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Dia a Dia

Convivência e cuidado ajudam a evitar violência contra animais

3 de fevereiro de 2026 Dia a Dia
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vacina animais
Apego, afeto e cuidados são sentimentos que unem humanos e cães (Foto: João Viana/Semcom)
Por Guilherme Jeronymo, da Agência Brasil

SÃO PAULO – A violência contra animais gerou um debate no país nas últimas semanas, a partir do espancamento do cão comunitário Orelha por quatro adolescentes em Florianópolis (SC). A punição dos autores e a banalização da violência estão no centro das discussões, assim como a prevenção, a ressocialização e as medidas educativas. 

Enquanto os quatro jovens de Praia Brava cederam ao impulso da violência e não tiveram empatia com Orelha e Caramelo, além de se envolverem em outras ações que estão sendo apuradas pela Polícia Civil, perspectivas como a da Teoria do Elo tentam explicar o ocorrido. 

A Agência Brasil procurou organizações não governamentais voltadas ao apoio a animais abandonados ou vítimas de violência e a prefeitura de São Paulo, responsável por um dos maiores programas públicos de adoção e educação ambiental. O objetivo é saber como o estímulo ao contato e os cuidados podem prevenir e interromper ciclos de violência.

O instituto Ampara Animal, que atua há 15 anos promovendo ações de cuidado, discussões públicas e apoio a abrigos e centros de adoção em todo o país, começará, nos próximos dias, a campanha “Quebre o Elo”, que chama a atenção para a gravidade da violência.

A organização parte do pressuposto de que a violência com animais pode ser reflexo de outras às quais o praticante está exposto, sejam direcionadas a si ou a pessoas de seu convívio. É um importante indicador da possibilidade de outras violências, principalmente contra grupos mais vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos. 

“Temos que tentar ensinar saindo de uma visão e uma educação antropocêntricas. A Ampara sempre entendeu que a educação é o caminho para transformar em melhor a vida dos animais, principalmente quando voltada a crianças e adolescentes. Chamamos de ‘educação humanitária em bem-estar animal’ e entendemos como uma solução para criar uma sociedade mais empática, com menos violência e com maior respeito”, afirma, explicou Rosângela Gerbara, diretora de relações institucionais da Ampara. 

Para Rosângela, essa aproximação tem que ser feita de forma gradual, sempre ensinando a criança a ser gentil com os animais, a respeitar o tempo e o comportamento de cada espécie, de preferência levando-a para ver os animais na natureza ou em locais que têm relação maior com o ambiente e modos de vida naturais. O desenvolvimento da empatia, defende, requer a interação com animais e ajuda a criança a entender os sentimentos e as necessidades do outro, o respeito e a reduzir comportamentos de violência e intolerância. 

Escolas de medicina poderão usar cadáveres para treinar cães (Imagem: YouTube/Reprodução)
Adestramento tornam cães dóceis e convívio com humanos armonioso (Imagem: YouTube/Reprodução)

Quebrar a perspectiva do animal como um objeto ou um produto é outro passo importante. Viviane Pancheri é voluntária há 15 anos na ONG Toca Segura, que cuida de cerca de 400 animais em um abrigo no Guará II, no Distrito Federal (DF), e em uma unidade maior na cidade do Novo Gama, em Goiás. O Toca desenvolveu por anos uma iniciativa direta em escolas do DF. “É importante que as crianças tenham a percepção de que os animais sentem medo, abandono, felicidade, enfim, que são sencientes”, explica.

No abrigo, recebem famílias, que ajudam como voluntárias, pontualmente ou com maior periodicidade. Lá realizam o que chama de educação empática, mostrando ao outro como o cuidado e a atenção são importantes. A partir daí, trabalham valores e a forma como as crianças percebem o cuidado, já no convívio com os cães da Toca.

Essa interação é sempre pensada com bastante cuidado, tanto para acolher a criança quanto para não expor os animais a estresse ou alguma violência. “Lidamos com animais que já passaram por situações de abandono e de violência. Alguns passaram privações, outros têm um pouco mais de dificuldade, são mais arredios”, afirma Viviane.

