
EDITORIAL
MANAUS – Grande parte do eleitorado está encarando esse momento de disputa eleitoral a presidente da República como se os dois candidatos que estão no segundo turno fossem times de futebol. Votar não é como torcer para um time. Não deveria envolver paixão. A decisão deveria ser tomada pela razão. Infelizmente, não é o que os fatos demonstram.
O que está em jogo são dois projetos políticos para o Brasil. Um defendido por uma dita direita ou extrema direita (Bolsonaro) e outro defendido por partidos de esquerda e centro esquerda (Lula).
Um grupo, o de Bolsonaro, defende o conservadorismo e uma economia liberal em que o Estado interfere o mínimo na economia; um Estado que se desfaz de empresas e bancos (privatizações), mesmo os que dão lucro, para deixar tudo nas mãos das empresas privadas.
O outro grupo, de Lula, defende uma economia com maior controle pelo Estado e a preservação de empresas estratégicas como a Petrobras, a Eletrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, porque apostam que com o controle dessas empresas é possível a sociedade ter o mínimo de controle sobre setores estratégicos da economia.
Os conservadores do grupo de Bolsonaro defendem a “família tradicional, a pátria, a liberdade”, mas liberdade para eles é ter o direito de negar direito e liberdade a determinados grupos sociais.
Os progressistas (termo quase em desuso atualmente) defendem a família tradicional, mas também a família do jeito que ela estiver constituída. Grande parte das famílias brasileiras não é tradicional. São mães que criam seus filhos sozinhas ou com a ajuda dos avós. A liberdade para esse grupo inclui o direito de escolha em todas os campos da vida: religiosa, de ideologia. Como dizia Raul Seixas, escolha de ser ateu ou de ter fé. E a liberdade de cada um de viver de acordo com sua orientação sexual.
O discurso da direita e da extrema direita é um atraso, puxa a sociedade para 100 anos atrás, quando imperavam os regimes autoritários, a mão pesada do Estado sobre a vida privada dos cidadãos.
O discurso da esquerda e da centro esquerda vai em outra direção, no sentido da evolução humana, da quebra de tabus e paradigmas, da valorização da ciência, da busca da felicidade da maioria.
Para a extrema direita, sobrevive na sociedade quem conseguir levar vantagem sobre o outro, através do trabalho ou dos negócios, mas essa mesma sociedade não dá oportunidade para todos.
Para a esquerda, o trabalho deve ser remunerado de forma que as pessoas possam viver bem, e o Estado deve socorrer aqueles que não conseguem ser incluídos no mercado. Por isso, o Estado precisa ser forte.
Lamentável é que grande parte do eleitorado não tem noção do que está apoiando. E isso fica claro pelos discursos. Os apoiadores da direita e da extrema direita repetem a mesma ladainha de 2018: o candidato X é ladrão!
Gente pobre, de classe média, sem acesso a informação está mergulhada em um mar de mentiras pulverizadas na internet, contadas por pastores e outros líderes religiosos nas igrejas. Sem perspectiva, essas pessoas são manobradas para apoiar determinado candidato como se ele fosse a tábua de salvação.
O liberalismo econômico não poupa ninguém. A única verdade é o lucro. E para se obter lucro todos os setores da sociedade precisam estar com a iniciativa privada: a saúde, a educação, a assistência social, a água, a energia elétrica, o petróleo, as fontes de energia renováveis.
Com o Estado fraco, reduzido, os benefícios sociais se tornam um fardo, e também são entregues para o setor privado, como já ocorre em diversos países liberais.
O Estado de bem-estar social na economia liberal só é possível para quem tem dinheiro para pagar um plano de saúde, um curso universitário. Os melhores sobrevivem.
O atual governo cortou o quanto pôde os benefícios sociais dos mais pobres. Na pandemia, queria pagar R$ 200 de auxílio emergencial. Foi o Congresso Nacional, com pressão da esquerda e dos partidos de centro esquerda e centro direita que aprovaram o benefício de R$ 600.
Passada a primeira onda da pandemia, o governo reduziu o auxílio para R$ 300. Depois, em agosto de 2021, por medida provisória, acabou com o Bolsa Família e criou no lugar o Auxílio Brasil. O valor do benefício passou de R$ 190 para R$ 217,18, com a promessa de elevar para R$ 400 com a aprovação da Lei dos Precatórios.
O valor de R$ 400 começou a ser pago em dezembro de 2021 e seria mantido até dezembro de 2022. Caso o governo não encontrasse uma fonte de financiamento, o valor retornaria para R$ 217,18 a partir de janeiro de 2023.
Foi o Congresso Nacional quem encontrou uma forma de financiamento e aprovou, em maio deste ano, o Auxílio Brasil permanente de R$ 400.
Com a proximidade da eleição e com Bolsonaro mal avaliado nas pesquisas qualitativas e de intenção de voto, o governo resolveu elevar o valor do Auxílio Brasil para R$ 600.
Não há, no entanto, qualquer garantia de que, com um estado reduzido, seja possível manter o valor nos próximos anos.

