O papel esquecido das entidades de classe

Entidade de classe constitui uma sociedade de pessoas ou empresas com forma e natureza jurídica e civil próprias, sem fins lucrativos e não sujeita à falência, criada para defender causas comuns e prestar serviços aos seus representados, com trabalho voluntário como forma do exercício de seus cargos eletivos.

No Brasil, com poucas exceções, essas entidades vêm sofrendo desvalorização e questionamento quanto à forma de atuação e utilidade, além de as causas do insucesso da maioria residirem no adágio popular “Farinha pouca, meu pirão primeiro…”, que expõe a conduta de muitas entidades pelo Brasil afora. Os interesses pessoais ou de grupos têm sido colocados em primeiro, segundo e terceiro lugares, em detrimento do interesse da categoria. Como poderemos cobrar transparência e compromisso nas atribuições do Poder Público se algumas entidades de classe copiam esse modelo obscuro de gestão? O pirão azedou de uma vez à luz de um Brasil que não mais suporta a enganação institucionalizada e legalizada e manipula estatutos e regulamentos para justificar manobras.

Vivem-se um individualismo coletivo numa civilização que perdeu a nobreza de propósitos. Tudo quanto cobramos da classe política, temos feito no microuniverso das relações privadas de nossas entidades.  Acusamos o Poder Público de práticas ilícitas e constatamos o mesmo movimento no dia a dia de algumas Instituições. Como cobrar transparência, se as entidades – a que as diversas categorias se filiam para lutar por seus interesses – passaram a formar grupos individuais para auferir vantagens dos mais próximos em detrimento do conjunto de associados que padecem com a negligência dessa imoralidade?

O papel desenvolvido pelas entidades de classe é fundamental no enfrentamento dos problemas, embora, se observe que não temos tido o avanço necessário para desafiar a crise econômica e moral vivida no País.

Há uma deturpação generalizada, não apenas na perpetuação dos dirigentes, avessos à oxigenação e à alternância proveitosa dos cargos de direção, mas também não resultado disso, com o atraso, o despreparo e a permanência de interesses cartoriais e danos setoriais, que, na maioria das vezes, não coincidem com os interesses dos representados.

A perpetuação do poder, tanto na sociedade organizada como no meio político, não é benéfica à sociedade. Existem temos entidades de classe em que não há renovação da diretoria há décadas, não apenas no Amazonas, mas também em outros Estados, onde o faz de conta impera. Entidades não podem ser usadas e transformadas em domínios de autopromoção, mas, sobretudo, devem acompanhar o momento de mudança vivido pelo País, buscar a profissionalização e servir como paradigma de administração e conduta.

O Brasil mudou e veremos essa mudança mais consolidada no próximo pleito, já que a classe política vive o maior desprestígio e indignação popular de sua história. Assim, as entidades de classe não podem ficar à margem dessa renovação e são obrigadas a dar exemplo daquilo que cobramos da classe política. Precisamos com urgência de um novo patamar de respeito e clareza de propósitos para podermos encontrar o caminho de volta.

(ginamoraes@me.com)

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