
Do ATUAL, com Agência Fiocruz
MANAUS – Um prédio com grandes dimensões será inaugurado neste sábado na Cidade Industrial de Curitiba, nos arredores da capital do Paraná. É a maior “fábrica” de mosquitos do mundo. A Wolbito do Brasil vai produzir mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia.
Com mais de 3,5 mil m² de área construída, equipamentos de ponta para automação e criação dos mosquitos com Wolbachia, além de uma equipe formada por cerca de 70 funcionários, a Wolbito do Brasil supre a crescente demanda nacional pelo Método Wolbachia, que se tornou uma política de saúde pública do Ministério da Saúde. Inicialmente, a unidade atenderá exclusivamente ao MS, garantindo a distribuição dos mosquitos Wolbitos para diversas regiões do Brasil com altos índices de dengue.
A biofábrica é resultado de uma joint venture entre a Fiocruz, o IBMP (Instituto de Biologia Molecular do Paraná) e o World Mosquito Program (WMP), uma organização mundial sem fins lucrativos.
“Ciente do impacto das arboviroses para o país, a Fiocruz continua a cumprir seu papel de instituição de ciência e tecnologia na promoção da saúde pública no contexto do Sistema Único de Saúde. A inauguração da fábrica em Curitiba é mais uma ação inovadora da Fundação que faz parte das estratégias nacionais para o controle do Aedes aegypti e de combate a arboviroses como dengue, zika e chikungunya”, afirma o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
O Método Wolbachia está presente em 14 países. “A biofábrica de Wolbitos terá capacidade para produzir 100 milhões de ovos de mosquitos por semana. Nosso objetivo é reduzir significativamente os números de casos de arboviroses no país. Em dez anos teremos beneficiado mais da metade da população brasileira”, disse o diretor-presidente da Wolbito do Brasil, Luciano Moreira.
No país, o Método Wolbachia está há pouco mais de dez anos e com resultados positivos. Em Niterói (RJ), por exemplo, a primeira cidade do país a ser totalmente coberta pelo método, a redução dos casos de dengue chegou a 69%.
Até agora o método foi implantado pelo WMP em oito cidades: Niterói (RJ), Rio de Janeiro (RJ), Londrina (PR), Foz do Iguaçu (PR), Campo Grande, Joinville (SC), Belo Horizonte e Petrolina (PE). E está em fase de implantação em Presidente Prudente (SP), Uberlândia (MG) e Natal (RN).
Outros municípios se preparam para iniciar os trabalhos pela Wolbito do Brasil, como Balneário Camboriú e Blumenau, além de novas áreas em Joinville, em Santa Catarina; Valparaíso de Goiás e Luziânia, em Goiás; e Brasília. A escolha dos municípios é feita por meio de uma seleção criteriosa do Ministério da Saúde e a implementação, realizada pela Wolbito do Brasil, conta com o apoio estratégico da Fiocruz.
Garantindo redução nos casos de arboviroses, o Método Wolbachia representa economia aos cofres públicos. Estudos mostram que para cada R$ 1 investido, a economia do governo em medicamentos, internações e tratamentos em geral gira entre R$ 43,45 e R$ 549,13.
O Método Wolbachia não utiliza mosquitos transgênicos, é complementar a outros métodos e inclusive aos cuidados básicos que a população deve manter para eliminar os criadouros de mosquitos. “Nosso método é seguro, natural e autossustentável. Nosso grande diferencial é a etapa de comunicação e engajamento, pois com a população bem-informada e engajada os resultados são melhores. A união de forças produz um efeito mais significativo”, complementa Moreira.
Os três municípios de Santa Catarina, os dois de Goiás e Brasília estão, neste momento, na fase de comunicação e engajamento. A liberação dos Wolbitos nestas regiões ocorrerá ainda no segundo semestre.
O que é a Wolbachia e como funciona
O Método utiliza mosquitos Aedes aegypti que carregam a Wolbachia, uma bactéria naturalmente presente em mais da metade dos insetos da natureza e que impede o desenvolvimento dos vírus das arboviroses no organismo dos insetos. Quando esses mosquitos se reproduzem, transmitem a Wolbachia para as próximas gerações, reduzindo, desta forma, a transmissão de dengue, zika e chikungunya.
Antes da liberação dos mosquitos, a equipe da Wolbito, em parceria com as prefeituras, promove uma série de ações informativas e educativas em escolas, unidades de saúde, espaços públicos e associações comunitárias. Também são feitas campanhas educativas em rádios e TVs locais, redes sociais, mídias impressas e rodas de conversa com moradores, para garantir que todos compreendam o que é o método, como funciona e qual seu impacto.
Depois da etapa de comunicação e engajamento é feita a liberação dos Wolbitos no município. As solturas geralmente são realizadas semanalmente, por período determinado e sob a responsabilidade de uma equipe técnica especializada, utilizando veículos e equipamentos próprios. A expectativa é de que, ao longo dos meses, a presença da Wolbachia aumente de forma natural e estável em cada cidade selecionada.
O desenvolvimento do Método Wolbachia para controle de arboviroses teve início em 2008, na Monash University, em Melbourne, na Austrália. O CEO da Wolbito, Luciano Moreira, então pesquisador da Fiocruz, participou do estudo que levou ao achado científico. Na época a Wolbachia foi extraída da mosca-da-fruta e inserida no Aedes aegypti, o que hoje não é mais necessário, pois a criação é de mosquitos descendentes daqueles.
O WMP deu início aos estudos no Brasil em 2012, por meio de decisão da Fiocruz de trazer o Método para o país. Em 2014 começaram as liberações em áreas piloto: dois bairros das cidades do Rio de Janeiro e Niterói, respectivamente Tubiacanga e Jurujuba. Foi a partir dessas duas localidades que o Método foi expandido nacionalmente, contando com investimentos da Fiocruz em suas diversas fases ao longo dos anos.
