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Sando Breval

Antes da Quarta Revolução: a Tripla

19 de novembro de 2019 Sando Breval
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“… é impossível negar que uma grande revolução está em curso no mundo. Em certo sentido trata-se de uma tripla revolução: ou seja, uma revolução tecnológica, com impacto na automação e da cibernética”.

Após a leitura deste fragmento de discurso certamente pode-se pensar em Bill Gates, Steve Jobs, Andy Groove entre outros. Mas o fato é que tal fragmento é trecho de um sermão, proferido na manhã do dia 31 de março de 1968, na Catedral Nacional de Washington – aliás, uma das maiores construções religiosas do mundo – pelo reverendo Martin Luther King Jr. Isso mesmo, Martin Luther King, o Reverendo King.

Profecia da mudança 

Naquele domingo, o Reverendo King postou-se no púlpito de pedra, com a igreja completamente lotada, e do lado de fora milhares de pessoas, até na igreja vizinha, a igreja de Santo Albano, para ouvir o sermão. O sermão do Dr. King intitulava-se: “Permanecendo desperto durante a Grande Revolução”. Abordou, como esperado, os direitos humanos mas vaticinou sua visão sobre um futuro ou uma mudança revolucionária a porvir.

Temas estratégicos 

A expressão “Tripla Revolução” faz referência a um relatório desenvolvido por um grupo de elite formado por cientistas, acadêmicos, jornalistas, tecnólogos. O grupo tinha ganhadores de Prêmio Nobel como Linus Pauling, Gunnar Myrdal, Friedrich Hayek dentre outros. O Relatório alcançava os seguintes temas estratégicos: armas nucleares, direitos civis, tecnologia e economia.

Alertas sobre a automação 

Uma informação interessante é que o relatório mostrou que a automação possivelmente resultaria em uma economia de produção, potencialmente ilimitada, e os sistemas e máquinas envolvidos exigiriam pouca participação dos seres humanos, com possibilidade de desemprego em massa e curva ascendente da desigualdade.

Soluções polêmicas 

A Tripla Revolução foi um marco quanto às preocupações a respeito do impacto da automação na sociedade, sobretudo após os estragos da II Guerra Mundial. Mas o ponto mais polêmico do Relatório foi a solução para as consequências da automação –  a implementação de renda mínima, que segundo os autores seria uma forma de amortecer os problemas causados pela automação e um novo programa de assistência social. Sem dúvida polêmico.

Paradoxos do desemprego 

Mas o fato é que a discussão sobre o processo de automação, nos processos produtivos de manufatura, já trazia um debate anterior bem difundido. Em 1949, por exemplo, a pedido do jornal New York Times, um importante matemático, Norbert Wiener, descreveu com clareza sua visão sobre o futuro dos computadores e da automação,  “… se pudermos fazer qualquer coisa de maneira clara e inteligível, poderemos fazê-la com uma máquina”,  e ainda advertiu que isso teria a possibilidade de reduzir o custo financeiro do operário de uma fábrica a ponto de não valer a pena contratá-lo.

Automação e liberdade 

Voltando ao discurso do Dr. King: “há também a revolução dos armamentos, com o surgimento de armas de guerra atômicas e nucleares; e há a revolução dos direitos humanos, com a explosão de liberdade que está acontecendo no mundo inteiro”. Ironicamente, as preocupações da Tripla Revolução, do período pós-guerra, quanto à automação, quase não teve evidências. Em 1964, época do Relatório, o desemprego americano beirava 5% e em 1969 cairia para a 3,5%. Vale ressaltar que, nos anos de 1948 a 1969, o desemprego nunca passou de 7%. O fato é que a tecnologia trouxe produtividade, e na sua esteira um crescimento do nível salarial.

Mudanças necessárias 

Martin Luther King Jr completa: “De fato, vivemos numa época em que mudanças estão ocorrendo. E há ainda a voz que brada através do panorama do tempo dizendo – Vejam, faço novas todas as coisas; as coisas antigas desaparecem”, e com isso deixa claro a sua visão da necessidade de renovação, de novos marcos legais, posturas e ações.

Racionalidade tecnológica

Um fato muito relevante, na indústria americana, é a relação de horas de trabalho, onde claramente o impacto da automação foi relevante quando o Departamento de Estatísitca do Trabalho apurou que, em 1998, os trabalhadores do setor industrial fizeram cerca de 190 bilhões de horas de trabalho, uma década depois, em 2013, os mesmos 190 bilhões de horas, apesar do valor dos bens e serviços terem aumentado 40% e a demografia no período ter registrado o acréscimo de 40 milhões de pessoas.

Atraso tecnológico, estratégico e cultural 

O momento em que vivemos aponta, em termos relativos, ociosidade no parque fabril brasileiro, portanto, temos ainda um longo caminho, seja pelos aspectos da capacidade, seja pela produtividade, mas o fato é que existe um significativo atraso tecnológico, estratégico e cultural. Tecnológico porque não temos a agilidade na interseção entre academia, empresas e comunidade. Estratégico por que as políticas públicas são de governo, e não de Estado; e cultural por que temos dificuldades de todo o tipo com a pesquisa aplicada.

Estamos dentro ou fora da caixa? 

Faz-me lembrar uma conversa entre Henry Ford e Walter Reuther, este último um forte sindicalista, sobre uma visita que ambos faziam numa fábrica que havia sido automatizada. Henry perguntou para Reuther: “Quando esses robôs vão contribuir para o sindicato?” Reuther respondeu: “Henry, como você vai conseguir que eles comprem seus carros?”. Estamos dentro ou fora da caixa? As coisas estão se fazendo novas, de forma muito rápida. Ou passamos logo para o Tesla autônomo ou ficaremos presos na kombi. Que, aliás, já desapareceu. Fiquemos despertos.


Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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