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Dia a Dia

Teste para beijo e regras para descarga são adotados pela Europa pós-pandemia

5 de agosto de 2020 Dia a Dia
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itália europa
Vaticano: protocolo contra a Covid-19 tem 15 páginas (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)
Por Ana Estela de Souza Pinto, da Folhapress

BRUXELAS – Cenas de beijo, só com teste negativo de coronavírus feito 24 horas antes, comunicação ao supervisor de segurança e autorização prévia do médico. Numa atividade em que a proximidade física é frequente, quando não inevitável, sindicatos e empresas europeias têm adotado regulamentos rígidos para voltar a funcionar sem aumentar o risco de contágio.

Alguns protocolos, como o italiano, têm 15 páginas, de regras detalhadas para cada etapa do processo, do treinamento à pós-edição, da retirada de material dos caminhões até os tipos de microfones mais recomendados para evitar o contágio.

Material de maquiagem, escovas e secadores de cabelo e microfones só podem ser tocados pelos profissionais específicos e devem ser desinfetados após cada uso. Cenas com figurantes devem ser reduzidas ao mínimo e eles devem chegar prontos ao set.

Testes e autorização prévios são obrigatórios para toda cena que exija proximidade, claro, não só as de beijo, e há toda uma hierarquia de segurança e vigilância, com comitês, supervisores e representantes.

Menos detalhado, o regulamento das principais redes de TV britânicas (BBC, iTV, Canal 4, Canal 5, Sky, STV e ITN) tem cinco páginas, mas também prevê testes periódicos e cuidados adicionais para momentos de “contato próximo” inevitável.

“Se um membro da equipe ou do elenco fica doente, a produção tem que parar. No melhor dos casos haverá atrasos, mas muitas vezes é tudo cancelado”, diz Elena Lai, secretária-geral da Cepi (Produção Audiovisual Europeia), que reúne associações nacionais de produtores independentes de cinema e TV na Europa.

Um levantamento feito entre membros de 19 países europeus mostrou que 93% das empresas anteveem dificuldades em coproduções futuras, principalmente pelo risco envolvido.

Manter a segurança de artistas e funcionários na retomada é só uma das preocupações do setor cultural europeu: aumento do risco e escassez de seguros, imprevisibilidade e perspectiva de recessão também são gargalos, dizem entidades do setor.

Uma das áreas mais afetadas, a cultura sofreu perdas de até 80% do faturamento no segundo trimestre – fase mais crítica da pandemia no continente –, segundo dados da Comissão Europeia. A primavera foi “uma estação perdida” e não está sendo fácil planejar a temporada que recomeça em setembro, diz Natalie Giorgadze, da Culture Action Europe, rede de organizações privadas e públicas do setor cultural, de todos os portes.

Uma programação internacional, por exemplo, envolve planejamento detalhado e de longo prazo, e ninguém sabe quanto tempo vai durar a pandemia nem se podem vir novas quarentenas ou fechamento de fronteiras. Nas últimas semanas, países como Áustria, Alemanha, França, Espanha e Bélgica adotaram novas medidas por causa de um repique nos novos casos de coronavírus.

Segundo Giorgadze, por receberem verbas públicas, grandes museus são as instituições que aguentaram melhor o impacto e anteciparam a reabertura, ainda que com menor público. “Locais pequenos provavelmente nem vão reabrir, porque dependem fundamentalmente da receita dos ingressos”, afirma.

Mas encontrar um ponto de equilíbrio na temporada de contração obrigatória de frequentadores é um desafio até mesmo para grandes cadeias de exibição de cinema. No Reino Unido, onde a reabertura de salas foi liberada em 4 de julho, algumas das principais redes só religaram seus projetores no final de julho; outras vão reabrir só neste mês.

Do outro lado das contas, há também alta dos custos – como ocorreu também no Brasil-, por causa das novas exigências de saúde e segurança. O acréscimo foi de entre 15% e 20% para as produtoras audiovisuais europeias, independente do porte, segundo Elena Lai, secretária-geral da Cepi (Produção Audiovisual Europeia), que reúne duas dezenas de associações nacionais de produtores independentes de cinema e TV.

