
NOVA IORQUE – O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso durante sua festa de vitória em Nova Iorque, pediu que a nação se una e prometeu “representar cada cidadão de nossa terra”. Ele afirmou que será presidente “para todos os americanos” e destacou que “é tempo para a América curar as feridas da divisão” e “tempo para que fiquemos juntos como um”.
Trump ainda afirmou que sua administração será um momento de “crescimento nacional e Renovação”. “A América não se contentará mais com nada menos que o melhor”, declarou.
Para o mundo, a vitória de Trump anuncia um clima geopolítico profundamente novo. De Berlim a Pequim, os líderes estão observando se Trump dará continuidade às promessas populistas e protecionistas que poderiam travar o compromisso global dos Estados Unidos com políticas profundamente estabelecidas a respeito de comércio, defesa e imigração. Se assim for, a política externa dos Estados Unidos provavelmente se distanciará de seu vizinho México e seguirá em direção à inimiga de longa data Rússia.
O antagonismo de Trump em relação aos arranjos de defesa dos EUA apresenta novos riscos para os aliados de Washington na Ásia e na Europa. E sua posição contrária ao livre comércio indica a possibilidade de uma guerra comercial com a China, a segunda maior economia global. “O tom das relações econômicas entre a China e os Estados Unidos vai mudar da cooperação e da interdependência para a competição e o conflito”, disse Shi Yinhong, professor de relações internacionais da Universidade Renmin, em Pequim. O estilo de Trump e a retórica isolacionista também podem dar a Pequim “oportunidades estratégicas para a China explorar”, acrescentou.
“Trump é uma pessoa pragmática”, disse Wang Dong, professor assistente da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim. “Muitas coisas podem ser reavaliadas. Então, do ponto de vista da segurança nacional chinesa, isso é uma coisa boa”.
Muitos veem o resultado do voto com apreensão. Na Alemanha, Norbert Röttgen, um legislador influente junto aos democratas-cristãos da chanceler Angela Merkel, advertiu que os EUA poderiam perder seu papel como o eixo da ordem mundial ocidental. “Temos de esperar e ver como ele atuará no cargo”, disse Röttgen. “Eu acho que ele ainda não sabe como agir”.
O presidente francês, François Hollande, disse recentemente que uma vitória de Trump “complicaria as relações entre a Europa e os EUA”.
Na América Latina, o México está se preparando para um presidente que prometeu eliminar acordos comerciais, construir um muro e enviar para casa milhões de imigrantes sem documentos. Cuba também enfrenta novas preocupações, com Trump prometendo desfazer o histórico restabelecimento do presidente Barack Obama dos laços entre Washington e Havana, o que despertou novas esperanças no país para o investimento estrangeiro.
Nem todo mundo está preocupado. Os políticos de direita em toda a Europa veem a vitória do Trump como uma onda internacional de sentimento de confiança. Futuras vitórias eleitorais da direita europeia, segundo eles, ajudariam a estabelecer uma nova ordem transatlântica baseada na oposição aos acordos comerciais, na imigração e na integração política da União Europeia.
A presidência de Trump “permitirá que a diplomacia francesa se expresse num mundo mais equilibrado, menos dominado pela hegemonia americana”, disse Florian Philippot, uma das principais figuras da Frente Nacional, principal partido de direita da França.
O político holandês anti-islã Geert Wilders escreveu em sua página oficial no Twitter após Trump ganhar a disputa na Flórida e em Utah: “As pessoas estão retomando seu país. Como nós iremos”.
Os partidários britânicos de uma ruptura dura com a União Europeia se sentiram confortáveis com a recepção de Trump à causa. Obama deixou claro, antes do voto do Brexit em junho, que o Reino Unido iria para “trás na fila” de um novo acordo comercial com os EUA. Trump disse que um acordo com o Reino Unido seria uma das suas principais prioridades.
Durante meses, os diplomatas da sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Bruxelas têm observado nervosamente Trump. Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan, repeliu por três vezes os comentários críticos de Trump sobre a aliança.
No Oriente Médio, Trump é visto como um defensor do poder militar da América, apesar de seus votos de desvincular-se da região. Seu desejo de derrotar o Estado Islâmico, trabalhando com aliados regionais, tem despertado entre os combates na Síria esperanças de serem armados. Mas como candidato ele também prometeu melhores relações com a Rússia, que está fortemente empenhada em combater a oposição síria. Autoridades da região se preocupam com qualquer desengajamento dos EUA, que poderá se traduzir em ganhos para a Rússia em lugares como Síria e Turquia.
Legislativo sob controle
Trump terá maioria no Senado. Candidatos do Partido Republicano conseguiram vitórias na campanha e também na da Câmara dos Representantes, o que garante que o presidente eleito começará o mandato com seu partido com total controle do Legislativo. Os senadores democratas, porém, mesmo em minoria, terão algum poder no Senado para negociar com os rivais.
A aliança republicana, além disso, pode ter dificuldades no início, diante das profundas diferenças entre Trump e os líderes republicanos no Congresso. As declarações polêmicas do candidato foram alvo de críticas dos aliados durante a longa e turbulenta campanha presidencial.
O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, e o presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, parabenizaram Trump pela vitória no início desta quarta-feira.
Tanto no Senado como na Câmara, os republicanos assumirão em janeiro com margens mais estreitas de vantagem que têm neste ano contra os democratas. Ainda assim, os candidatos das duas Casas tiveram resultados melhores que o esperado.
Após meses de dúvidas sobre se Trump poderia prejudicar os candidatos republicanos ao Senado, a força dele na verdade impulsionou o partido em Estados mais disputados. O senador Ron Johnson, por exemplo, conseguiu a reeleição em Wisconsin, algo que era dado como improvável até as últimas semanas da disputa. O republicano Pat Toomey ainda derrotou a democrata Kati McGinty na Pensilvânia, o que tornou impossível para os oposicionistas garantir a maioria no Senado.
Os republicanos terão pelo menos 52 das 100 cadeiras do Senado no próximo ano, levando-se em conta que o republicano John Kennedy vença uma eleição marcada para dezembro na Louisiana, como esperado. Os democratas precisavam tomar cinco cadeiras dos rivais para retomar a maioria que perderam em 2014.
Com o controle do Legislativo, os republicanos poderão levar adiante seu compromisso de rechaçar a reforma no sistema de saúde e também desmantelar a reformulação no sistema financeiro prevista na lei Dodd-Frank. A última vez que os republicanos controlaram a Câmara e o Senado ocorreu entre 2003 e 2007, no governo de George W. Bush.
O Senado também estará pressionado a confirmar os indicados de Trump para a Suprema Corte, que tem um cargo vago após o magistrado Antonin Scalia morrer em fevereiro.
Ainda assim, os republicanos não terão 60 cadeiras no Senado, patamar necessário para aprovar a maioria das medidas nessa Casa. Com isso, republicanos e democratas terão de trabalhar juntos diante da perspectiva de um presidente polarizador e com tensões dentro dos próprios partidos.
(Estadão Conteúdo/ATUAL)
