Hospitais ou purgatórios?

Manaus é uma cidade paradoxal. É uma cidade pequena e grande. Paradoxal porque ela é pequena para os padrões das demais capitais, mas grande comparada aos demais municípios de seu próprio estado. Manaus concentra mais da metade da população do Amazonas, o que provoca que as atenções na área de saúde se voltem para a capital.

O curioso é que quem passa todos os dias na Avenida Mário Ypiranga não tem ideia que ali do lado, no Hospital 28 de Agosto, morre todo dia gente que não deveria estar morrendo.

De acordo com levantamentos feitos pela Defensoria Pública, falta de tudo na rede pública de saúde do Amazonas: medicamentos, insumos, materiais, pagamento para os médicos e enfermeiros. Em suma, medicamentos e equipamentos necessários para atendimento que garanta a vida dos pacientes na cidade de Manaus.

O que observamos é que qualquer sinistro pode significar sentença de morte a quem precise de atendimento em unidades públicas de saúde. Quem sofre acidente, e o trauma é a doença do século – e aqui em Manaus, pessoas estão expostas a isso por precisarem de motos como veículo de transporte-, acaba chegando a hospitais em que faltam gesso, gaze, pino, tala e às vezes até médico.

Tudo isso porque, apesar de anúncios do governo que existe alto investimento nesta área, não há reflexos desses dados no atendimento onde mais se necessita. No Platão Araújo, por exemplo, os pacientes aguardam atendimento submetidos ao calor mais extremo. Observamos pessoas, no 28 de Agosto, aguardando próximas ao tráfego de lixo hospitalar. Identificamos no João Lúcio, pessoas que aguardam há meses por uma cirurgia. Imagine o caso de uma senhora que aguarda, há mais de três meses, por uma cirurgia para tratar um aneurisma cerebral que só poderá ser realizada no ano que vem.

Estes exemplos mostram bem a tônica de como está a saúde no Estado do Amazonas, apesar de todas as ações que existem com o sistema judiciário envolvido, porque todo sistema judiciário compreende a atuação dos ministério públicos, dos tribunais de contas, procuradorias e também da defensoria pública.

A Defensoria Pública tem um problema porque é pequena para as grandes demandas que existem. Até porque a Defensoria Pública é muito recente nesse panteão do judiciário. Nasceu em 1988. No Amazonas, a Defensoria com corpulência necessária só surgiu nos últimos anos. E em 2013, com o acréscimo de novos e valorosos defensores. Ainda assim, sofremos com orçamento apertado. Mas isso não é desculpa para que não tomemos providências.

Temos consciência da crise que vem aumentando desde 2015, que não é só do Estado do Amazonas, evidentemente. E não é só financeira, porque está relacionada à governabilidade. Exemplo disso é o Rio de Janeiro, onde hospitais fecharam as portas. Recentemente, ficou evidenciado que a ausência de gestão acompanhou isso.

No Estado do Amazonas, pelas notícias publicadas, a situação pode não ser diferente. Afinal de contas, de acordo com a operação da Polícia Federal Maus Caminhos, recursos da saúde foram usados para outras finalidades. O fato é que a população não encontra o atendimento que o dinheiro público destinado para isso não apontou.

Medidas precisam ser tomadas o quanto antes. Rui Barbosa já dizia que o pior criminoso não é aquele que faz o mal. É aquele que, podendo fazer o correto, não toma providências. Não vamos deixar de tomar as providências. A Defensoria Pública tem a sua obrigação e o fato é que medidas contundentes precisam ser tomadas. Porque medida muita mais séria ainda é submeter a população a tratamento desumano e degradante.

O que a população vem encontrando hoje dentro do sistema hospitalar público é justamente o que a Constituição proíbe: tortura.

2 Comments on "Hospitais ou purgatórios?"

  1. Mais uma desconfortante constatação… Pena ver que não raro o próprio cidadão não tem consciência da tortura que está sofrendo! Parabéns Dr Carlos Almeida Filho, o Amazonas tem futuro!

  2. Olá quero parabenizar o nobre e corajoso defensor público pir essa constatação que está a saúde pública em Manaus! Sou enfermeira, estou indignada com a atual situação, trabalhamos sem nenhuma condição! Sem dúvida nenhuma é a pior gestão que já teve em termos de governo, secretário de saúde e diretores de unidades de saúde! !! É um descaso total!! Confio que o senhor como defensor público faço algo por nós trabalhadores na saúde, como pelo população que precisa de atendimento

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