
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – O avanço da pecuária e da soja sobre áreas de floresta desmatadas na Amazônia repete padrão de destruição da vegetação nativa que ocorre no Cerrado e na Mata Atlântica. Mas especialistas afirmam que é possível alimentar grandes populações sem derrubar uma única árvore na região. A agricultura familiar produz atualmente 70% dos alimentos da cesta básica brasileira e é a atividade viável para conciliar produção de alimentos e preservação ambiental.
“Essa é uma das principais perguntas que a gente, como humanidade, está desafiado a responder [como conciliar produção de alimentos com conservação do meio ambiente?]”, diz Luiz Beduschi, da gerência de políticas de desenvolvimento rural da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
“O que a gente tem que buscar são novas formas de produzir, novas maneiras de alimentar a população mundial, encontrar os mecanismos em que a gente possa produzir mais com menos. A gente pode aumentar a produção sem avançar um centímetro em novas terras. Eu não preciso desmatar mais para produzir mais alimentos”, argumenta.
Ele afirma que a Amazônia tem milhões de hectares de pastagens degradadas. “Com simples práticas de manejo é possível tornar essas pastagens mais produtivas, aumentar a lotação animal, fazer uma pecuária regenerativa, conseguir os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta”, explica Beduschi.
A concentração fundiária é o principal problema desse desequilíbrio, afirma o coordenador de relações internacionais da Contraf (Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar) do Brasil, Marcos Rochinski.
“O principal fenômeno que acontece hoje de devastação do meio ambiente é exatamente pela concentração de terra”, diz. “As grandes propriedades, os grandes fazendeiros, eles não estão interagindo com a propriedade no sentido de ter aquele local como um local de moradia para viver bem. Ele explora a terra como um bem econômico para buscar lucro da terra”.

Conhecimento tradicional
Os territórios mais preservados da Amazônia estão sob manejo de povos indígenas e comunidades tradicionais. “Quando a gente identifica aqueles territórios em que a floresta está mais conservada, ela vai estar mais conservada exatamente nos territórios manejados por povos indígenas, populações tradicionais”, cita Beduschi.
Para Rochinski, a experiência indígena é viável para produção alimentar em grande escala. “Se você olhar para a necessidade que nós temos hoje de produção diversificada, é viável sim porque é possível você conviver com a floresta em pé dentro de um processo de exploração sustentável produzindo a partir do que a natureza te propõe como diversidade”.
Pequenas áreas, grande produtividade
Segundo os especialistas, 60% da produção mundial de alimentos são de áreas de até 20 hectares. “A experiência indígena, ribeirinha, e das comunidades tradicionais mostra que a terra é altamente produtiva quando você atende os ciclos da natureza”, explica a diretora de programas do Incra (Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária), Débora Guimarães.
Ela afirma que a agricultura familiar trabalha em harmonia com o meio ambiente. “A agricultura familiar, a gente chama de uma agricultura amiga da natureza porque ela trabalha seguindo os ritmos da natureza, ela não força uma produção fora do ritmo da natureza”.
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Marcos Rochinski concorda com a diretora do Incra. Quem vive da terra cuida dela naturalmente. “Sempre que você tem os agricultores morando nas suas propriedades, há a necessidade de interação com o meio ambiente”, explica Rochinski. “Ou seja, quem vive na terra, quem está morando na propriedade onde está produzindo, naturalmente precisa cuidar do meio ambiente, precisa cuidar da floresta, precisa cuidar da água, precisa cuidar do solo, porque ele depende exclusivamente daquele espaço”.
Sociobiodiversidade amazônica
Os especialistas afirmam que a Amazônia oferece um verdadeiro laboratório de alternativas alimentares sustentáveis. Cada região desenvolve produtos específicos que geram renda sem agredir o meio ambiente.
O coordenador do CNS/PA (Conselho Nacional de Populações Extrativistas), Atanagildo Matos, enumera as possibilidades. “Tem o manejo de peixe, o pescado. Então, eu posso trabalhar com produção de peixes que são uma alimentação ótima, mas além disso nós temos outros tipos de produtos que são oriundos daqui e que tem propriedade do mercado, por exemplo o açaí”.
No Pará, o açaí se tornou um exemplo de como a floresta em pé pode gerar renda. “O açaí tem uma preferência de mercado gigantesca, e ele não baixa de preço, ele sempre está cada vez mais caro”, diz Matos. “Quem trabalha com açaí tem um mercado seguro”.
