EDITORIAL
MANAUS – A midiazona, formada pelos grandes e tradicionais meios de comunicação, faz cada vez menos jornalismo, principalmente quando a pauta é a economia brasileira. Um exemplo: as votações das chamadas PEC da Bondade – em meados deste ano, para favorecer a eleição de Bolsonaro – e PEC da Transição – pelo governo eleito de Lula.
No primeiro caso, a mídia fazia gestão contra Bolsonaro e, por isso, denunciava a estratégia do governo para tentar angariar votos para a reeleição do presidente. Primeiro, apelidaram a Proposta de Emenda à Constituição de “PEC da Bondade”. Depois, alguns veículos passaram a chama-la de “PEC Kamikaze”.
Naquele momento, já estava dito que para manter o pagamento do benefício do Auxílio Brasil (ou Bolsa Família), era preciso arrumar alguma fonte de receita, pois a PEC de Bolsonaro só garantia o pagamento até dezembro deste ano.
Tanto Lula quanto Bolsonaro prometiam, na campanha eleitoral, que iriam manter o pagamento do benefício de R$ 600 aos mais pobres a partir de 2023. Qualquer deles que ganhasse a eleição teria que mudar o orçamento da União e a Constituição para garantir recursos para honrar o compromisso.
Agora, a mesma mídia que estava preocupada apenas com o chamado “teto de gastos!” e a “responsabilidade fiscal”, joga contra a aprovação de uma PEC que garanta o dinheiro necessário para o pagamento do Bolsa Família de R$ 600 e outros gastos essenciais no próximo ano.
Agora, a midiazona chama a PEC da Transição de “PEC da Gastança”, “PEC do Estouro” ou “PEC do Rombo”. Esses adjetivos não são gratuitos. Têm o propósito de arranhar a imagem do futuro governo e inibir as ameaças de redução dos lucros do chamado “mercado”, que pode ser traduzido como “instituições financeiras que se alimentam do dinheiro público”.
E por que a midiazona faz esse jogo? Porque as grandes empresas de mídia também formam o time das grandes corporações e ganham dinheiro no mercado financeiro. Qualquer movimento que ameace reduzir os lucros dessa gente é duramente combatido.
O jornalismo econômico é um dos braços mais fortes do mercado financeiro, e os jornalistas que atuam na grande mídia não fazem qualquer movimento para disfarçar o alinhamento. Pelo contrário, fazem a defesa incondicional dos interesses do mercado. Esses “profissionais” dificilmente têm voz própria; são a “voz do mercado”.
Por isso, o “teto de gastos” é considerado uma instituição intocável. Instituído pelo governo de Michel Temer, o objetivo desse “teto” é garantir a sobra de muito dinheiro para o pagamento da dívida pública, ou seja, muito dinheiro canalizado para as contas bancários de investidores.
No ano passado, de acordo com dados do site Auditoria Cidadã da Dívida, dos R$ 3,861 trilhões do Orçamento da União, R$ 1,960 trilhão foi usado para pagamento de juros e amortização da dívida pública. O valor abocanhado pelo mercado financeiro representa 50,78% do Orçamento da União de 2021.
Os gastos da União com Previdência, saúde, educação, segurança, investimentos e outras despesas somaram apenas R$ 1,901 trilhão ou 49,22% do Orçamento da União.


