
Do ATUAL
MANAUS – O neuropediatra José Salomão Schwartzman, de 88 anos, referência nacional em TEA (Transtorno do Espectro Autista) e em distúrbios do desenvolvimento, critica a forma como diagnósticos de autismo e TDAH vêm sendo conduzidos, especialmente no ambiente escolar, e cita a falta de critérios mais objetivos na identificação dos casos.
Ao abordar o papel das escolas, o especialista afirma que o ambiente educacional não deve assumir funções clínicas. José Salomão analisou a incidência de TEA e a forma de lidar com a doença em entrevista ao programa Roda Viva, no dia 6 deste mês pela TV Cultura. Ele foi questionado se a escola é uma boa aliada para um possível diagnóstico, uma vez que muitas suspeitas de TEA surgem no ambiente escolar.
“Escola não é clínica. A escola não tem profissionais da área da saúde devidamente capacitados. Se tiver, a conversa é outra”, disse. Segundo José Salomão, cabe aos educadores observar comportamentos fora do esperado para a idade e orientar os responsáveis a buscar avaliação profissional.
Nesse sentido, Schwartzman afirma que a atuação do professor deve se limitar à identificação de sinais de alerta. “Não compete ao professor fazer diagnóstico de autismo, de TDAH, que, aliás, eles fazem toda hora”, afirmou. Para ele, o caminho adequado é relatar aos pais mudanças de comportamento e sugerir a procura por médicos ou psicólogos, evitando conclusões precipitadas dentro da sala de aula.
Diagnóstico
A discussão sobre diagnósticos levou o neuropediatra a questionar o aumento expressivo de casos, principalmente nos níveis mais leves do espectro. Ele diz que a ausência de marcadores biológicos claros contribui para interpretações diferentes entre especialistas. Para ele, é necessário investir em pesquisa sobre diagnóstico.
“Enquanto você não puder definir, com marcadores laboratoriais, quem é autista e quem não é, você acabar com essa história de espectro, que, na verdade, foi uma construção fantasiosa de alguém, não tem jeito de você ir adiante. Nós não estamos conseguindo uma ferramenta de diagnóstico que seja específica dessa condição”, declarou.
De acordo com o médico, essa limitação abre espaço para subjetividade nas avaliações e não há um grupo definido, mas um “monte de coisa diferente”.
“Se você for ver, o número de autista severo diminuiu. Onde aumentou? O nível 1 de suporte. O que você encontra no nível 1 de suporte? O que você quiser: indivíduos que têm alguma coisa que lembra um bando de gente que não tem nada a ver com o autismo. É o cara esquisito, é o cara que tem hiperfoco, é o sujeito pouco sociável”, disse, ao criticar a dificuldade de delimitar com precisão quem, de fato, se enquadra no diagnóstico.
Schwartzman acrescenta que um mesmo paciente pode receber avaliações distintas dependendo do profissional, o que, na visão dele, fragiliza o processo.
O especialista também fez críticas ao crescimento do mercado em torno de transtornos do desenvolvimento. Segundo ele, a expansão de cursos, especializações, conteúdos e serviços voltados ao tema acompanha o aumento da demanda. “Autismo e TDAH tornaram-se os melhores business do mundo. Faturam milhões de reais”, afirmou.
Apesar das críticas, Schwartzman reconhece a importância do avanço no diagnóstico precoce e do acesso ao atendimento especializado. Para ele, o principal desafio está em tornar os critérios mais precisos e reduzir a subjetividade, garantindo que o suporte seja direcionado de forma adequada a quem realmente precisa.
“Quanta gente se faz de autista nível um para obter as benesses que isso traz? Possivelmente, muita gente”, afirma, ao ressaltar a importância do diagnóstico e da diferenciação entre os níveis de autismo.
Atenção básica
A discussão sobre falhas no diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista também passa pela formação dos profissionais de saúde. O neuropediatra afirmou que o processo de identificação dos casos precisa começar ainda na atenção básica, especialmente com pediatras, mas menciona deficiências na preparação desses profissionais no país.
“O médico brasileiro não tem, em geral, uma formação adequada do ponto de vista do desenvolvimento, não só do desenvolvimento neurológico. Muito frequentemente, o médico formado no Brasil é um profissional que faz puericultura, que reconhece as doenças mais tradicionais, mais fáceis de serem observadas, e conhece pouquíssimo sobre questões como deficiência intelectual, que, lamentavelmente, acabam sendo da alçada do especialista”, afirma Schwartzman.
Para o neuropediatra, o diagnóstico de autismo não deveria ficar restrito a especialistas, pois se trata de uma condição frequente e que exige identificação precoce para garantir melhores resultados no acompanhamento. A ampliação dessa capacidade na rede básica, segundo o médico, seria um passo importante para reduzir atrasos no diagnóstico e melhorar o acesso ao atendimento adequado.
A avaliação reforça a preocupação apontada pelo neuropediatra sobre a falta de critérios mais objetivos e a necessidade de aprimorar tanto a formação médica quanto os instrumentos utilizados na identificação do transtorno.