O produto funciona como bolsa de valores no estado vizinho do Amazonas. “No Pará o açaí funciona como bolsa de valores, ele tem um preço de manhã, um preço de meio dia, outro preço à tarde, depende da quantidade do açaí que está chegando”, explica Matos.
O pirarucu é outro exemplo bem-sucedido de manejo sustentável, especialmente no Amazonas. “A gente tem experiência em Mamirauá, que maneja pirarucu, e tem experiência no Médio Juruá”, lembra Matos. A despesca acontece em setembro com os ciclos naturais da espécie.
“A escama do pirarucu tem bastante preferência de mercado, mas a carne, o filé do pirarucu, você tem dificuldade para colocar no mercado”, admite. O desafio está na logística e nos hábitos de consumo. “Belém, que é um centro consumidor muito grande, lá só comem pirarucu salgado, não comem congelado”.
“Nós temos o óleo da andiroba, o óleo da copaíba”, lista Matos. “Tem outros produtos que são alimentos, como por exemplo frutas que produzem polpas, como cupuaçu, como camu-camu e outras que é uma infinidade”.
Cada região tem especialidades próprias. “Cada região tem um tipo de frutas que são importantes e que tem um sabor fantástico de mercado, que é saboroso”, diz Matos.

Expansão do modelo
Apesar do potencial da biodiversidade amazônica para produção de alimentos, há obstáculos para ampliar a produção sustentável. Matos identifica quatro gargalos principais que impedem o crescimento dessa economia florestal.
“O nosso desafio, por exemplo, é o serviço de assistência técnica e extensão rural que é onde eu discuto conhecimentos, eu introduzo conhecimento naquilo que eu já faço para produzir melhor.”. O conhecimento tradicional precisa ser combinado com inovação técnica para ganhar escala, defende o especialista.
O segundo obstáculo é o acesso ao financiamento. “A linha de crédito do governo federal ou do governo estadual é insuficiente porque ele sempre quer trabalhar com as pessoas com segurança, com as pessoas que já tem o costume de tomar crédito”, critica Atanagildo Matos. As comunidades tradicionais ficam excluídas do sistema financeiro.
O terceiro desafio envolve o beneficiamento dos produtos. “Quando eu trabalho com produtos perecíveis, ou eu processo para ficar em um ambiente natural, ou eu congelo. E quando eu vou congelar um produto determinado, ele tem tempo, eu não posso ficar com ele muito tempo congelado, além de acarretar custos, ele pode decompor”.
Por último, o transporte na região encarece toda a cadeia produtiva. “O nosso sistema de deslocamento de mobilidade na Amazônia é específico e é caro, custa caro isso”, lamenta Matos. “Para produzir determinado tipo de alimento, como o pescado, para mandar daqui para o Pará, é muito caro e se eu tiver que mandar para o Sul, ou para outra região, o Nordeste, ou Centro-Oeste, então, a mobilidade desse produto, o transporte, ele acaba encarecendo demais o custo desse processo”.
Mudança de incentivos
Para Beduschi, da FAO, é necessário “reestruturar os incentivos que hoje fazem com que a pecuária, a agricultura, a mineração, que exploram de forma irresponsável os recursos, seja desincentivada”.
O objetivo é encontrar mecanismos para que “formas de uso da terra e dos recursos naturais mais amenas, mais amigáveis com o planeta, sejam viáveis economicamente, que tenham possibilidade de ganhar escala”.
Ganância versus necessidade
“Não temos essa necessidade, não tem justificativa para você abrir novas fronteiras agrícolas”, afirma Rochinski. “Hoje, as terras que já estão disponíveis para a pecuária e a agricultura são mais do que suficientes para a gente sustentar a nossa economia”. Para ele, existe “uma ganância por parte de um segmento econômico do nosso país, há uma ganância para ter cada vez mais lucros”.
Segundo o especialista, o desmatamento na Amazônia afeta todo o país. “As secas constantes, as estiagens constantes que temos vivenciado, por exemplo, na Região Sul, as enchentes recentes, como foi o caso de Porto Alegre e região metropolitana, todo o Estado do Rio Grande do Sul, tem muito a ver com esse desequilíbrio da floresta amazônica!”.
Os especialistas participaram em Manaus da “Semana da Amazônia: Desenvolvimento Rural Sustentável e Sistemas Agroalimentares”, que terminou na quinta-feira (4).
