
A compra de ingressos da Fifa para os jogos da Copa do Mundo em Manaus e a distribuição dos mesmos a secretários e vereadores é uma daquelas histórias que quanto mais se tenta explicar, mais se complicam os implicados no “pecadilho”, para usar uma expressão do prefeito Arthur Virgílio Neto. Até aqui, a história está muito mal contada. Arthur, justificando a atitude de Bernardo Monteiro de Paula, o pecador, diz que a culpa foi da Fifa, que não entregou os ingressos a tempo de a Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) providenciar os convites aos jornalistas de turismo, a quem se destinavam os mais de 500 ingressos comprados com dinheiro público.
Houve atraso na entrega dos ingressos e eles só chegaram à Manauscult no dia 11, véspera da abertura dos jogos da Copa do Mundo, três dias antes do primeiro jogo na Arena da Amazônia. Na versão apresentada pela Prefeitura de Manaus, a Manauscult estava aguardando a chegada dos ingressos para, só depois, distribuir os convites aos jornalistas, providenciar passagens aéreas e reservar a hospedagem nos hotéis. Não deu mais tempo para fazer nada disso, porque os ingressos chegaram em cima da hora.
É preciso ser muito ingênuo para aceitar tal versão. Se os ingressos fossem mesmo para jornalistas e convidados da área de turismo, a Manauscult teria, primeiro, que fazer um planejamento, que deveria incluir uma lista com nomes de convidados, depois, enviar os convites com bastante antecedência e providenciar passagens e hospedagem, também com antecedência, como se faz sempre em grandes eventos.
Será que o presidente da Manauscult não imaginava que poderia faltar hotel na cidade para hospedar seus convidados? Será que não passou pela cabeça do mentor da farra dos ingressos que os voos das companhias aéreas poderiam estar lotados no período ligeiramente anterior aos jogos do Mundial? Será que Bernardo Monteiro de Paulo achou mesmo que às vésperas da Copa poderia mandar os convites para os jornalistas e eles estariam à disposição para pegar um voo e rumar para a capital amazonense?
Se é verdade que a demora da Fifa na entrega dos ingressos foi o que moveu o presidente da Manauscult a cometer o “pecadilho administrativo”, também é verdade que faltou planejamento. Como gestor de uma instituição como a Manauscult, Bernardo Monteiro de Paulo seria reprovado em qualquer concurso. Mas Arthur Virgílio Neto não pensa assim. Prefere dizer que seu subordinado agiu bem intencionado.
Que boa intenção há na atitude de alguém que, depois de fracassar na missão de trazer turistas para divulgar Manaus no maior evento internacional que a cidade já viveu, resolve distribuir para os amigos do poder os ingressos comprados com dinheiro do contribuinte?
Mais do que proteger o presidente da Manauscult, o prefeito fez de conta que não sabia de nada e decidiu “tomar uma atitude” ao saber do malfeito. Se o prefeito não sabia que seu secretário torrou R$ 139,4 mil na compra de ingressos, que o objetivo da compra fora desvirtuado e que o destino foi os gabinetes dos vereadores e secretários, então, o “pedacilho” ganha robustez e não pode mais assim ser chamado. Passa a ser um pecado grave, porque praticado sem o consentimento de quem deveria autorizar a distribuição graciosa. Se não o fez, pecou e pecou feio.
Não dá para acreditar que Arthur não sabia de nada. Como não dá para aceitar o argumento do prefeito de que se tratou de um caso sem importância, de “uma besteira”. Se for pelo valor, comparado a outros casos de patifaria com o dinheiro público, talvez Arthur tenha razão, mas legalmente, a improbidade administrativa não se configura pelo valor, mas pelo ato. O desvio de R$ 1,00 tem o mesmo peso de R$ 1 milhão. O que diferencia um do outro é apenas o valor que o malfeitor tem que devolver.
Valmir Lima é jornalista, graduado pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam), com pesquisa sobre rádios comunitárias no Amazonas. Atuou como professor em cursos de Jornalismo na Ufam e em instituições de ensino superior em Manaus. Trabalhou como repórter nos jornais A Crítica e Diário do Amazonas e como editor de opinião e política no Diário do Amazonas. Fundador do site AMAZONAS ATUAL.
Os artigos publicados neste espaço são de responsabilidade do autor e nem sempre refletem a linha editorial do AMAZONAS ATUAL.
