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Dia a Dia

Australiano cria projeto para armazenar toda a música do mundo no Ártico

3 de janeiro de 2022 Dia a Dia
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Cidade de Svalbard vai abrigar cofre de música (Foto: Brazilians Travel/YouTube/Reprodução)
Cidade de Svalbard vai abrigar cofre de música (Foto: Brazilians Travel/YouTube/Reprodução)
Por Camila Fresca, da Folhapress

SÃO PAULO – Seria possível armazenar toda a música do mundo de forma permanente, a salvo de catástrofes naturais ou desastres causados pelo homem? Para o australiano Luke Jenkinson, a resposta é sim.

Radicado em Oslo, na Noruega, ele é o idealizador do Global Music Vault (ou “Cofre da música global”, em tradução livre), que está prestes a iniciar suas atividades numa das zonas mais remotas do planeta, o arquipélago de Svalbard.

Localizado no Círculo Polar Ártico e pertencente à Noruega, Svalbard é uma zona desmilitarizada situada num dos pontos extremos da Terra. Com menos de 3.000 habitantes, o arquipélago é literalmente onde a civilização termina – é o último território habitado ao norte do planeta. Svalbard passa cerca de três meses na escuridão, numa noite permanente, e outros cinco sob o fenômeno conhecido como sol da meia-noite, com a luz brilhando 24h por dia. A temperatura ao nível do mar varia entre 18 graus Celsius negativos e, no auge do verão, cerca de cinco graus.

Cercado por geleiras e com quase nenhuma vegetação, esse conjunto de ilhas do oceano Ártico tem boa parte de seu território formado por permafrost (solo permanentemente congelado) seco. Tais condições de isolamento, frio e proteção fizeram com que Svalbard fosse escolhida, em 2008, para sediar o Global Seed Vault (“cofre global de sementes”), uma estação de armazenamento de sementes de todo o mundo construída para resistir ao teste do tempo.

Nesse mesmo espírito foi criado, em 2017, o Arctic World Archive, o arquivo mundial do Ártico, cuja coleção reúne cópias e dados digitais de tesouros culturais como manuscritos da Biblioteca do Vaticano, quadros de Rembrandt ou ainda descobertas científicas. É a este projeto que o Global Music Vault – GMV – se somará.

“Eu cresci indo a festivais e ouvindo também a música dos aborígenes, que na Austrália é conhecida e acessível”, conta Jenkinson. Essas memórias, somadas a experiências recentes no Museu Nacional da Noruega e uma breve passagem como gerente de parcerias globais de Alan Walker, um dos principais DJs da atualidade, foram a inspiração para o Global Music Vault.

Trata-se, portanto, de uma iniciativa privada, tocada por sua empresa, a Elire Management Group. Além do Artic World Archive, ao qual o GMV se integrará, o projeto tem como parceiros o Conselho Internacional de Música da Unesco e a Innovation Norway, braço do governo norueguês para a inovação e desenvolvimento de empresas locais, que financia parte do empreendimento.

O espaço físico ainda está passando por definições, mas Jenkinson garante que será uma usina ecológica, neutra para o clima. “Dadas as características locais, praticamente não é necessário regular a temperatura e a umidade da estrutura. Estamos até explorando a ideia de uma abóbada submarina”.

A grande novidade do Global Music Vault, no entanto, está na forma de armazenamento. “Utilizaremos uma tecnologia nova, muito mais duradoura e com uma capacidade de armazenamento ao menos dez vezes maior do que conhecemos, feita de um material que não pode ser destruído”, esclarece Jenkinson, que afirma que os detalhes devem ser anunciados no próximo mês.

E se as mudanças climáticas, como o aquecimento global e a elevação dos oceanos mudarem significativamente as condições naturais de Svalbard? Tal possibilidade foi levada em conta e as cápsulas nas quais os arquivos serão guardados não podem ser danificadas pela água. Por tudo isso, ele garante que a música que for armazenada no Global Music Vault estará acessível por pelo menos mil anos.

Tal inovação não apenas poderia ser utilizada no cofre de Svalbard como influenciar os rumos da indústria musical. “O streaming consome muita energia. Além disso, a cada cinco anos, é necessário migrar os arquivos para novos servidores, num processo em que muitas vezes dados são perdidos”.

Segundo Jenkinson, a ideia é preservar cópias digitais de qualidade master em cápsulas que não exigirão tais migrações. “Essa nova tecnologia tem potencial para ‘limpar’ a indústria da música, torná-la muito mais sustentável. Poderemos substituir o sistema da ‘nuvem’”.

O GMV trabalha com equipe reduzida e uma rede de contatos global. Seu fundador afirma que a primeira fase de armazenamento dará prioridade à música tradicional. “Na Austrália, a música aborígene é conhecida. Mas no Afeganistão, por exemplo, a música tradicional não é acessível ou celebrada. Temos que ter certeza que ela não será esquecida e que as pessoas terão acesso”. Os arquivos de música serão complementados com imagens 3D de instrumentos, textos e vídeos.

Dada a capacidade e longevidade de armazenamento, a ambição do projeto é ter “toda a música do mundo” guardada – por pelo menos mil anos. “Será um lugar para todos os tipos de música. Não devemos ser seletivos”.

Para reunir a música tradicional, o GMV contará com a coordenação do Conselho Internacional de Música, para que contribuições venham de todas as regiões e países. “Queremos garantir que nada seja deixado para trás”, diz Jenkinson. Por sua vez, a música produzida pela indústria cultural ajudará a manter a iniciativa, já que está prevista uma cobrança pelo depósito dessas gravações.

Ainda este ano, assim que anunciar os detalhes da nova tecnologia, o projeto lançará uma campanha para encorajar que os primeiros depósitos de música tradicional sejam feitos. Jenkinson espera que no futuro haja cofres de música em outras partes do planeta, mas garante que, se houver uma catástrofe daqui a centenas de anos, os seres que encontrarem as cápsulas do GMV terão como acessar o material.

Mas ele não crê que a humanidade vá propriamente acabar, embora ache que a vida na Terra será totalmente diferente. Nesse caso, mais do que transmitir o patrimônio musical da humanidade para as próximas gerações, o Global Music Vault quer garantir “que a música que conhecemos hoje nunca seja esquecida”, permanecendo relevante para as sociedades do futuro.

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Assuntos Círculo Polar Ártico, Svalbard
Cleber Oliveira 3 de janeiro de 2022
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