A carta indiscreta

Um servo iletrado foi incumbido pelo seu amo de levar uma dúzia de suculentas frutas a uma amante do poderoso. Também foi ordenado a levar uma carta.

O caminho era longo. Na metade do trajeto, o servo não mais resistiu a vontade de comer uma das frutas. Andou mais um bocado e não se conteve: abocanhou outra fruta.

Ao receber o presente, a amante do seu senhor indagou ao criado sobre a falta do par de frutas.

Muito surpreso por ter sido descoberto, o servo quis saber o que havia o denunciado. “Ora, essa! A carta”, respondeu ela.

Com ódio e também admiração, o servo voltou a sua atenção para aquele objeto que julgou mágico e fofoqueiro.

Algum tempo depois, o servo foi de novo encarregado de levar um cesto de frutas à mesma mulher. Transportava novamente uma carta.

Dessa vez, o servo achou ser uma boa solução negociar com aquele objeto misterioso. Prometeu oferendas se a carta ocultasse que ele havia provado de apenas uma unidade da fruta.

Lá na casa da concubina, porém, teve de confessar a travessura. Ficou indignado por aquela folha de papel não ter aceitado o acordo. Pior ainda, o objeto se revelou um pelego e puxa-saco dos abastados.

Na missão seguinte, o servo não mais tentou dialogar com aquele bicho mexeriqueiro e esquisito. “Agora você não há de ver o que vou fazer para contar aos outros!”

Dito isto, sentou-se sobre o envelope.  O plano ‘genial’ também lhe deu ousadia para comer três frutas. Depois, levantou-se, pôs a carta no lugar e seguiu o caminho.

As reações do servo já eram tão saborosas quanto as frutas para a mulher. Ela já não disfarçava seu divertimento no interrogatório. O momento preferido vinha após a confissão da culpa:

“A senhora me desculpe… Mas… eu só queria saber como foi que a senhora descobriu?”. “Pela carta!”, disse ela. “Não pode ser, minha senhora! Eu me sentei em cima dela e ela não viu nada…”

A mensagem do texto é a predominância da linguagem escrita sobre a oral e de como a ignorância não nos permite desfrutar em paz alguns ‘frutos’.

Poderia ser também uma metáfora sobre os caprichos e a força do destino. Algo que sempre é lembrado em ocasiões como o sorteio da Copa do Mundo, a da Rússia ocorre amanhã em Moscou. Será que o destino será benevolente com a Seleção Brasileira? Adversários fracos indicariam que não haverá ‘cascas e caroços’ no caminho do hexa?

E se o destino parecer que não quer? Realmente não adianta barganhar ou “sentar em cima”? Tudo, de fato, já estaria detalhadamente escrito em algum tipo de carta misteriosa?

Ou saber decifrar a linguagem dos acontecimentos pode nos fazer ser mais que servos do acaso?

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