Para promover esses momentos de troca, uma das estratégias que adotaram foi promover pequenos eventos. Entre eles estão os domingos de passeio. Voluntários pegam um animal e o levam para um passeio. Rápido, breve, mas importante, pois acostuma os animais com a presença humana, os torna mais dóceis e isso ajuda na busca por famílias para adoção. Crianças que atuam nesses eventos também desenvolvem a interação com os animais.

“Um caso que sempre gosto de contar é o de uma menina que começou a nos ajudar aos 15 anos. Ela tinha medo de cachorro e nos procurou para perder esse medo. Não demorou muito e já conseguia fazer uma série de tarefas de cuidado. Hoje é veterinária”, conta, emocionada.

Os voluntários também apoiam as feirinhas de troca, mantendo os animais limpos e hidratados. No Toca, essa função é realizada principalmente por adolescentes. Esse tipo de ação leva a acostumar com o trato comum e a importância que a rotina tem para os animais.

“É parecido com o cuidado com os animais comunitários. O exemplo é importante. Se tem um vizinho ou parente que tem um animal, é recomendado levar a criança para conhecê-lo. Ela aprende muito com o exemplo”, diz.

Segundo Viviane, para as crianças maiores e adolescentes existe a questão da responsabilidade. “É trazer esses animais para perto, mostrar a importância de ter esse cuidado, de forma supervisionada. Não deixar a criança solta, dizendo olha, isso é errado, isso se faz desse jeito. A supervisão na construção da responsabilidade é muito importante, também para os cães comunitários. Alimentar, por exemplo, os animais na rua é uma ótima maneira. Vê-la oferecer, fazer boas ações e elogiar isso, o que leva à formação de um ser humano melhor”, diz.

Cães vítimas de maus-tratos: ato do tutor é reflexo de traumas familiar (Foto: PC-AM)

Programas públicos 

Com abrigos públicos, a prefeitura de São Paulo tem hoje um centro de adoções com centenas de animais, principalmente cães e gatos. O foco do programa municipal de adoções é a promoção da guarda responsável e da educação ambiental. O espaço recebe grupos escolares, de até 30 crianças, com mediação do contato com os animais e o objetivo de criar consciência nos pequenos, que agem como multiplicadores em seus lares.

“A criança é um agente multiplicador, leva para sua família e sua comunidade informações e o entendimento de como é importante respeitar os animais”, explica Telma Tavares, da Secretaria Municipal de Saúde, gestora do espaço.

O foco da estratégia é usar a sensibilização, durante as visitas, como porta de entrada para as orientações. O projeto, chamado Superguardiões, começou em 2019 e funciona por agendamento. Em 2025 foram mais de 1.900 visitantes, parte deles idosa. A esse programa de portas abertas, se soma outro de visitação dedicado aos pequenos que estão em alfabetização. O programa Leituras leva os pequenos a lerem para os cães e gatos do Centro Municipal de Adoção.

Segundo Telma, parte das escolas aproveitou e incluiu a iniciativa no processo de letramento: as crianças não apenas liam histórias para os animais, mas passaram a conhecer sua trajetória e a escrever sobre os bichinhos.

“São ações que facilitam a adoção posterior. Os animais vão se tornando mais dóceis, se acostumando com as visitas. Claro que tomamos o cuidado de selecionar aqueles que não são agressivos, mas esse contato ajuda, inclusive, a conscientizar e educar para práticas sustentáveis”, afirma Telma.

O processo de adoção tem algumas regras de ouro. Essas são algumas, sugeridas por Telma e Viviane:

considerar se todos os membros da família estão de acordo e conscientes das responsabilidades que terão com o animal;

pensar de forma realista se a família tem condições de cuidar. Não apenas em relação à questão material, mas também a ter tempo e condições de adaptar a rotina;

refletir se o planejamento de vida da família se adequa à adoção;

planejar, para evitar abandono e manter cuidados de forma adequada.

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