhe falta a voz.

“Houve momentos em que pensei ‘Eles me pegaram. Dediquei minha vida à luta contra vírus e, finalmente, eles se vingaram’. Durante uma semana, equilibrei-me entre o céu e a Terra, à beira do que poderia ter sido o fim”, relatou ele à revista belga Knack no começo deste mês, na primeira entrevista desde que ficou doente.

O especialista diz que sua longa carreira de pesquisa o levou a ter “grande respeito pelos vírus”: “Dediquei boa parte da minha vida à luta contra o vírus da Aids. É uma coisa tão inteligente; evita tudo o que fazemos para bloqueá-lo”.

Diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, Piot chefiou o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids entre 1995 e 2008 e atualmente é consultor de coronavírus da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Depois de sentir a ação de um deles em seu próprio corpo, porém, passou a ver os vírus sob outro ponto de vista. “Eu me sinto mais vulnerável. Sei que isso mudará minha vida, apesar das experiências de confronto que já tive com vírus antes”, diz ele.

No relato, que teve uma versão publicada em inglês pela revista Science, ele conta que teve febre alta e dor de cabeça muito aguda em 19 de março: “Meu crânio e o couro cabeludo estavam muito doloridos, o que era bizarro. Eu não tinha tosse na época, mas ainda assim, meu primeiro reflexo foi: peguei”.

Como desde o ano passado a universidade que dirige investiu no trabalho remoto (para reduzir o impacto no aquecimento global), Piot continuou trabalhando de casa enquanto esperava o resultado do teste, que deu positivo, como ele esperava.

“Eu me coloquei em isolamento no quarto de hóspedes em casa. Mas a febre não desapareceu. Nos últimos dez anos, nunca tinha estado gravemente doente; não tirei um único dia de licença médica”, afirmou o pesquisador à revista Knack.

Com uma rotina regular de caminhadas, seu único fator de risco para o coronavírus era a idade: 71 anos. “Sou otimista, então pensei que passaria. Mas, em 1º de abril, um médico me aconselhou a fazer um exame completo, porque a febre e, principalmente, a exaustão estavam ficando cada vez piores”, conta ele na entrevista.

Os exames mostraram grave deficiência de oxigênio, embora ele não sentisse falta de ar. Além da pneumonia grave típica da Covid-19, seus pulmões tinham uma infecção bacteriana.

“Normalmente sou cheio de energia. Mas ali não era apenas fadiga, era completa exaustão; nunca esquecerei esse sentimento.” Um segundo teste para coronavírus deu negativo, mas ele teve que hospitalizado. “Isso também é típico da Covid-19: o vírus desaparece, mas suas consequências permanecem por semanas”, diz Piot.

O cientista temia ser colocado imediatamente num ventilador, porque tinha lido artigos indicando que isso aumenta sua chance de morrer: “Estava com muito medo, mas, felizmente, antes me deram uma máscara de oxigênio, que funcionou”.

Quando foi transferido para uma sala de isolamento na ala de terapia intensiva, Piot diz que havia “renunciado ao seu destino”. “Você se rende completamente à equipe de enfermagem. Você vive uma rotina, da seringa à infusão, e espera conseguir. Dividi um quarto com um sem-teto, um limpador colombiano e um homem de Bangladesh, todos os três diabéticos. Os dias e as noites eram solitários porque ninguém tinha energia para conversar”, contou o virologista na entrevista à Knack.

O especialista em infecções disse que está “feliz por ter pegado o coronavírus e não o ebola”, mas cita estudos que indicam que a chance de morrer se chegar a ser internado num hospital britânico com Covid-19 é de 30%, “a mesma taxa geral de mortalidade do ebola em 2014 na África Ocidental”.

“Isso faz com que você perca a racionalidade científica e se renda a reflexões emocionais”, afirmou.

Quando finalmente foi liberado do hospital, voltou para casa de transporte público: “Eu queria ver a cidade, com suas ruas vazias, seus bares fechados e seu ar surpreendentemente fresco. Não havia ninguém na rua, uma experiência estranha”.

O virologista não conseguia andar direito, pois seus músculos haviam perdido força após muitos dias deitado, sem fazer exercícios.

“Em casa, chorei por um longo tempo. Eu também dormi mal por algumas noites. O risco de que algo ainda possa dar muito errado continua passando pela sua cabeça. Você está trancado novamente, mas precisa colocar coisas assim em perspectiva”, contou Piot, dizendo que passou a admirar ainda mais o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (que ficou preso por 27 anos, mas se tornou um dos principais reconciliadores da política de seu país após ser solto).

Uma semana depois de receber alta, teve que voltar ao hospital, com uma “tempestade de citocinas”: “É o resultado de sua defesa imunológica entrar em overdrive. Muitas pessoas não morrem devido aos danos nos tecidos causados pelo vírus, mas pela resposta exagerada do sistema imunológico, que não sabe o que fazer com o vírus”.

Ainda em tratamento para esse efeito secundário, ele disse que teve sorte de que a tempestade não tenha coincidido com a ação do vírus sobre seu corpo.

“Não teria sobrevivido. Eu tinha fibrilação atrial, com minha frequência cardíaca subindo para 170 batimentos por minuto, o que precisa ser controlado para evitar coagulação do sangue e até um derrame. Essa é uma capacidade subestimada do vírus: provavelmente pode afetar todos os órgãos do nosso corpo”, afirma.

Ele classifica como engano achar que a Covid-19 só mata 1% dos pacientes e os outros se salvam após algo parecido com uma gripe: “Muitas pessoas ficam com problemas renais e cardíacos crônicos. Até o sistema neural é interrompido. Haverá centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, possivelmente mais, que precisarão de tratamentos como diálise renal pelo resto de suas vidas”.

Sete semanas depois de ser contaminado, o cientista comemora o readquirido bem-estar com aspargos brancos, que compra de um verdureiro turco na esquina de sua casa, em Londres. O vegetal é a especialidade da região belga em que nasceu, em Keerbergen.

Piot afirmou à Knack que já retomou o trabalho de consultoria para a Comunidade Europeia, que coordena um esforço global para encontrar uma vacina contra o coronavírus e produzi-la em escala capaz de chegar a todos os países.

“É um enorme desafio em termos de logística de fabricação. E, apesar dos esforços, ainda não é certo que uma vacina contra a Covid-19 seja possível”, afirma.

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Assuntos coronavírus, ebola
Redação 14 de maio de 2020
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