
Do ATUAL
MANAUS – Os pássaros na Amazônia usam resíduos descartados pelos humanos em diversos ambientes da floresta para construir ninhos. Peixes comem plástico e papel e esse material também acaba presos nas plantas aquáticas concentrando poluição em pontos fixos dos rios.
A denúncia é de pesquisadores que expuseram o dano ambiental na 76ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) na UFPA (Universidade Federal do Pará), em Belém, entre os dias 8 e 13 de julho.
A falta de saneamento básico é citada pelos pesquisadores como causa da poluição do ambiente amazônico. “A falta de condições adequadas de saneamento encontradas na maior parte da Amazônia representa uma importante fonte de entrada de plásticos e microplásticos nos rios do bioma, que compõem o maior sistema fluvial do mundo”, disse José Eduardo Martinelli Filho, professor da UFPA.
“Outro exemplo de falta de condições adequadas de saneamento na Amazônia é o da região metropolitana de Manaus, no Amazonas, cuja população é composta por mais de 2 milhões de habitantes. No total, 32% das residências utilizam esgoto sanitário público”, exemplificou o pesquisador.
José Eduardo disse que 70% das cidades da Amazônia Legal não têm tratamento de água. “Geralmente, a principal fonte de microplásticos em ambientes aquáticos brasileiros são as cidades. E, no caso da Amazônia, a população nas cidades aumentou 11 vezes em um século. Há cem anos existiam 1,5 milhão de habitantes na Amazônia e agora há 16 milhões de pessoas morando na região”, comparou.

Atualmente na Amazônia há metrópoles com mais de 1 milhão de habitantes como Belém e Manaus, além de cidades de médio porte, com 150 mil a 999 mil habitantes, como Altamira, Castanhal, Marabá, Parauapebas, Santarém, Porto Velho, Macapá, Boa Vista e Rio Branco. “São crescimentos populacionais recentes na história da Amazônia”, avalia Martinelli.
Para avaliar o saneamento básico em 313 municípios amazônicos, os pesquisadores da UFPA criaram um índice com base em dados sobre o percentual de áreas urbanas cobertas por coleta pública de esgoto, sistemas de drenagem de águas pluviais e de disposição de resíduos sólidos obtidos da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento).
Os resultados das análises indicaram que apenas 2,6% apresentam condições adequadas de saneamento básico. Por outro lado, 35% foram classificados como em condições baixas e 15% como precários.
A coleta de águas residuais e o sistema de drenagem de águas fluviais foram classificados como ruins na maioria das cidades amazônicas e os sistemas de disposição de resíduos sólidos foram o serviço urbano classificado como o mais satisfatório, com disponibilidade média de 76% nas cidades avaliadas.
“É difícil encontrar situações de saneamento adequado na Amazônia. O município de Altamira (PA), por exemplo, tem só uma estação de tratamento de água, que não está recebendo todo o esgoto produzido pela cidade”, diz Martinelli.
Resíduos para ninhos
De acordo com Martinelli, estima-se que sejam lançadas por ano 182 mil toneladas de plástico na Amazônia brasileira, o que a torna a segunda bacia hidrográfica mais poluída do mundo.
Além do plástico descartado pelas cidades da região, o bioma amazônico também recebe o resíduo gerado por países com rios de nascentes próximas uns dos outros como a Colômbia e o Peru. Dessa forma, o resíduo tem sido encontrado em todos os lugares no bioma e atingido diversas espécies.
“Costumamos ver muitos trabalhos científicos que mostram espécies de peixes ingerindo microplásticos. Mas em qualquer lugar da biota [conjunto de seres vivos de uma região] onde for procurado plástico, em diferentes escalas de tamanho, é possível encontrar esses poluentes”, afirma o pesquisador.
Estudo publicado recentemente por pesquisadores da UFPA identificou a retenção de plásticos por macrófitas [plantas aquáticas na superfície da água]. “Os bancos de macrófitas retêm plásticos de diferentes dimensões, do macro, passando pelo meso (médio) e chegando aos microplásticos”, explica Martinelli.

Outro trabalho feito por uma estudante de mestrado, em vias de publicação, mostrou que o japu (Psarocolius decumanus), uma espécie de ave que habita boa parte das matas da América do Sul, tem incorporado detritos plásticos para a construção de seus ninhos. Os pesquisadores encontraram principalmente fibras emaranhadas e cordas em 66,67% dos ninhos do pássaro.
“O plástico usado por essa espécie de ave para construir seus ninhos é proveniente de material de descarte da pesca”, explicou osé Eduardo Martinelli.
Falta de estudos
Os pesquisadores enfatizaram que, apesar de o aumento exponencial das pesquisas sobre microplásticos em todo o mundo, sobretudo nos últimos dez anos, ainda há poucos estudos com foco no bioma amazônico.
A pesquisa limitada, as restrições metodológicas, as falhas e a falta de padronização, combinadas com as dimensões continentais da Amazônia, dificultam a coleta do conhecimento fundamental necessário para avaliar com segurança os impactos e implementar medidas de mitigação eficazes.
Também há a necessidade urgente de expandir os dados científicos disponíveis para a região, melhorando a infraestrutura de investigação local e formando pesquisadores, além de realizar estudos de acompanhamento de longo prazo, apontaram os pesquisadores.
“Os estudos sobre plástico ou microplástico vão trazer, na verdade, subestimativas, porque a escala do problema é tão grande que a gente sempre esbarra em um inimigo fatal quando estamos fazendo nossos projetos, que é a questão do tempo. A gente nunca consegue fazer estudos de longo prazo”, disse Monica Ferreira da Costa, professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).
Também não há um consenso sobre o que são os microplásticos, apontou Décio Luis Semensatto Junior, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A definição genérica comumente aceita é a de que os microplásticos são partículas com tamanho entre 1 e 5 micrômetros (ou 1 milésimo de milímetro).
“Há artigos científicos que falam sobre microplástico que nem sempre seguem a mesma definição. Também é difícil identificar qual o artigo publicado no Brasil que reportou a maior quantidade de microplásticos porque os trabalhos não são, em sua maioria, comparáveis entre si”, avaliou Semensatto.