Uma sobrecarga dessa proporção “inviabiliza a sobrevivência nos próximos seis meses, principalmente para pequenas e médias empresas”, muito comuns na produção cultural, diz ela. Algumas ainda se sustentam por causa de esquemas especiais criados pelos governos para socorrer empresas e trabalhadores afetados pela pandemia.

Mapeamento feito pela Culture Action Europe e Fundação Cultural Europeia mostra que 17 países do continente adotaram esquemas de emergência para apoiar empresas e trabalhadores de cultura, artes e setores criativos.

Nem todos, porém, atendem autônomos e freelancers, porcentagem alta dos estimados 12 milhões de trabalhadores diretos do setor de cultura europeu. Além disso, esses programas de ajuda terminam nos próximos meses, enquanto a redução de público pode se manter por muito mais tempo.

“É muito difícil prever quando será possível voltar ao normal. Este vírus é imprevisível. Tivemos países em que tudo estava sob controle, como Romênia e Portugal, e de repente houve um tremendo aumento”, diz Lai.

É essa instabilidade que torna indispensável, segundo ela, a criação de um sistema de seguro no nível da União Europeia, que cubra coprodução europeia e internacional. “Não abordar esta questão em nível europeu significa despedir-se da circulação de conteúdos amplos e diversificados que realmente tornam a Europa tão única”, afirma Lai.

O setor espera que parte da salvação venha também de fundações privadas e mecenas, com mais autonomia para financiar atividades sem exigir contrapartida rígida de produção. “Precisamos de poder nos manter apenas respirando até que possamos nos colocar de pé de novo”, diz Giorgadze.

As entidades de cultura se organizaram ainda para convencer o Parlamento Europeu a elevar as verbas previstas no orçamento dos próximos sete anos (2021-2017). “Há uma briga por cortes aqui para realocar ali, e, infelizmente, a cultura nunca é prioridade”, diz a porta-voz da Culture Action Europe.

Na proposta da Comissão Europeia, o Creative Europe (programa que fomenta cultura e mídia) teria EUR 1,85 bilhão (R$ 11,38 bi), ou 0,127% das verbas totais, do qual 0,057% iria para cultura. As entidades pedem que a fatia total suba para EUR 2,8 bilhões (R$ 17,38 bi), ou 0,26% do orçamento.

“Queremos nos manter saudáveis para poder criar sociedades mais saudáveis. Estamos pleiteando migalhas”, afirma Giorgadze. Segundo Lai, da Cedi, é um investimento para “para garantir que os principais valores culturais possam ser preservados e transferidos para as novas gerações”, mas também pode fomentar a retomada econômica do bloco. A estimativa é que cultura gere EUR 509 bilhões em valor agregado para o PIB europeu, ou 3,33% do total.

Experiências recentes mostram que há uma forte demanda reprimida. Quando as quarentenas começaram a ser levantadas, a coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker foi uma das pioneiras, ao anunciar a pré-estreia de ‘As Variações Goldberg’ (Bach, BWV988) em quatro apresentações para 40 pessoas cada uma. Os ingressos, de EUR 20 (R$ 123), estariam à venda pela internet a partir das 12h do dia 25 de junho. Às 12h05, quando a reportagem acessou o site, já estavam todos esgotados.

A corrida às bilheterias marcou também a reabertura de cinemas em países como Alemanha, Dinamarca, Holanda, Itália e Polônia. A avidez por cultura, porém, não é suficiente para deixar otimistas os produtores. “Muita gente perdeu o emprego ou teve sua renda reduzida, e já está claro que este será um ano de recessão, o que vai reduzir o público de cultura”, diz Giorgadze.

Outra questão, principalmente para artistas das chamadas artes performáticas (dança, música, teatro), é como restabelecer a ligação com seu público. As plataformas digitais, segundo ela, são substitutos muito imperfeitos: “As performances precisam da conexão entre as pessoas, do visual, do espaço, do cheiro, da presença física”.

O mundo digital põe em xeque também a remuneração. “A cultura foi um setor muito generoso, salvou as pessoas durante a quarentena, mas não consegue sobreviver para sempre sem receita. As pessoas não podem se acostumar a achar que cultura é de graça”, diz ela.

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Assuntos Covid-19, Europa, pandemia
Cleber Oliveira 5 de agosto de 2020
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