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Márcia Oliveira

Retorno à barbárie e a ‘banalidade do mal’

3 de maio de 2017 Márcia Oliveira
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Uma das mulheres mais influentes do século XX foi a filósofa política Hannah Arendt, nascida em 14 de outubro de 1906, em Hanover, Alemanha. De origem judia, padeceu os horrores do nazismo, perdeu sua nacionalidade, experimentou a condição de apátrida e exilou-se nos Estados Unidos em 1951. Foi professora na Universidade de Chicago e também na New School for Social Research, importante universidade de Nova York. Publicou obras importantes sobre filosofia política e o pensamento crítico. Também foi jornalista e em 1961 esteve em Jerusalém para acompanhar o processo de julgamento do criminoso nazista Adolf Eichamann por crimes contra humanidade.

Durante o julgamento de Eichmann Arendt foi recolhendo inúmeras reflexões sobre questões que mais tarde, em 1963, ela reuniu em um clássico da filosofia política intitulado “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”. Livro traduzido em diversos idiomas, foi publicado no Brasil por diversas editoras, dentre elas a Companhia das Letras em 2008.

Do processo longo do julgamento de Adolf Eichmann, Arendt nos deixa várias lições. A primeira delas é justamente sobre “a banalização do mal” praticado pelo criminoso nazista que mantinha a consciência tranquila depois de ter levado ao holocausto milhares de pessoas. Nos campos de concentração Eichamann foi responsável pelas torturas mais cruéis classificadas por Arendt como processos de desumanização completa das pessoas confinadas e torturadas até a morte.

O que realmente chamou a atenção de Arendt durante o julgamento era a insistência de Eichmann de que fizera a coisa certa. Ora, aprisionar inocentes, torturar, humilhar, despir da sua dignidade, confinar, matar nas câmaras de gás, enterrar os corpos nus em valas comuns, era a coisa certa?

Arendt entendeu que Eichmann atingiu uma identificação tão profunda com a figura do ‘Führer’ que representava o cumprimento das ordens que vinham de cima, a ponto de acreditar piamente que fazia a coisa certa ao obedecer incondicionalmente às ordens de Hitler.

Arendt define Adolf Eichmann como alguém “terrível e horrivelmente normal”. Um “típico burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, por amor ao dever, sem considerações acerca do bem e do mal”. Esse tipo de comportamento é muito comum nos regimes totalitários, extremistas e nas ditaduras militares numa completa justificação da barbárie.

A segunda lição que Arendt nos deixa deste julgamento é a definição de justiça. Durante o julgamento, muitos judeus sobreviventes do holocausto, defendiam que Adolf Eichmann deveria sofrer os mesmos horrores do holocausto. Este era o sentimento de vingança e não de justiça. Arendt entende que “se eu fizer ao meu algoz o mesmo que ele fez a mim, me torno igual a ele”. E “justiça não é igualar-se ao criminoso”. Da mesma forma “a justiça não se reduz à punição”.  A exigência de punição deve partir de uma exigência de justiça e não de vingança. Fazer justiça, no entendimento da Arendt é “reconhecer os crimes praticados, e criar condições para que a verdade venha à tona”. Fazer justiça não é permitir que o ódio tome conta das atitudes. Isso é barbárie.

A terceira lição que Arendt nos apresenta do julgamento de Eichmann é a necessidade de se restabelecer a verdade e saber diferenciar “justiça de ressentimento ou vingança”. Isso significa que mesmo depois de passados muitos anos, as marcas do crime permaneciam na memória coletiva que precisavam ser ressignificada a partir da aplicação da justiça calcada numa “memória exemplar” de tantas pessoas sobreviventes do holocausto que não queriam vingança, mas, clamavam por justiça para toda a humanidade que fora atingida de alguma forma pelo crime de Eichmann.

Na atual conjuntura brasileira, a releitura de Arendt se faz necessária e oportuna. Mais do que nunca, a realidade atual nos desafia a diferenciar justiça de ressentimento e vingança, não permitindo que a barbárie se estabeleça.

Fatos como o ataque ao Povo Gamela na tarde do último dia 30 de abril, no Povoado de Bahias, no município de Viana, no norte do Estado do Maranhão, são oportunos para se repensar o conceito de justiça e o retorno à barbárie. Neste fato concreto, a “banalidade do mal” se estabelece pela intolerância, racismo e discriminação ao Povo Gamela. Neste ataque premeditado e amplamente anunciado nas redes sociais, muitos ‘Eichmanns’ armados com facas, facões e armas de fogo acreditavam que estavam fazendo a “coisa certa” obedecendo cegamente as “ordens de cima” impetradas por agentes políticos irresponsáveis e totalitários, os atuais “típicos burocratas que se limitam a cumprir ordens, com zelo, por amor ao dever, sem considerações acerca do bem e do mal”.

A ação irracional do grupo que atacou o Povo Gamela, mutilando-os à sangue frio, os iguala a Eichmann e estabelecem novamente a banalidade do mal que vem permitindo a continuidade do genocídio dos povos sobreviventes da colonização segregados em terras em processos de disputa ou confinados em parques ou aldeias que muito recordam os campos de concentração chefiados por Eichmann. Se igualam a Eichmann todos os políticos, fazendeiros, pistoleiros, capangas e capatazes que após os horrores do ataque ao Povo Gamela foram beber e comemorar, postar nas redes sociais as imagens do crime e logo depois foram dormir com a “consciência tranquila de que fizeram a coisa certa”.

Muitos outros ‘Eichmanns’ cegos obedientes de ‘Führer’ estão nascendo em toda a sociedade que vem produzindo uma história regressiva que reestabelece a barbárie e a banalidade do mal resultantes do seguimento dos ideais totalitaristas, extremistas, racistas, intolerantes, egoístas e todas as demais ‘qualidades’ dignas de Eichmann.

 

 


Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.

Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.

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Assuntos Amazonas, brasil, genocídio, indígenas, Márcia Oliveira, Povo Gamela
Redação 3 de maio de 2017
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1 Comment
  • Derly Nunes disse:
    4 de maio de 2017 às 05:37

    Texto maravilhoso!!

    Responder

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