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Dia a Dia

Tragédia em São Paulo é alerta para aprimorar previsão de chuvas

23 de fevereiro de 2023 Dia a Dia
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Desabamento em São Sebastião (SP): área de risco (Foto: Rovena Rosa-ABr)
Desabamento em São Sebastião (SP): área de risco (Foto: Rovena Rosa-ABr)
Por Carlos Petrocilo e Tulio Kruse, da Folhapress

SÃO PAULO – A falta de investimento em novas tecnologias, aliada à aceleração das mudanças climáticas, torna a previsão do tempo mais imprecisa no Brasil, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

O serviço de meteorologia é essencial para que órgãos públicos, como Defesa Civil, se preparem com antecedência na tentativa de mitigar os efeitos de um temporal.

No litoral norte, a Defesa Civil havia emitido alerta na quinta-feira (16) para a possibilidade de registrar um acumulado de 250 milímetros no final de semana. Porém, o volume de chuva chegou a 682 mm, de acordo com o Governo de São Paulo.

Como consequência do temporal, 48 pessoas morreram, sendo 47 em São Sebastião e uma em Ubatuba, conforme os dados desta quarta (22).

Segundo o professor Eduardo Mario Mendiondo, coordenador científico do Ceped (Centro de Educação e Pesquisa de Desastres) da USP, os modelos atuais de previsão utilizam parâmetros atmosféricos calibrados por condições históricas e precisam ser atualizados.

“O clima está mudando, com maior magnitude e com maior frequência de ocorrência de extremos. Os modelos precisam ser atualizados de forma constante, em escala global e em regiões específicas, com microclima e dinâmicas peculiares, como é o caso da Serra do Mar e da Baixada Santista”, afirma Mendiondo.

O professor chama atenção para falta de investimentos públicos. Segundo ele, o governo precisa reforçar o quadro de servidores e investir em novas ferramentas para Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

“Falta aumentar em 20 vezes o potencial de supercomputadores atuais em território nacional, falta contratar até 20 vezes o número servidores de manutenção e operação de supercomputadores e falta contratar até em dez vezes o número atual de técnicos operadores”, afirma o professor da USP.

Para suprir tais necessidades, Mendiondo estima que é necessário investimentos de R$ 25 bilhões por ano. “Isto para converter essas novas evidências científicas, melhorando as previsões, seguindo exemplos como Japão, Europa e Estados Unidos”.

O meteorologista Mamedes Luiz Melo afirma que o volume de chuva foi agravado pela ação do ciclone extratropical associado a uma frente fria que passou pelo Sul do país e por São Paulo. “A tecnologia vinha alertando, mas estamos lidando com algo móvel na atmosfera”, afirma Melo.

A Defesa Civil diz, em nota, que os boletins especiais e de aviso de risco meteorológicos são emitidos com base em simulações numéricas de previsão do tempo. “Tais limiares baseiam-se no histórico da chuva da região em que a chuva acumulada representa risco para transtornos, como deslizamentos, desabamentos, alagamentos, enchentes e ocorrências relacionadas a raios e ventos”, disse a Defesa Civil.

As projeções do Inmet, que emite alertas sobre riscos de deslizamentos para órgãos públicos, previram volumes de chuva menores do que um modelo usado pela empresa de meteorologia MetSul.

O modelo da empresa, chamado WRF, apontou que algumas áreas poderiam ter chuva acima de 600 mm em alguns pontos do terreno, o que acabou se confirmando. As previsões mais graves do instituto federal falavam em chuvas no patamar de 400 mm.

A previsão do Inmet para a chuva no litoral norte utilizou seis modelos numéricos diferentes. O instituto também usa o WRF, mas com uma resolução menor do que a da MetSul. Ou seja, a empresa conseguiu fazer os cálculos a partir de detalhes mais precisos do relevo do que o órgão público.

“O WRF tem se mostrado uma ferramenta muito importante na identificação de eventos extremos de chuva”, diz a meteorologista Estael Sias, da MetSul. “É importante assinalar que o modelo WRF é meramente uma ferramenta de trabalho, um produto, e não a previsão, e que o prognóstico final divulgado ao público e clientes leva em conta outros modelos e também a experiência do meteorologista para eventos extremos”.

Segundo o meteorologista Franco Nadal Villela, da equipe do Inmet em São Paulo, a resolução não é o fator mais decisivo na previsão de chuvas. Ele diz que os modelos usados pelo instituto deram conta de prever que o temporal em São Sebastião seria muito grave, embora não tenham chegado ao valor de 600 mm.

“Há modelos de menor resolução que pontualmente previram menos precipitação”, diz Villela. “As previsões modeladas estavam prevendo bem este evento e as variações na quantificação de precipitação [volume de chuva por hora] são mais uma das varáveis que ponderamos para emitir alertas”.

A reportagem enviou perguntas através de email ao Inpe, que coordena o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Para José Marengo, climatologista e coordenador do Cemaden, defende mudanças. Ele explica que o modelo de previsão do tempo divide a região em áreas de até 200 quilômetros quadrados. Com isso, não é possível prever a quantidade de chuva aproximada em toda a região.

“O Brasil não está preparado tecnologicamente. É como se dividisse o Brasil em caixas grandes de 200 quilômetros quadrados, por isso há distorções dentro da mesma região. Pode ter áreas em que chove menos e outras que superaram os 600 milímetros, a modelagem não é perfeita”, afirma Marengo.

Ele também alerta para a falta de novas tecnologias. “O supercomputador do Inpe, o Tupã, que resolve as equações matemáticas em alta velocidade, é de 2010 e considerado obsoleto”, afirma o climatologista.

O professor Pedro Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, concorda que é área precise de mais recursos, mas pondera que as previsões dos órgãos do governo foram suficientes para apontar que uma tempestade grave se aproximava. “A espera pelo investimento não pode postergar a solução do problema, as previsões já funcionam”.

A Folha de S.Paulo publicou, no dia 28 de dezembro de 2010, a inauguração do supercomputador. Na ocasião, o Tupã custou R$ 31 milhões e era utilizado em países como Estados Unidos, China, Alemanha e Rússia. Para operá-lo, o Inpe precisou construir uma nova central elétrica, de mil quilowatts -antes tinha só 280 quilowatts disponíveis no instituto.

Até hoje os especialistas apontam o Tupã como o melhor equipamento que o Brasil possui para prever, além de enchentes, ondas de calor e frio e os períodos de seca.

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