
Por Felipe de Paula, Fausto Macedo e Aguirre Talento, do Estadão Conteúdo
SÃO PAULO – A troca de mensagens entre Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, indica que o ministro discutia com o banqueiro a possibilidade de a Polícia Federal deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e a estratégia que o dono do Master deveria adotar para frustrar o cumprimento da ordem de prisão preventiva contra ele expedida pela 10ª Vara Federal do Distrito Federal.
Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro consultou Moraes. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, sobre sair do país para escapar da prisão. Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, segunda-feira, o banqueiro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, depois, para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde buscava concretizar a venda do Banco Master. Para investigadores, pretendia fugir do País.
Procurados, o ministro e a defesa de Vorcaro não se manifestaram.
O compartilhamento de informações sigilosas entre Moraes e Vorcaro sobre os primeiros passos da investigação começou em 4 de novembro de 2025 e se intensificou à medida que se aproximava a prisão do banqueiro. Segundo investigadores, o conteúdo da conversa permite inferir que Moraes repassava a Daniel Vorcaro detalhes sensíveis sobre o andamento inicial da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela Polícia Federal.
Um dia antes de ser preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, no domingo, 16, Vorcaro indagou o ministro pelo WhatsApp: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.

Naquela altura, a ordem de prisão contra Vorcaro ainda não havia sido assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10.ª Vara Federal do DF. O decreto de prisão preventiva do banqueiro foi assinado às 15h29 do dia 17 de novembro, horas antes de ele ser flagrado pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo.
Outros diálogos localizados no celular de Vorcaro, como publicou o Estadão, mostram que advogado Walfrido Warde, defensor do baqueiro à época, fez contato telefônico diretamente com o juiz horas antes da primeira prisão do dono do Master. “Estamos infernizando o cara”, disse Warde ao cliente na ocasião.
No dia 15 de novembro, mesma data em que indagou do ministro se deveria viajar para o exterior a fim de frustrar a prisão pela Polícia Federal, Vorcaro recebeu uma mensagem de Moraes que o fez demonstrar surpresa com o conteúdo. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo.”
Naquela altura, o banqueiro estava prestes a anunciar o que seria uma venda do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e por investidores dos Emirados Árabes Unidos. O negócio foi anulado com a prisão de Vorcaro e a liquidação do Master pelo Banco Central no dia seguinte, 18 de novembro.
Na mesma mensagem ao ministro em que sugere uma fuga ao exterior, aquela de 15 de novembro, sábado, Vorcaro emendou três perguntas: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”.
Às 17h26 do dia da prisão, Vorcaro perguntou ao ministro do STF se tinha “alguma novidade”. “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, enviou o banqueiro.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam um padrão de comunicação que impede de saber o que Moraes respondeu ao banqueiro. Vorcaro e o ministro trocavam conteúdos em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de notas do celular. Com esse procedimento, a extração permite acessar apenas as imagens enviadas por Vorcaro, sem recuperar eventuais respostas e observações do ministro.
‘Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?’
No início do que investigadores denotam como suposto vazamento de informações pelo ministro ao banqueiro, Daniel Vorcaro indagou Moraes, em 4 de novembro, se “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”
“Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”, insistiu Vorcaro.
A percepção de investigadores e peritos ouvidos pelo Estadão é que o ministro pode ter alertado o banqueiro sobre o rol de medidas cautelares que poderiam ser adotadas contra ele a pedido da Polícia Federal. “Só vai saber qdo ele chamar né”, escreveu Vorcaro.
O banqueiro pediu reiteradamente ao ministro do STF que intefviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Master.
Embora o banqueiro tenha rogado ao ministro que tentasse influenciar os chefes da Polícia Federal e do Ministério Público para retardar o avanço das investigações, a Operação Compliance Zero já teve dez fases deflagradas e voltou a prendê-lo em 4 de março, após ele ter sido solto em 29 de novembro de 2025 por decisão da Justiça Federal.
A investigação, que tramitava na primeira instância, foi alçada ao Supremo em dezembro de 2025, por determinação do ministro Dias Toffoli, após o surgimento de transações imobiliárias entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que tem foro privilegiado na Corte.
Toffoli deixou a relatoria do caso após virem à tona detalhes sobre a Maridt S.A., empresa ligada à família do ministro que mantinha participação societária no resort Tayayá. Cotas do empreendimento haviam sido negociadas com fundos e pessoas ligadas ao entorno de Vorcaro, como revelou o Estadão. O ministro André Mendonça assumiu a relatoria.
Vorcaro teve duas tentativas de acordo de delação premiada frustradas, rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Ele está em busca de uma terceira chance para delatar.
‘Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar’
Em 4 de novembro, Vorcaro explicou ao ministro que se “conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo”. “Essa minha maior preocupação”, confidenciou o banqueiro.
Em seguida, eram 19h09, Daniel Vorcaro diz Moraes que vai esperar por mais informações. “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.”
Após uma hora e meia de espera, Vorcaro disse ao ministro, às 20h45, que iria dormir e menciona uma “reunião importante” no dia seguinte. “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”, escreveu o banqueiro.
“Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente”, emendou.
‘Conseguiu bloquear a maldade?’
Em 6 de novembro, Vorcaro disparou cinco perguntas em série ao ministro: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?”.
O banqueiro ainda detalhou ao ministro do STF que o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, advogado de Vorcaro na ocasião, “fez um pedido geral lá pra ver se vai pra essa vara”.
“Ele disse que teria que justificar pq estaria pedindo tá. Eu falei pra fazer de toda forma”, seguiu Vorcaro.
“O Píer acha que se entrar do nada pode acelerar algo, sem justificativa. Ele fez pedido macro, e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha?”, disse o banqueiro aguardando uma orientação do ministro. Procurado, o advogado não se manifestou.
No dia 7 de novembro, às 10h29, Vorcaro disse a Alexandre de Moraes que não tinha “qualquer preocupação para tratar da parte técnica” com os investigadores da Operação Compliance Zero. “Problema de tudo só é se sair algo mesmo”, reforçou ao ministro como uma ofensiva da PF seria prejudicial aos negócios do Master.
“Amanhã vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá”, escreveu o banqueiro.
‘Se tiver alguma novidade vamos falar’
Na manhã de 17 de novembro, dia da prisão, Vorcaro disse às 7h19 ao ministro que “estava tentando antecipar investidores” e que tinha chances de conseguir assinar e anunciar uma parte da transação de venda do Master.
“De outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.” “Se tiver alguma novidade vamos falar”, disse Daniel Vorcaro a menos de 24h de sua prisão.
