
Por Jullie Pereira, da Redação
MANAUS – A localização geográfica do Amazonas não foi o fator que impossibilitou a chegada de oxigênio a Manaus durante a crise de desabastecimento em janeiro deste ano, mas a falta de planejamento para lidar com a situação, afirmam geógrafos ouvidos pelo ATUAL.
As dificuldades logísticas foram usadas pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e políticos do Amazonas para justificar o colapso no fornecimento do produto.
O geógrafo Carlos Durigan diz que a logística não é uma questão a ser considerada. O especialista afirma que a falta de planejamento é mais real. Durigan usa como exemplo as atividades de carga no PIM (Polo Industrial de Manaus).
“Para muitas outras necessidades temos vistos nas últimas décadas ações para resolvê-las. Temos o maior parque industrial do Brasil aqui e vemos ele ser atendido de forma bastante satisfatória, seja por via terrestre ou aérea. Em época de grande atividade produtora no PIM vemos grande fluxo de aviões de carga. Então, é uma questão de planejamento adequado e de time (tempo)”, disse.
Uma das alternativas usadas pelo Ministério da Saúde foi a BR-319 (Manaus-Porto Velho/RO) para trazer cilindros de oxigênio a Manaus. O ministro Eduardo Pazuello afirmou, em audiência no Senado Federal, que foi um desafio fazer o transporte e convidou os senadores a conhecerem a Amazônia.
“Senhores, a BR-319 foi um desafio. Passar com as carretas da Air Liquide na BR-319 em cinco dias foi um desafio. Quem não conhece a Amazônia, quem nunca tirou o pé da área nobre do país deveria primeiro conhecer pra entender o que são as nossas dificuldade, o que é transportar nove carretas, oito carretas de oxigênio líquido na BR-319”, disse o ministro, especialista em logística.
O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), também citou a suposta falta de acesso ao município como um problema para a chegada do oxigênio. “Em nenhuma cidade do Brasil vai acontecer o que aconteceu com Manaus, porque em 24 horas, em 36 horas, com a infraestrutura que temos no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste, no Nordeste, qualquer caminhão, qualquer transportadora entrega os produtos que precisamos”, disse, ao anunciar o início da imunização no município, em janeiro.
Almeida disse não entender o porquê da BR-319 não ser asfaltada. “Ano passado (2020) eu fui na Br-319 que liga Manaus à Porto Velho. Você anda a 100, 120 km por hora no verão. Que lógica tem eu andar nessa estrada no barro e que lógica tem essa mesma estrada não poder ser asfaltada?”, questionou.
O geógrafo Durigan analisa que a alternativa usada pelo ministro, a BR-319, não foi a ideal e que, caso a rodovia estivesse completamente asfaltada, ainda assim não seria o modal mais rápido para o envio dos cilindros.
“Eu só vejo o transporte aéreo como uma via que pudesse ter ajudado, porque estamos há poucas horas dos centros (fornecedores). O governo poderia ter acionado empresas de transporte de carga, em Manaus há um fluxo de transporte cargueiro altíssimo. Manaus já chegou a ter 40 voos por dia de avião cargueiro”, lembra.
“Eu não acredito que por via terrestre teríamos oxigênio em poucas horas, mesmo com estrada pavimentada demoraria um dia. Quando a crise se instaurou não dava para esperar um dia, deveria estar aqui em poucas horas e houve comunicação em tempo hábil que daria pra um esforço ter atendido toda essa demanda que foi gerada de repente”, complementa.
Em 17 de janeiro, o ministro da Saúde enviou à AGU (Advocacia Geral da União) um documento com informações sobre as medidas implementadas para minimizar a crise na Saúde em Manaus. No documento, o ministro informa que no dia 4 de janeiro, em reunião com o governador Wilson Lima e o prefeito David Almeida, foi relatado a possibilidade de um colapso em dez dias. No entanto, o documento não menciona a possibilidade de falta de oxigênio.

O geógrafo Fernando Monteiro, doutorando da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) com pesquisa sobre o espaço urbano de Manaus, afirma que a falta de planejamento diante da previsão de um colapso, foi uma negligência do governo e não culpa da localização geográfica do estado.
“A monstruosidade geográfica do Amazonas não é um problema, até porque já se conhecem muito bem esse espaço. O problema é político, administração e gerenciamento logístico. Ou seja, negligência por parte do Estado para com vidas que estão a se perder”
Monteiro defende que o Ministério da Saúde deveria ter priorizado o gerenciamento das questões que envolvem a localização geográfica do estado e que a desculpa usada pelo ministro seria uma falácia.
“Entender o espaço é primordial para compreendermos questões que estamos tratando. O planejamento e gerenciamento dos impasses que podem e devem surgir com a questão da localização dos estados deveria ser urgente”, disse. “Hoje, os objetos técnicos permitem o deslocamento em qualquer lugar no mundo, por mais longínquo que seja. Então, é uma falácia, uma desculpa política para o erro de gestão logística do governo federal”, afirmou.
Segundo Fernando Monteiro, o que ocorre em meio à crise pandêmica nada mais é que a ineficiência do Estado, resultante de uma crise política que se alarga ainda mais com a pandemia do Covid-19.

Porque esses “geógrafos” não citam os milhares de metros cúbicos de oxigênio líquido enviados pelo Governo Federal ao Estado do Amazonas pelos aviões da FAB e, mais ainda, porque não procuram saber o que o Estado do Amazonas fez com os R$ 8,9 BILHÕES enviados por Bolsonaro ao Amazonas ainda no ano passado para ajudar na crise do coronoavírus e também o que foi feito com as vagas em hospitais de campanha desativadas pelo governo do Estado?
Apenas 6% desse valor foi destinado para a saúde. O restante era verba obrigatória que já estava comprometida com todos os outros setores da administração pública do estado, além da saúde, como pagamentos de salários, FUNDEB e etc. Acreditar que o governo federal “doou” quase 9 bilhões pro estado é querer acreditar em desculpa esfarrapada de quem não tem competência e nem compromisso com a função. Vale lembrar que o Amazonas é um dos estados que mais contribui com a união com imposto do que recebe de repasses. Manaus foi segunda capital que menos recebeu recursos para o controle da pandemia proporcionalmente.