
Informação e Opinião
Por Valmir Lima, do ATUAL
MANAUS – A Ufam (Universidade Federal do Amazonas) foi palco de dois episódios lamentáveis nos últimos dias protagonizados por “jovens de direita” e por um vereador da mesma corrente de “pensamento”: no primeiro episódio, um grupo de jovens foi ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Ufam alegando terem recebido “uma denúncia” de que “havia cartazes com ideologias marxistas e ideologias de esquerda na universidade da Ufam”. No segundo, o vereador foi ao local tomar satisfação e gerou uma confusão que envolveu seus seguidores, um professor e estudantes da instituição federal de ensino.
Onde está o problema? Antes de rasgar os cartazes, os jovens de direita justificaram seus atos afirmando que a universidade não é “lugar de ideologia” e também “não é lugar de fazer politização”. Em seguida, passaram a arrancar e a rasgar os cartazes que continham frases contra o Estado de Israel e a favor do povo da Palestina, vítima da matança promovida pelo governo de Benjamin Netanyahu. Outros defendendo a classe trabalhadora. Outros com frases impronunciáveis contra políticos de direita. Outros, ainda, lembrando Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada a tiros por incomodar autoridades. E ainda frases defendendo as mulheres no poder.
Os jovens desorientados se acharam no direito de destruir tudo em nome de uma ideologia ao mesmo tempo em que pregaram que a instituição universidade não é lugar de ideologia nem de politização. Trata-se de um comportamento tolo, risível.
A Universidade, com U maiúsculo, é um espaço de ideologia por excelência. Foi nas grandes universidades do mundo inteiro que o pensamento crítico se desenvolveu. Foi nessas instituições que os grandes pensadores encontraram espaço para a criação de teorias que transformaram a vida humana na Terra.
A Filosofia que moldou o pensamento dos humanos em todas as épocas teve a universidade como um ambiente de preservação da memória ao mesmo tempo em que proporcionou o desenvolvimento de novos pensadores, de todas as ideologias.
Na Universidade há espaço para todas as formas de ideologia. Não há espaço mais apropriado para o confronto de ideias, o que, em outras palavras, significa lugar de discussão política. Portanto, é também um ambiente de politização. É esse ambiente em que as ideias são confrontadas que mulheres e homens encontram respostas para os problemas contemporâneos.
O que a Universidade não comporta é a intolerância, a censura, a violência, o cerceamento de ideias. Não há pensamento que não possa ser contestado. Não há ideologia que não possa ser confrontada. Mas a contestação e o confronto precisam ser feitos sem atropelos, sem a intenção de apagar o adversário. O debate sadio é fundamental para que a ideologia não se transforme em arma de guerra e para que o confronto de ideias não descambe para a violência verbal e física.
Quando os jovens resolvem rasgar os cartazes produzidos por um grupo que pensa diferente, não têm outra intenção que não a promoção da violência. São decisões pensadas por um grupo que muitas vezes pretende transformar a reação violenta em espetáculo para ser exibido nas redes sociais.
Por que esses jovens não produziram cartazes e também ocuparam os mesmos espaços usados pelos que os desagradam ideológica e politicamente?
É tolice achar que uma ação como a de rasgas cartazes que supostamente afrontam suas próprias ideologias não é uma forma de ideologia. É tolice e meia pensar que discordar de pessoas que abraçam a ideologia de esquerda, as teorias marxistas, o socialismo não é uma forma de fazer política.
Dizer que a Universidade é lugar de ensino e não de discursão ideológica ou política é não entender nada do que é o papel da universidade. A instituição Universidade só faz jus a esse nome se conseguir produzir conhecimento, e a produção de conhecimento não é uma tarefa neutra, é essencialmente ideológica.
As Filosofia, a Sociologia, a Psicologia, a Economia, o Direito e todas as áreas do saber só evoluíram porque mulheres e homens tiveram a coragem de transgredir o pensamento consolidado em cada época da História. Portanto, a Universidade é, acima de tudo, o espaço da produção do conhecimento, e não de “beber” conhecimento (ensino).
Por isso, a Universidade é fundada no tripé ensino, pesquisa e extensão. No ambiente universitário há professores e professoras, alunos e alunas, técnicos e técnicas que pensam diferente. Nem todos se manifestam como aqueles que produziram os cartazes rasgados pelos jovens de direita. Alguém se perguntou por que essas pessoas que dão vida à Universidade não tiveram a ideia de resgas os cartazes? A resposta é simples: essas pessoas entendem o significado do direito que todo o ser humano tem de expressar seu pensamento.
A idiotização dos jovens de direita não os permite compreender o significado da palavra tolerância. A eles, a frase de Voltaire na obra Tratado sobre a Tolerância: “A tolerância nunca provocou uma guerra civil; a intolerância cobriu a terra de matança.”

