
Por Jullie Pereira, da Redação
MANAUS – O município de Boca do Acre (a 1.555 quilômetros de Manaus) enfrenta uma das maiores enchentes desde 1997, provocada pela cheia dos rios Purus e Acre. Sete de seus oito bairros estão alagados e até a noite desta segunda-feira, 22, 8 mil pessoas foram atingidas pelas águas. As famílias estão sendo abrigadas em escolas e o prefeito Zeca Cruz (PP) decretou estado de emergência e acionou a Defesa Civil do Amazonas.
Em 1997 o município atingiu a cota máxima de 21,04 m, em 2012 foram 20,54 m, e em 2015 foram 20,38 m. Agora, desde o dia 12 de fevereiro, Boca do Acre já está com 20,08 m. Nas últimas 14 horas foram 13 cm a mais. Apenas um bairro não foi atingido, que fica na parte mais alta do município e onde está localizado os órgãos da prefeitura.
“Estamos entre a confluência dos dois rios, por conta disso o fundo do município tem um grande lago que recebe a agua do Rio Purus, a gente fica praticamente numa ilha. Começamos a receber água muito forte desde o dia 12, tem dia que o índice sobe 25,24 centímetros. Parece pouco, mas o município já está inundado e 80% da cidade baixa estão cobertos pelas águas”, disse Flávio Zanetti, chefe de gabinete da Prefeitura de Boca do Acre.
As famílias estão se abrigando em casas de parentes e a prefeitura tem quatro abrigos, mas existe a exigência para não aglomerar como forma de prevenir contra a disseminação da Covid-19. No município, 2.259 mil pessoas já foram infectadas pela doença e 230 pessoas estão em isolamentos, com o vírus ativo.
“Temos quatro abrigos porque estamos tentando não glomerar as famílias para não disseminar mais o vírus porque é uma enchente atípica. Além da cheia, temos que conviver com a Covid e é uma preocupação muito grande da prefeitura. Os moradores até estão acostumados com a água, alguns têm suas casas levantadas, mas ficam ilhados e não conseguem ter água, comida”, explica Flávio.

Uma das pessoas atingidas foi a professora Jônnia Campos, 42, que precisou deixar sua casa para se abrigar na da mãe com duas filhas, uma de 13 anos e outra de 3 anos, junto com seu marido. Ela precisou deixar sua casa na sexta-feira, 19, quando percebeu que a cheia iria inundar por completo a residência.
“Nossos móveis estão provisoriamente suspensos em suportes feitos de madeira e em nossas mesas, pois não foi possível tirar tudo porque na casa da minha mãe já tem os móveis dela. Improvisamos do jeito que deu para salvar nossas coisa. A maioria, meu esposo desmontou para economizar espaço e facilitar o embalo para salvar o máximo possível das coisas que trabalhamos muito para obter”, disse.
Jônnia diz que há anos a enchente não era tão forte. Ela mora no bairro Fortaleza, que fica na parte baixa do município, o local está inundado. “A situação é de extremo desconforto, constrangimento e tristeza. Este ano tá muito difícil, muita água. Há dois anos que a água chegava só perto da minha casa, faziam muitos anos que não entrava em casa, mas desta vez estamos assustados com a velocidade em que enche mais a cada dia”, disse.
Ela também criava galinhas, mas foram abatidas. “Tinham muitas galinhas, mas abatemos todas. Não tinha como manter elas em cativeiro pois eram soltas no terreno, em cativeiro iam se matar”, explicou.

Articulações
A vice-prefeita de Boca do Acre, Luciana Melo, está em Brasília conversando com senadores e deputados da bancada federal do Amazonas na tentativa de conseguir verbas para as ações no município. A prefeitura também acionou a Defesa Civil do estado, mas aguarda o reconhecimento do decreto de estado de emergência.
Nesta segunda-feira, 22, a prefeitura também decretou a suspensão da prova do Enem (edição 2020), que deveria acontecer nesta terça e quarta-feira. A suspensão é por tempo indeterminado.
