
MANAUS – Há 26 anos, a privatização dos sistemas de água e esgoto foi realizada em Manaus aos trancos e barrancos. Foram cinco adiamentos do leilão efetivado sob muitas suspeitas e denúncias do Ministério Público, de lideranças populares e parlamentares. Tanto tumulto neste primeiro momento já indicava que não teríamos uma concessão pacífica, eficiente e satisfatória.
Essa agitação era o presságio de que a história da concessão seria marcada pelo baixo desempenho, o descumprimento das metas contratuais e a falta de fiscalização. Tudo isso seguido de reclamações, protestos populares, investigações e incontáveis multas contra a empresa.
Cobranças ilegais, falta de água nas residências, ausência de esgotamento sanitário, ruptura de adutoras, quebra de asfaltos e calçadas e abandono das zonas mais pobres são apenas algumas das práticas da concessionária que já fazem parte do cotidiano manauara.
Com esse modus operandi, a concessão coloca Manaus entre as capitais com piores saneamentos do Brasil, mas por incrível que pareça em nenhum momento desta penosa trajetória os poderes públicos chegaram a perguntar se a população está satisfeita com a privatização. Os manauenses já não têm mais soberania sobre a sua própria cidade.
Dominada pelo poder econômico das grandes empresas e pelos representantes delas alojados nas esferas públicas, Manaus tem se afastado progressivamente dos ideais da democracia e da soberania popular. O formalismo das eleições não é suficiente para reduzir o déficit democrático da cidade, pois faltam aos eleitos a coerência e a ética para cumprir aquilo que prometem. Abandonam a população e transformam cargos públicos em meios de enriquecimento próprio. Sequestram a democracia e matam a Política.
A entrega dos serviços públicos para empresas que priorizam a expansão dos seus lucros sem nenhum compromisso com o bem-estar da população é a marca da política de saneamento adotada em Manaus e de vários outros empreendimentos desta cidade.
Essa experiência aponta para o futuro do Brasil na medida em que os processos de privatização destes serviços avançam rapidamente por todo o país. Poucas empresas se apropriam dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário consolidando a tirania do dinheiro, reforçando as estruturas causadoras das desigualdades e promovendo violações dos direitos essenciais da população.
Elegendo candidatos éticos, comprometidos com o bem comum, defensores do meio ambiente e dos direitos humanos é uma forma da população construir um cenário mais favorável para mudanças significativas em um futuro próximo. A participação é a estratégia popular que quebrará esse círculo vicioso que se abate sobre a cidade. É com essa esperança que nos aproximamos das eleições de outubro.
Sandoval Alves Rocha é doutor em Ciências Sociais pela PUC-RIO. Participa da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas e associado ao Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS). É membro da Companhia de Jesus/Jesuítas e professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
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