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Política

Invasão do Congresso enfraquece os EUA como guardião da democracia

7 de janeiro de 2021 Política
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Em Washington, mais de 2.000 foram infectados com a Covid-19 e mais de cem morreram (Foto: Arquivo/Agência Brasil)
Casa Branca, sede do governo dos EUA, é símbolo democrático (Foto: Arquivo/Agência Brasil)
Por Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

RIO DE JANEIRO – As instituições não estão funcionando. Ao menos não como deveriam na sede do Legislativo dos EUA, onde nesta quarta, 6, um invasor sem camisa, carregando a bandeira nacional e usando um chapéu peludo com chifres no estilo viking, virou símbolo de uma fissura inédita na maior potência mundial.

O homem era um dos apoiadores insuflados pelo republicano Donald Trump, 45º presidente americano, a pressionar congressistas a não reconhecer a vitória do 46º eleito pelo povo americano, o democrata Joe Biden. Seu desejo foi uma ordem, e parte da trupe marchou até o Capitólio.

Ativistas que alternavam dois tipos de cobertura facial, máscaras contra a Covid-19 e bonés “Make America Great Again”, impulsionam a imagem de uma nação fragilizada no que sempre reivindicou como seu grande ativo: o posto de guardião da democracia mundial.

As cenas de caos em Washington nada deixam a dever a tantas outras que se impregnaram na história de países associados a governos autoritários.

“Se aqui no Brasil as instituições não funcionam direito, lá imaginávamos que funcionassem”, diz o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas). A posse de Biden, marcada para o próximo dia 20, será um novo teste para a resiliência do regime democrático.

“Mas a princípio fica o gosto amargo de perceber que a transição pacífica de poder, uma das marcas mais longevas da democracia americana, está sendo posta à prova”, afirma. “Os sinais são péssimos”.

Os EUA nunca foram uma terra cândida para políticos. Quatro presidentes foram mortos ainda no exercício do cargo: Abraham Lincoln (1865), James Garfield (1881), William McKinley (1901) e John Kennedy (1963). Outros dois acabaram feridos em tentativas de assassinato: Theodore Roosevelt (1912, já ex-mandatário) e Ronald Reagan (1981).

Contestação sempre houve –vide a recontagem de votos que atravancou a eleição de 2000, quando o democrata Al Gore questionou a liderança do republicano George Bush filho e, por fim, admitiu a derrota.

O pioneirismo, segundo Casarões, é acompanharmos “um candidato derrotado incitar seus apoiadores a impedir a consagração do vitorioso, o que é absolutamente sem precedentes na história americana”.

Trump não é o primeiro a passar uma única temporada na Casa Branca. Outros que já foram rejeitados após um mandato solo: George Bush pai, Jimmy Carter, Herbert Hoover. Todos saíram sem chiar.

Quando o ex-apresentador do reality “O Aprendiz” não aceita ser demitido por seu povo, e com endosso de correligionários que por quatro anos normalizaram seu abuso de poder, passa ao mundo o recado de que “os EUA viraram a Venezuela”, afirma a estrategista política Ana Navarro-Cárdenas, que tem no currículo passagem por administrações republicanas.

É também uma mensagem racial, diz. “Imagine um monte de pretos e pardos irrompendo no Congresso, sentando na cadeira do Senado, invadindo a sala do presidente da Câmara. Como Trump teria reagido?”

“Hoje (quarta-feira, 6) vimos o clímax da retórica antidemocrática de Trump, condizente com o que ele disse durante todo processo eleitoral”, diz Thiago Amparo, professor de direito internacional e direitos humanos na FGV e colunista da Folha. “Ao não repelir os invasores, Trump se mostrou ao lado de um golpe sem precedentes à democracia nos EUA. E reforça que invadir o Congresso é um privilégio de apoiadores brancos, já que protestos antirracistas não recebem o mesmo tratamento leve”.

Para Casarões, a essa altura já podemos chamar o que aconteceu na capital americana de golpe, ou tentativa de um. “Engraçado é que alguns analistas americanos disseram que a chegada de Trump ao poder representava uma espécie de latinoamericanização dos EUA. Chamando até de ‘um novo Brasil’”.

Já em 2016, o empresário e então neófito eleitoral sustentava que, se fosse vencido pela democrata Hillary Clinton, era falcatrua na certa. No último quadriênio, Trump “veio nutrindo a narrativa de fraude eleitoral, e o contexto todo da pandemia permitiu que ele concretizasse essa versão, com a adesão aos votos pelo correio”, diz o cientista político. “Tudo baseado em conspiração, em fofoca”.

Para o professor de relações internacionais Oliver Stuenkel, autor de “O Mundo Pós-Ocidental”, a influência de Biden no mundo será menor do que a de antecessores. “A energia deles ia para assuntos externos, pois tinham privilégio de contar com a estabilidade doméstica”. Os EUA, diz Stuenkel, “podem agora ter os tipos de mazela que democracias mais frágeis enfrentam, como ameaças de morte contra políticos”.

Jair Bolsonaro, adepto de uma “estratégia dolorosamente similar à de Trump”, também se farta do cardápio conspiratório, segundo o professor. Difícil não pensar numa reprise para a eleição de 2022 caso Bolsonaro perca no Brasil. “O presidente brasileiro, que gosta de pensar em si como o ‘Trump dos trópicos’, provavelmente não reconheceria o resultado”.

Verdade, embora seja preciso apontar “uma diferença crucial” entre o Trump original e o dos trópicos, diz Casarões. As Forças Armadas e a Polícia Militar estão muito próximas de Bolsonaro, enquanto uma carta de dez ex-secretários de Defesa rechaçando parceria militar “mostra que o presidente com desejos golpistas não vai contar com apoio das Forças Armadas nos EUA”.

Em artigo para a conservadora Fox News, Karl Rove, republicano que assessorou George Bush, diz: “O que aconteceu no Capitólio deveria embrulhar o estômago de qualquer pessoa que ame a América. Sim, a Primeira Emenda da Constituição concede o direito a protestar pacificamente. Mas ninguém tem o direito de forçar portas e quebrar janelas para encerrar uma reunião constitucionalmente prevista do Congresso”.

“Nunca desistiremos”, bradou Trump num ato vizinho à Casa Branca, a Marcha Salve a América, pouco antes da insurreição contra o Capitólio. Nas cortes, o presidente em fim de carreira acumula mais de 60 derrotas em ações que questionaram a lisura eleitoral. As instituições, por ora, continuam funcionando.

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Assuntos democracia, eua
Cleber Oliveira 7 de janeiro de 2021
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