
Por Felipe Campinas, do ATUAL
MANAUS — Rica em terras raras, minerais críticos e petróleo, a Amazônia brasileira ganha centralidade nas atuais disputas geopolíticas globais. Embora não identifique risco imediato de invasão, o economista e professor Carlos Honorato avalia que a reorganização da ordem internacional e a postura dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump exigem atenção permanente sobre a região.
De acordo com o professor, o mundo entrou em uma nova fase marcada pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela prevalência da lógica da força. “Por mais absurda que seja uma invasão dos Estados Unidos à Amazônia, é algo que tem que começar a ficar no radar”, afirmou. Para Honorato, a América Latina voltou a ser tratada como área de influência direta de Washington em uma lógica semelhante à das décadas de 1950 e 1960.
“Eu não acho que haja uma preocupação imediata, nem que isso vá acontecer, mas que infelizmente isso tem que estar no nosso radar, tem que estar no nosso radar porque o Donald Trump está tratando a América Latina como seu quintal”, disse Honorato, que esteve em municípios do interior do Amazonas e atualmente trabalha na FIA Business School, em São Paulo.
A avaliação ocorre após a operação militar dos Estados Unidos em Caracas, que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Trump também ameaçou anexar a Groenlândia, região considerada estratégica para os Estados Unidos para conter adversários comerciais na região do Ártico.
“Isso fere todos os tratados, toda a ordem internacional que a gente tem hoje. Enterra de uma vez por todas a ONU e qualquer organismo multilateral e aí os mecanismos de alianças, de suporte e de defesa de soberania vão mudar efetivamente”, afirmou Honorato.
Para o professor, esse cenário reforça a sensação de urgência e incerteza na região amazônica. Ainda assim, ele pondera que uma eventual tentativa de controle direto da Amazônia seria um processo complexo, envolvendo populações locais e altos custos políticos e administrativos.
“A invasão da Venezuela criou em todos uma sensação de urgência, de preocupação e de ansiedade sobre próximos passos do Donald Trump. A região amazônica é extremamente estratégica pouco explorada diante de todo o seu potencial e principalmente pouco protegida, especialmente pelo Brasil. Eu não creio que neste momento o Trump vai ter algum movimento no sentido de querer anexar a Amazônia, até porque não é assim que funciona”, disse Honorato.
“Quer dizer, o processo de você derrubar um líder, tirar uma liderança, como foi o caso do Maduro, e você efetivamente assumir, administrar aquilo é um processo muito mais complexo. A gente não pode esquecer que tanto na Amazônia como na Venezuela você tem pessoas que vivem, pessoas que provavelmente também são contra esse tipo de abordagem”, completou.

Carlos Honorato disse que interesses estratégicos ajudam a explicar a atenção dos Estados Unidos sobre a América do Sul. Além do petróleo venezuelano — o maior volume de reservas do mundo —, o Brasil concentra grandes reservas de terras raras, minerais essenciais para tecnologias avançadas.
“É uma situação bastante complexa. É uma situação em que seria importante todo mundo que está envolvido nesse ambiente viver uma lógica de cenários que por mais absurdo que seja uma possível invasão do Trump na Amazônia, e na Amazônia brasileira, isso é alguma coisa que tem que começar a ficar no radar”, disse Honorato.
No Amazonas, as reservas de terras raras e minerais críticos estão nos municípios de Presidente Figueiredo, Autazes, São Gabriel da Cachoeira, Nova Olinda do Norte, Itacoatiara e Apuí.
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Para o professor, a combinação de poder militar dos Estados Unidos — com um orçamento anual superior a US$ 800 bilhões — e a fragilização das regras internacionais exige que o Brasil e os países sul-americanos trabalhem com cenários estratégicos. “Não é uma preocupação imediata, mas precisa estar no radar”, reforçou.
O Brasil mantém cerca de 10 mil militares na região amazônica, sendo aproximadamente 2,3 mil em Roraima, segundo o ministro da Defesa, José Mucio.
Honorato ainda ainda que a defesa da soberania passa pelo fortalecimento do Estado, pela valorização da Amazônia e pelo entendimento, por parte da sociedade brasileira, do valor estratégico e global da região.
“A maioria dos brasileiros não tem noção do que é a Amazônia, até porque nunca foi. É caro ir para aí. Mas conhecer a realidade do povos amazonense, das oportunidades que a gente tem e da riqueza que está guardada e que está preservada pelas pessoas da Amazônia é fundamental a gente aumentar o nosso espírito patriota de defesa da soberania e principalmente de defesa dessa riqueza. Desse patrimônio que teoricamente não é de ninguém”, disse Honorato.
“É um patrimônio global nacional e que está sobre o nosso olhar, e a gente tem que ser muito atento sobre isso e não deixar que qualquer gringo maluco se meta a querer pegar as nossas riquezas e principalmente pegar as riquezas da humanidade”, completou professor.
Em outubro de 2025, o interesse dos Estados Unidos pelas terras raras e minerais críticos do Brasil foi explicitado em reunião conduzida por Gabriel Escobar, então encarregado de negócios da embaixada americana no país.
No encontro, ele se reuniu com empresários do setor mineral, representantes do governo brasileiro e dirigentes do Ibram para tratar da exploração de minerais estratégicos, evidenciando a atenção de Washington ao potencial brasileiro nessas matérias-primas consideradas essenciais para cadeias globais de tecnologia, energia e defesa.
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Terras raras no Amazonas
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades similares encontradas em alguns minerais. São definidos como terras raras os 15 lantanídeos, além do escândio (Sc) e do ítrio (Y). Os principais elementos são os utilizados para fabricação dos ímãs magnéticos, que são o neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e o disprósio (Dy).
No Amazonas, há ocorrências identificadas no depósito de Seis Lagos, localizado a 64 km a nordeste do município de São Gabriel da Cachoeira, onde está a fronteira do Brasil com a Venezuela.
Trata-se de um depósito de nióbio com altas concentrações de terras raras. O recurso estimado é de 43,5 milhões de toneladas de minérios. A região é uma reserva legal índigena e, portanto, a exploração é impedida por restrições legais.
Em Presidente Figueiredo, a Mina de Pitinga, operada pela Mineração Taboca S.A., é uma das maiores produtoras de estanho da América Latina e possui depósitos significativos de columbita – fonte de nióbio e tântalo – além de reservas com potencial para terras raras como Disprósio, Térbio, Neodímio e Praseodímio.
