
Por Iolanda Ventura, do ATUAL
MANAUS – Deputados do Amazonas com longa trajetória na política foram de mais votados em 2018 para não reeleitos nas eleições 2022. Entre os fatores citados para o desempenho nas urnas estão o fortalecimento do movimento bolsonarista no estado e a transição de gerações de eleitores.
O deputado federal José Ricardo (PT) foi o mais votado entre os oito eleitos para a Câmara dos Deputados em 2018, com 197.270 votos. No pleito do último dia 2 de outubro, esse número caiu para 89.017 votos e José Ricardo não se reelegeu.
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O parlamentar considera que em todos os estados da Amazônia houve redução de deputados de esquerda. “Então há uma onda bolsonarista muito grande, muito forte na Amazônia. Isso, com certeza, influenciou muito no processo”, avaliou.
José Ricardo também cita o quociente eleitoral que não foi atingido pela federação Fé Brasil (PT/PC do B/PV). “Se fosse pelas regras das eleições de 2018 eu estaria eleito, a regra era outra. Eu fui o oitavo mais votado da eleição deste ano, mas não atingi 80% do coeficiente. Foi muito alto o coeficiente este ano, 245 mil”, disse.

O parlamentar não descarta a influência da “força do dinheiro” e diz que enfrentar o poder econômico não é fácil. “Porque você tem vários deputados eleitos com a força do dinheiro e da máquina pública. E é notório os parlamentares, todos os que foram eleitos que apoiam o governo. Logicamente a máquina pública influenciou muito. E o dinheiro que só a Justiça Eleitoral nunca consegue pegar. Como é que esse pessoal gasta milhões e não aparece, ou milhares de milhares de pessoas contratadas que nunca aparecem”, afirmou.
José Ricardo afirma que o foco agora é ajudar na eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não pretende abandonar a política. “Estou filiado desde 95, então sempre participei de eleições. Várias eleições que eu participei não ganhei, nunca desisti. Então a gente deve continuar a luta política mesmo sem mandato a partir de fevereiro”.

O deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) teve 25.025 votos em 2018. Este ano foram 23.565 no total e não foi reeleito. “É a ordem natural das coisas. Momento da transição entre gerações”, avaliou.
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Durante o mandato, Serafim foi um crítico do governo federal. Na avaliação do deputado isso não influenciou o resultado nas urnas. “Como disse, é a transição normal de uma geração para outra. Com honrosas exceções, os políticos que obtiveram seu primeiro mandato nos anos 80 não foram reeleitos”, afirmou. Serafim afirma que pretende se aposentar das eleições, mas não da política.
Cansaço eleitoral
O cientista político Helso Ribeiro corrobora o pensamento e considera que são múltiplos os motivos que levam ou não à reeleição. “Uma vez, num bate-papo, o ex-governador Gilberto Mestrinho disse: ‘a vida útil de um político é de cerca de 30 anos. Depois disso o próprio tempo faz com que ele seja substituído’. É claro que isso não é uma verdade absoluta, mas há um cansaço”, disse.
Outros deputados que tiveram bom desempenho em 2018 e não se mantiveram nos cargos foram Dermilson Chagas (Republicanos), em âmbito estadual, e Marcelo Ramos (PSD), no federal.
Com 31.625 votos, Dermilson foi o terceiro mais votado em 2018. Este ano conseguiu 20.532 votos e está como suplente. Marcelo Ramos, que ganhou destaque como vice-presidente da Câmara dos Deputados e nos embates com o presidente Jair Bolsonaro (PL), ficou como suplente. Foram 106.805 votos na eleição anterior e 74.387 em 2022.

“O Marcelo Ramos, eu penso que ele sofreu uma certa perseguição dos seguidores fiéis do Bolsonaro. É um exemplo de deputado que teve uma participação efetiva no Congresso Nacional, foi o único deputado no Amazonas que chegou à vice-presidência da Câmara dos Deputados, isso no primeiro mandato”, avaliou Helso Ribeiro.
O cientista político avalia que talvez Ramos não estivesse tão próximo ao eleitorado. “Então, ele teve uma participação interessante no parlamento, mas talvez tenha deixado o ‘quintal descoberto’. Ou seja, a atividade parlamentar intensa fez com que ele viesse não tanto quanto deveria a Manaus”, pontuou.
No caso de Dermilson Chagas, o especialista considera que o deputado teve atuação interessante na Assembleia Legislativa, mas pela escolha do partido sofreu isolamento.
O deputado federal Bosco Saraiva (Solidariedade) foi o único que não tentou a reeleição para a Câmara dos Deputados. Nas eleições 2022 ele disputou a vaga para deputado estadual, mas não conseguiu se eleger. Foi eleito deputado federal em 2018 com 55.477 votos. Para deputado estadual teve apenas 18.853.
Tentativa de volta

A disputa eleitoral também teve nomes que já ocuparam cargos eletivos no Amazonas tentando voltar à política, como José Melo (Pros), Hissa Abrahão (Avante) e Alfredo Nascimento (PL). Nenhum foi eleito.
Melo, que já foi governador em 2014, foi candidato a deputado estadual nas eleições 2022. A carreira política do ex-governador é marcada por escândalos de corrupção. Ele foi cassado por compra de votos e preso em 2017 na terceira fase da Operação Maus Caminhos. No pleito deste ano teve apenas 5.127 votos.
Hissa Abrahão já foi vereador (2008), vice-prefeito (2012) e deputado federal (2014). Também já concorreu para governador (2010), prefeito (2016) e senador (2018). Este ano teve apenas 5.869 votos.
Alfredo Nascimento teve 46.760 votos para deputado federal, mas ficou como suplente. Alfredo já foi prefeito de Manaus por dois mandados consecutivos, de 1997 a 2004; senador, de 2007 a 2015; e deputado federal, de 2015 a 2018. Já concorreu para senador (2006 e 2018), governador (2010) e prefeito (2020).
