Muito antes das manifestações de junho, com milhões de brasileiros nas ruas em protesto contra a corrupção e os gastos bilionários com a realização da Copa do Mundo no Brasil, dentre outras reivindicações, sempre me mostrei indignado com a destruição do Vivaldão e a construção da Arena da Amazônia. Participei de audiências públicas promovidas pela Secretaria de Planejamento do Estado para discutir o projeto, com o órgão oficial cumprindo mera formalidade, porquanto a decisão governamental já havia sido tomada e era irremediável.
As razões que me levaram a combater a iniciativa permanecem mais que nunca presentes. Continuamos com o futebol do Amazonas em franco processo de falência e nada justifica um investimento de várias centenas de milhões de reais, independente dos custos financeiros e urbanísticos da demolição do belo Estádio Vivaldo Lima. Obra do arquiteto Severiano Mário Porto, prêmio nacional de arquitetura, agora não passa de um retrato na parede de quem ama e respeita o nosso patrimônio histórico, hoje tão vilipendiado. Puseram-no abaixo. Dane-se, trata-se agora de “fait accompli”, de todo incontornável. Em seu lugar surge o novo estádio, com seu trançado externo de vigas pesadas que lembram o Ninho dos Pássaros das Olimpíadas realizadas na China. Que me perdoem os entusiastas da proposta chinesa, ou tenha lá a origem que tiver, mas prefiro as linhas descobertas, suaves e plenas de sol que nos proporcionavam as arquibancadas e o conjunto do velho Vivaldão, em absoluta integração com a paisagem amazônica.
Além do mais, o cobertor dia a dia fica mais curto. Não superamos nossas carências de anos e anos, nos mais diversos segmentos da vida da população. E a pergunta que não quer calar mantém-se sem resposta: o que não faríamos com tanto dinheiro? Em obras viárias na capital do Estado, por exemplo, que pudessem amenizar o caótico e insuportável trânsito urbano, ou no suprimento de outras necessidades básicas do povo amazonense?
Lá venho eu de novo com a mesma cantilena, que me desculpem os leitores, mas inevitável, quando digo que governar é eleger prioridades, notadamente em países subdesenvolvidos ou ditos em desenvolvimento. E até nas nações desenvolvidas, uma vez que as demandas sociais serão sempre crescentes e geométricas, em proporção inversa ao aumento dos recursos públicos em qualquer lugar do mundo. Seguirei, por conseguinte, martelando na mesma tecla, pois não há como fugir da balança do mais ou do menos importante, do que é urgente e do que pode ser postergável.
Com a dinheirama fantástica gasta com a Arena da Amazônia, obtida com empréstimos junto ao BNDES, que aumentam os índices de endividamento do Estado, não poderíamos ter construído uma linha expressa, com sucessivas saídas, que ligasse o antigo porto de Manaus ao aeroporto? Teríamos um projeto de fácil implantação, considerando as largas dimensões da João Coelho e da Constantino Nery, com dificuldades que seriam vencidas somente no trecho da Epaminondas, da Leonardo Malcher no sentido do centro histórico. Desnecessário apontar os resultados mais do que óbvios em benefício dos habitantes da cidade.
Há quem se anime agora com o sorteio dos jogos pela Fifa, que nos premiou com partidas de peso no torneio mundial, como Inglaterra e Itália e Estados Unidos e Portugal. Mas, a que preço? Quanto teremos de pagar para assistir a duas ou quatro partidas da Copa? Quase R$ 1 bilhão. E depois? Onde enfiaremos o elefante branco, gigantesco e vazio, ocioso, sem nenhuma utilidade e com elevados custos de manutenção? Convenhamos, trata-se de uma agressão sem tamanho aos cofres públicos, uma dívida que será paga pelos nossos netos e bisnetos. Somente com os recursos destinados à administração e conservação do estádio, uma fábula todos os meses, poderíamos manter uma escola de tempo integral ou um hospital de referência no interior do Estado. O que é mais importante, o elefante da Copa, a educação para centenas de crianças pobres ou a assistência à saúde de nossa gente sofrida na hinterlândia? Tudo ao mesmo tempo, e ninguém discute que se poderia até admitir como ideal, como estamos cansados de observar, é simplesmente impossível.
E o tão propalado legado da Copa? Qual? Se em outros países não deixou nenhum, aqui mesmo é que não se verá nada. Não se fala mais nem no sistema de transporte via Monotrilho e muito menos no BRT, enquanto somos obrigados a conviver com a falta de educação e as grosserias dos representantes de alguns times que aqui disputarão os poucos jogos do torneio mundial, com ingressos pagos com os suados caraminguás dos torcedores amazonenses. Há muitas verdades no que dizem os ingleses sobre Manaus, mas nunca vi demonstração tão agressiva de primarismo cultural e de incivilidade, como a que nos oferece agora a vetusta e celebrada civilização europeia. E todos nós, brancos, negros, mestiços, índios, caboclos, matutos, ainda somos obrigados a suportar tudo isso. É demais.
