
Do ATUAL
MANAUS – A Arquidiocese de Manaus lançou, nesta quarta-feira (18), a Campanha da Fraternidade 2026 com o tema “Fraternidade e Moradia”. A solenidade ocorreu na Alameda Pico das Águas, no bairro São Geraldo, zona centro-sul da capital. O bispo auxiliar Dom Zenildo Lima criticou a política habitacional em Manaus.
A Alameda Pico das Águas foi escolhida porque no local será construído um residencial e simboliza o apelo por políticas públicas que garantam moradia como direito fundamental.
Dom Zenildo Lima disse que o cenário da área escolhida para o lançamento — próxima a igarapés e inserida no programa de requalificação urbana Prosamim — reflete problemas históricos da política habitacional em Manaus.
Ele classificou como “desastrosa e desencontrada” a condução do crescimento urbano da cidade e citou o avanço de ocupações desordenadas, o aterramento de igarapés e a redução de áreas verdes. Para o bispo, a campanha busca estimular reflexão e compromisso com soluções estruturais para a moradia.
“Uma cidade que foi crescendo, crescendo sem a capacidade de se harmonizar com uma beleza natural que lhe era característica uma cidade que aterrou os seus igarapés, uma cidade que derrubou suas áreas verdes, uma cidade que vai avançando com aglomerados”, afirmou.
“O cenário que esse lugar nos faz, nos permite perceber, nos coloca entre igarapés que foram perdendo sua vida. Nos coloca entre justa posição de moradias, nos coloca no horizonte e na verticalização da cidade, que permite qualidades de moradia diferentes”, destacou o bispo.

No evento, o arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, afirmou que o tempo da Quaresma convida a mudanças “estruturais, sociais e ecológicas”. Segundo ele, a discussão sobre moradia não deve se limitar à construção de casas, mas envolver condições adequadas de lazer, cultura, educação e convivência.
“Não seja só uma casa, como se tem feito até agora, mas se busque também ter o espaço do lazer. A preocupação em relação à moradia é longa no Brasil. Se a igreja no Brasil este ano toma como realidade a moradia para ser refletida e rezada, é porque sabe e conhece e vê a necessidade de abordarmos, refletirmos essa realidade, para assim termos políticas públicas que nos ajudem a dar dignidade às nossas moradias”, disse o cardeal.

Quaresma e “fome de justiça”
Para os líderes da Igreja Católica, o jejum quaresmal é expressão de “fome de justiça”. De acordo com Dom Zenildo, o período litúrgico convida os fiéis a assumirem postura ativa diante das desigualdades sociais, especialmente no que diz respeito ao direito à habitação.
A campanha propõe que as comunidades realizem encontros e novenas nas casas dos fiéis, priorizando áreas onde a realidade habitacional é mais desafiadora. A iniciativa pretende aproximar a Igreja das famílias e promover diálogo sobre políticas públicas voltadas à moradia.
“Então, o jejum bem vivido, bem experimentado, bem realizado, nos torna homens e mulheres mais desejosos de justiça. Quem pratica o jejum e não se torna desejoso da justiça, não realiza, não vive um jejum verdadeiro e autêntico. Hoje é dia de jejum. Ao longo desta quaresma, nós iremos jejuar às sextas-feiras. Jejuaremos na Sexta-Feira Santa. Esta caminhada quaresmal faz de nós, homens e mulheres, mais desejosos e mais comprometidos com a justiça”, disse Zenildo.

Tema abordado em 1993
A temática da moradia foi tratada pela Igreja no Brasil em 1993, com o lema “Onde moras?”. Em 2026, a proposta retoma o debate sob a perspectiva da dignidade humana e da presença de Deus na realidade concreta das pessoas.
A Campanha da Fraternidade deve mobilizar paróquias e áreas missionárias ao longo da Quaresma para sensibilizar a sociedade e contribuir para a construção de políticas habitacionais mais efetivas. “É a pergunta de como nós vivemos. É a pergunta de como nós nos realizamos. É a pergunta se o espaço onde nós nos encontramos, vivemos e convivemos se torna um espaço realizador para nós. É claro que nesta campanha da fraternidade, ao rezar esta realidade, nós também queremos discutir, refletir, conversar sobre políticas públicas, sobre políticas habitacionais”, explicou o bispo Dom Zenildo.

