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Dia a Dia

Especialistas duvidam da intenção do papa de punir com rigor padres abusadores

6 de junho de 2021 Dia a Dia
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Por Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

SÃO PAULO – Nesta semana, o Vaticano mudou suas leis internas para forçar seus bispos a punir para valer sacerdotes reconhecidamente abusadores.

Não dá para falar dessa guinada de postura sem voltar a Fernando Karadima, padre chileno que se relacionou com crianças e adolescentes ajudado pelo silêncio cúmplice de pares. A primeira suspeita é de 1955. Um dos rapazes que anos mais tarde o denunciou, o hoje cirurgião gástrico James Hamilton, conta que após os ataques sexuais o pároco o mandava ir se confessar com outro clérigo, que lhe dizia apenas: “Seja paciente, não se preocupe”.

Hamilton não foi paciente, se preocupou, foi a público com o caso, e Karadima virou símbolo da leniência do Vaticano com predadores sexuais de batina. É o seu exemplo que muitos evocam para argumentar que o papa Francisco pode até ter avançado alguns passos para abater a cultura que preferia calar a combater assédios cometidos por sacerdotes. Mas fez o bastante?

Papa Francisco ordena que dioceses do mundo devem implementar um sistema de denúncia acessível ao público (Foto: divulgação)
Papa Francisco mudou regras na Igreja para punir abusos sexuais (Foto: divulgação)

No caso chileno, definitivamente não, e o próprio Francisco sabe disso, diz o vaticanista Filipe Domingues, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

A reação papal foi pôr em xeque a palavra de vítimas como Hamilton. A Igreja Católica silenciou por anos sobre as denúncias. Quando o pontífice visitou o Chile em 2018, irritou-se com perguntas de jornalistas sobre Juan Barros, bispo acusado de acobertar seu mentor, Karadima. “Não há uma única prova contra (Barros). Tudo é calúnia”.

Francisco se desculpou, e no ano seguinte a Santa Sé promoveu um encontro com 114 presidentes de Conferências Episcopais para discutir a proteção de menores. Seja por “negação” ou por “cumplicidade criminosa, maliciosa”, o silêncio não era mais uma alternativa, afirmou à época o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, um tipo 007 enviado pelo Vaticano para investigar episódios como o do Chile.

Na terça, 1º, a Santa Sé divulgou uma aguardada revisão de sua lei canônica. Uma das mudanças mais pertinentes alterou o tratamento dado a crimes sexuais.

Segundo a lei da Igreja Católica, abusar de menores ou de adultos vulneráveis e usar as posições de autoridade para forçar atos sexuais agora é crime contra a dignidade humana, e a punição deve ser dura. O que nos traz de volta à questão: o papa vem se empenhando para coibir uma praga que por décadas carcomeu a estrutura da igreja?

O grau de otimismo vai depender do interlocutor. O de Anne Barrett Doyle não é muito alto. “Para os católicos que desejam uma igreja honesta, Francisco tem sido uma decepção”, diz a codiretora da Bishop Accountability, ONG que documenta escândalos sexuais protagonizados pelo clero. “Esperávamos que ele fosse um reformador, porque suas palavras nos deram esperança. Ele foi o primeiro papa a dizer que os bispos devem ser responsabilizados, e jurou ‘nunca mais’ à cultura do encobrimento”.

Teoria e prática, contudo, foram cada uma para um lado, segundo Doyle. “Seu processo de investigação e punição de bispos problemáticos é secreto do início ao fim. Exige que cada tomador de decisão esteja no nível de bispo ou superior. Nenhum sacerdote, e certamente nenhum leigo, está autorizado a ter um papel de autoridade no julgamento de um bispo acusado”.

Há exemplos bissextos de sanções severas contra membros do alto clero acusados de encobrir ou praticar abusos. O ex-arcebispo de Washington Theodore McCarrick é um deles: foi expulso pelo papa em 2019, considerado culpado de ter “infringido o sexto mandamento [que proíbe o adultério] com menores e adultos, com a circunstância agravante do abuso de poder”.

Doyle também prega uma “transparência radical”, e uma que seja definida pelas vítimas, e não pelos opressores. Isso incluiria uma ordem papal para que a Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da cúria romana, liberasse nomes e arquivos dos cerca de 4.000 clérigos que a igreja considerou culpados de abuso sexual infantil.

Autoridades eclesiais nos EUA e na Europa, e até mesmo os papas João Paulo 2º e Bento 16, tateavam no período uma abordagem sobre a violência sexual contra menores. Havia, portanto, abertura para tal. Já no começo de seu pontificado, Francisco se preocupou com o tema, diz o vaticanista Filipe Domingues.

Um ano após assumir a cabeceira da igreja, criou a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores. Indicou como integrante Marie Collins, que tinha 13 anos quando um capelão a estuprou e tirou fotos dela, que estava internada num hospital. Três anos depois, a septuagenária deixou o grupo reclamando de recursos de menos e resistência cultural de mais para implementar mudanças profundas na igreja.

Fora a questão estrutural, há também a cultural, afirma Domingues. Para o vaticanista, o papado de Francisco não ignora esses pontos. Em 2020, sob sua tutela, o Vaticano publicou uma espécie de manual para “conduzir passo a passo” aqueles que precisem “traduzir em ações concretas a normativa canônica relativa aos casos de abuso sexual de menores cometidos por clérigos”.

São instruções diretas, como reconhecer com precisão os delitos que mancharam a reputação da igreja: “Relações sexuais (com e sem consentimento), contato físico de ordem sexual, exibicionismo, masturbação, produção de pornografia, indução à prostituição, conversas e/ou propostas de caráter sexual inclusive através dos meios de comunicação”.

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Cleber Oliveira 6 de junho de 2021
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