Vergueiro e a nova matriz econômica

Nesta quinta feira, dia 21 de julho, o Conselho Superior do Centro da Industria do Estado do Amazonas, sob a batuta de Wilson Périco, presidente da entidade, presta uma homenagem emblemática e oportuna ao pioneiro Sérgio Vergueiro, descendente do lendário senador Nicolau Vergueiro. Um paulista de 75 anos, com mais de quatro décadas de Amazônia. Aqui chegou nos primórdios da ZFM, com outros empreendedores do Sudeste, a convite do governo Danilo de Matos Areosa, interessado em atrair investidores para o setor agropecuário, no âmbito do Decreto 288/67, em Presidente Figueiredo e Itacoatiara. Na época, o projeto previa implantação de pastagens para gado de leite e corte, coerente com a perspectiva do Distrito Agropecuário da Suframa. A floresta, entretanto, castigou a recém-criada Agropecuária Aruanã, Fazenda constituída na Velha Serpa, onde, historicamente, o Marquês de Pombal idealizara construir a sede do governo provincial do Amazonas. A natureza mostrou ao investidor paulista que ali a vocação de negócios era outra. Engenheiro agrônomo, formado pela USP/Escola Superior Luiz de Queiroz, diante dos restrições florestais, Vergueiro aceitou a orientação de plantar castanhas, feita por Moysés Israel, que havia trabalhado com Cosme Ferreira, na Companhia Brasileira de Plantações. Cosme plantou centenas de seringueiras e castanheiras na região do Puraquequara, que ali permanecem a sinalizar as vantagens de manejar, adensar e enriquecer a floresta.

Epopeia amazônica

Tendo manejado menos de 10% de seus 40 mil hectares, Sérgio Vergueiro iniciou uma epopeia de obstinação, foco e fé na Amazônia, que desembarcou no plantio de 1,5 milhão de árvores da castanha, a Bertolethia excelsa, a árvore sagrada dos povos amazônicos. Pupunheiras, copaíba, entre outras espécies, foram plantadas em quantidades também surpreendentes. Nos primórdios, a Fazenda plantava 10 árvores para as empresas de compensados de Itacoatiara que precisavam cortar uma. O IBAMA exigia. Permanentemente, para ampliar o cultivo e distribuir para a região, a Fazenda Aruanã tem mantido um viveiro com até 300 mil mudas e um portfólio de distribuição registrada de aproximadamente 5 milhões de indivíduos. Hoje, avança no estágio de certificação da castanha por Denominação de Origem, como já se faz tradicionalmente com os vinhos. Com suporte tecnológico do Centro de Pesquisas do Trópico Úmido, CPATU, da Embrapa-Pará, depois da Embrapa Amazonia, e do Inpa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o pioneiro consolidou uma etapa de melhoria e seleção de germoplasma, para plantar e colher a melhor espécie e poder responder ao maior desafio da bioindústria da região: oferta de insumos e produtos em escala. Além de Moysés Israel, o projeto contou com o incentivo de Vivaldo Campbell, que dirigia o IBDF, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, nos anos 80 e a orientação técnica e científica dos pesquisadores Charles Clements e Roberval Lima. Foi assim o enfrentamento inicial do desafio de cultivo extensivo de castanha-do-Pará, do Brasil, ou da Amazônia, não importa, uma das espécies mais representativas, veneradas e benéficas da flora tropical.

Portfólio de acertos

Já são transcorridas mais de três décadas, estágio em que a Embrapa está finalizando os estudos técnicos para contabilizar a massa monumental de fixação de carbono que as castanheiras e demais espécies representam, um serviço ambiental da floresta, feito por quem aqui chegou, incentivado a trocá-la por pastagens. Hoje, a Fazenda produz dois tipos de castanha, ambos certificados em padrões mundiais de segurança alimentar, Aruanã e Econut. Palmito e mudas de pupunha, cogumelos Raphanica, criados por pesquisadoras do INPA, por inoculação de fungos nos troncos de castanheira, são outros e variados ensaios de bionegócios. Seus produtos, hoje, de tamanha excelência, não conseguem sequer atender o mercado externo pela indisponibilidade de oferta, quase toda consumida no mercado interno. A cadeia produtiva, do banco de germoplasma à embalagem padronizada por legislação e certificação internacional, tem a genética da determinação, da pesquisa rigorosa e da mobilização do conhecimento tradicional. A cultura local conserva a liturgia centenária do descasque associada aos padrões tecnológicos mais avançados de secagem, desumidificação e segurança sanitária. O resultado mantém a delícia e o excelso glamour da Bertholletia amazônica.

