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Geral

Artistas voltam a fazer tinta com as próprias mãos diante da disparada dos preços

7 de fevereiro de 2022 Geral
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Por Carolina Moraes, da Folhapress

SÃO PAULO – Já se foi o tempo em que as tintas dos grandes pintores eram produzidas dentro dos ateliês, ou que profissionais batiam de porta em porta oferecendo sua produção pequena de pigmentos.

A fabricação em larga escala desses produtos já é muito bem sedimentada, com marcas internacionais como Winsor & Newton e Rembrandt sendo compradas pelo mundo todo. Mas artistas brasileiros estão voltando para o fazer artesanal de tintas a óleo tanto para tentar criar uma produção nacional parada há algumas décadas tanto como uma resposta a uma alta de preços nos tubos das melhores empresas de fora.

Os artistas Bruno Dunley e Rafael Carneiro, por exemplo, criaram a Joules & Joules, marca de tinta a óleo que tem pesquisado pigmentos brasileiros, em 2020, já durante a pandemia.

Dunley conta que ele mesmo já pesquisava sobre tintas desde que fugiu de uma produção de obras monocromáticas no fim de 2013 e foi atrás de uma intensidade cromática nas suas telas. “A gente queria tanto desenvolver pelo prazer pela pesquisa, mas também tentar construir isso com outros artistas, ir atrás de pessoas ligadas à conservação de arte, técnicos, químicos, geólogos”, conta ele.

O processo de bater o pigmento com os óleos e esticar essa massa começou a ser feito com rolo de macarrão e batedeira de bolo –ou seja, do jeito que dava. Agora, numa casa em São Paulo, eles já têm a produção estruturada com funcionários e maquinário mais adequado.

Eles também costuraram uma rede com geólogos da Universidade de São Paulo e fornecedores de pigmentos e óleos do Brasil, alguns de produções familiares, para fazer a roda girar. “A terra de Siena, um marrom amarelado muito tradicional na história da pintura, hoje é vendida por muitas marcas, e o pigmento não é da terra de Siena necessariamente –ele é feito em laboratório, mas virou uma marca”, afirma Dunley.

“A gente queria uma empresa de tinta artesanal que pudesse também considerar a situação das nossas regiões, as nossas terras, a nossa cultura. Em Minas Gerais, conseguimos achar uma terra amarelada semelhante à de Siena, que fica na cidade de Rio Acima”.

A Joules é hoje a a única tinta a óleo profissional no mercado nacional, que está desde a década de 1980 sem uma empresa para chamar de sua, quando a chamada Deco fechou. Ainda que o Brasil tenha essa carência de empresas nacionais, artistas mantiveram acesa essa relação mais próxima com a tinta em buscas de pigmentos que não se encontram nem em tubos gringos.

Rodolpho Parigi, por exemplo, macerava dois pigmentos distintos para criar um magenta próprio que marcou boa parte de seus trabalhos. “É uma característica muito pessoal da minha pintura, que as pessoas reconheciam de longe. Não é nem um pink, nem um fúcsia”, afirma ele, sobre a tinta que também usou em uma obra sua apresentada na última feira Art Basel, em Basileia.

Uma das lendas dessa produção caseira foi Paulo Mattos, que morreu em 2016 e era conhecido como Paulinho Pigmento na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde vendia pigmentos e tubos já com as misturas feitas.

“Ele aportava por lá com uma sacola de tintas e pigmentos e a gente comprava dele durante as aulas. Ele era como um catador de pigmentos”, conta a artista Lucia Laguna, que usava as tintas de Paulinho quando estudava no Parque Lage e hoje tem 88 anos. “Ele ia para as montanhas e achava terras incríveis”.

Também produtor de bastões de óleo, que Laguna tem até hoje, ele chegava com tons rosados e uma gama de terras que ia do marrom mais escuro a um ocre clarinho que eram “especiais”, segundo a artista, numa época em que o Brasil não primava por uma criação de tinta. “O pigmento era muito concentrado. Ele coava tudo, passava numa peneira para não ficar nenhum caroço e ficar o mais próximo possível de um talco, bem fininho”, conta ela.

Essa venda direta no Parque Lage também possibilitava pequenas encomendas de uma maneira bem exclusiva –trabalho que a Joules também parece querer resgatar.

Bruno Dunley mostrou a esta repórter, que acompanhou a produção de tintas na casa da marca em São Paulo, tecidos que o artista Lucas Arruda, um dos principais artistas brasileiros, forneceu para que desenvolvessem as tintas seguindo aqueles tons. Panmela Castro, que expôs recentemente na capital paulista, é outro nome a pedir os serviços da marca para criação dos pigmentos.

O que esse alquimista do Parque Lage permitia ainda é que alunos, geralmente longe de terem dinheiro para fazer suas pinturas, tivessem acesso a tubos mais baratos do que as marcas internacionais oferecem. No Brasil de 2022, os preços também se tornaram um problema –até para os nomes já renomados.

Parigi considera “fora do comum” os valores de tubos das marcas internacionais, que têm as melhores qualidades do mercado, no país. “Tintas que custavam R$ 90, e já eram caras, agora chegam a R$ 400. A gente está com falta de cor e, quando tem, custa quatro, cinco vezes o preço que já era caro”, afirma ele.

Foi esse contexto dos preços das tintas disparando que também motivou a criação da Joules. Era um desejo, diz Dunley, de criar e tentar manter essa rede aqui –e em reais.

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Assuntos Artistas, disparada dos preços, tinta
Murilo Rodrigues 7 de fevereiro de 2022
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