
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – Manifestação de repúdio da diretoria do Boi Bumbá Caprichoso, de Parintins, à violência sofrida pela Ñandesy Roberta, de 90 anos, liderança espiritual e guardiã da memória ancestral dos povos Kaiowá e Guarani, demonstra maturidade política e coragem diante da violência contra os povos indígenas do Brasil.
É necessário que episódios como estes sejam amplamente noticiado e repudiados pelas pessoas de bem. Os responsáveis pela violência, o ataque à ancestralidade, à religiosidade e às tradições dos povos originários precisam ser exemplarmente punidos.
O Brasil não pode caminhar para trás e abandonar as conquistas civilizatórias que marcaram o século XX e início do século XXI. É preciso frear as atrocidades e os discursos de ódio contra as minorias praticados por aqueles que teimam e escavar os sepulcros onde foram enterrados todos os tipos de violência do passado.
Neste sentido, a nota de repúdio do Boi Bumbá Caprichoso é um exemplo para as demais entidades e todos os homens e mulheres que defendem a democracia e a convivência pacífica de todos os povos.
Abaixo, a nota do Caprichoso na íntegra:
“O Boi-Bumbá Caprichoso manifesta profundo pesar, indignação e repúdio à violência sofrida pela Ñandesy Roberta, de 90 anos, liderança espiritual e guardiã da memória ancestral dos povos Kaiowá e Guarani, que teve sua casa incendiada na manhã desta quinta-feira (29), na Aldeia Jaguapiré, em Tacuru, no Mato Grosso do Sul.
O ataque, denunciado pela comunidade indígena como criminoso, destruiu também instrumentos sagrados utilizados nos rituais tradicionais, como o takua, o xiru, o mbaraka e o mimby. Segundo relatos, Roberta já havia sido vítima de outro incêndio e vinha sofrendo perseguições e manifestações de intolerância religiosa por manter viva a espiritualidade de seu povo.
Não estamos falando apenas da destruição de uma casa ou de objetos. Estamos falando de um ataque à ancestralidade, à fé, à identidade e à existência de um povo. Quando se atenta contra uma Ñandesy, tenta-se silenciar uma história inteira, apagar conhecimentos transmitidos entre gerações e ferir a memória de uma nação indígena.
O Caprichoso, que tem na defesa dos povos originários, de suas culturas e de seus territórios uma de suas bandeiras, não se calará diante de tamanha violência. Nossa arte, nosso canto e nossa história também são construídos pela resistência dos povos indígenas, que seguem lutando pelo direito de existir, celebrar sua fé e preservar seus saberes.
A ancestralidade não se queima. A memória não se apaga. A voz dos povos originários não será silenciada!
Respeito aos povos indígenas! Justiça para Ñandesy Roberta!”