Índios, proteína e cidadania

A família Vergueiro gosta de recordar um fato ocorrido logo após a transformação do Território de Guaporé no estado de Rondônia, quando foi criado o Parque Nacional dos Pacaás Novos, em homenagem a esta etnia que ali vivia. Com apoio da Funai, eles foram até Itacoatiara. Os indígenas haviam visto na sede da Fundação um dos programas do Globo Rural, nos anos 90, exibido em cadeia nacional, justamente sobre plantio de castanha, na Fazenda Aruanã. Lá, eles pediram mudas para plantio nas diversas tribos para assegurar o sustento alimentar. Vergueiro mobilizou diversos atores, entre eles a Marinha e a Força Aérea Brasileira, e os empresários associados ao Rotary Club de São Paulo, ao qual era afiliado na ocasião. Naquele ano, a associação estava celebrando 50 anos e decidiu mobilizar seus membros e colaborar no desafio de fazer chegar às tribos amazônicas dos Pacaás Novos, 60 mil mudas de castanheiras. A entidade recebeu o prêmio do Rotary Internacional de Saúde, Fome e Humanidade, o reconhecimento por ações diferenciadas em favor do gênero humano, e Vergueiro, a lembrança inesquecível de seu mais nobre programa em favor dos índios: a oferta de alimentos e a certeza do reforço nessa preciosa faculdade da memória, o único instrumento para compreender a hora presente e a melhor ferramenta para planejar o futuro neste desafio de fazê-lo um pouco melhor.

Mal de Alzheimer

Outra fato mais recente está relacionada às pesquisas da USP, sobre das vantagens proteicas e terapêuticas da Bertholetia excelsa, que integra a cadeia milenar da nutrição indígena amazônica. O estudo revelou que o consumo diário de selênio – presente em altas concentrações no fruto milagroso, deficitário na maioria dos participantes da pesquisa premiada – foi capaz de melhorar o desempenho dos idosos em testes cognitivos. A descoberta da pesquisadora Bárbara Cardoso da USP lhe rendeu o 1º lugar na categoria mestre e doutor no 18º Prêmio Jovem Cientista, e conferiu a Vergueiro a mais nobre premiação de toda a vida: ajudar as pessoas a prolongar sua memória.

CBA, castanha e bionegócios

Em recente avanço na direção dos bionegócios, Sérgio Vergueiro, depois de receber na Fazenda Aruanã 15 pesquisadores de peso, assinou neste dia 15 de julho, com o Ministério Desenvolvimento/Suframa/Imetro/CBA, um Termo de Concordância para levar aos laboratórios do Centro de Biotecnologia da Amazônia, pesquisa e desenvolvimento dos resíduos da produção de castanhas. Trata-se de um verdadeiro é gigantesco acervo biótico, com perspectivas de aproveitamento biomolecular para a indústria de cosméticos, fármacos e nutracêuticos. Vergueiro escolheu seguir na carona da sustentabilidade, que a humanidade precisa e clama, para repovoar, adensar e enriquecer a floresta, resgatar saberes milenares, cercando-se de cientistas de primeira grandeza, e de experiências consolidadas por estudos aprofundados para seu monumental projeto. Seus gestores são curumins e cunhantãs formados em agroecologia, pelas universidades nativas, UEA ou Ufam, que interagem com o que há de mais avançado na inovação para produzir alimentos e saídas coerentes com as novas (?) vocações de negócios da Amazônia, economicamente sustentáveis, socialmente adequadas e ambientalmente inteligentes, aquilo que estamos todos chamando de A NOVA MATRIZ ECONÔMICA.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

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