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Economia

Tambaqui sem espinha pode dobrar rendimento e abrir mercado global

9 de novembro de 2025 Economia
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O pesquisador Jenner Menezes foi o primeiro a identificar tambaquis sem espinha em “Y” na Amazônia. A descoberta abriu caminho para estudos de edição genética conduzidos pela Embrapa (Foto: Divulgação)
O pesquisador Jenner Menezes com exemplar de tambaqui: pesquisa para produzir peixe sem espinha no formato de ‘Y’ (Foto: Divulgação)
Por Thiago Gonçalves, do ATUAL

MANAUS – O que começou com uma descoberta acidental em Rondônia pode transformar o consumo de peixe no Brasil. A pesquisa do engenheiro de pesca Jenner Menezes começou ao encontrar tambaquis sem espinha em “Y” e a Embrapa no Tocantins se interessou em investir no estudo. A finalidade é desenvolver uma espécie híbrida. Caso seja possível, acabará de vez com o maior incômodo no consumo do peixe amazônico.

O tambaqui é a principal espécie nativa de peixe produzida no país e tem potencial para se tornar o maior produto da aquicultura nacional. Mas há desafios para ampliar sua produção e aproveitar melhor os cortes nobres, como o filé. As espinhas em formato de “Y”, chamadas ossos intermusculares, são um obstáculo. Elas dificultam o processamento e reduzem o rendimento da carne.

Espinha “Y” do lombo 

Em 2012, uma descoberta inesperada em Rondônia aproximou a impossibilidade da realidade. O engenheiro de pesca, pesquisador e produtor de peixes amazônicos Jenner Menezes relata que a origem do tambaqui sem a espinha no formato de Y foi por acaso.

“Um produtor veio pedir um novo lote de alevinos e queria igual ao do ano anterior, que foi um lote sem espinha. Ficamos surpresos. Não sabíamos que existia tambaqui sem as espinhas Y intermusculares”, conta Menezes.

Curioso, o pesquisador visitou a propriedade. “O produtor serviu quatro peixes assados — dois com espinha e dois sem nenhuma. Ele ainda tinha um lote de 153 animais. Pedi reserva e levei esses peixes para a base de produção”, recorda.

O desafio seguinte foi comprovar a ausência das espinhas. “Passei seis meses tentando uma forma de fazer raio-x dos peixes. Conseguimos um veterinário com raio-x portátil. O primeiro teste feito no equipamento foi com tambaquis. E descobrimos que 50 dos 153 não tinham espinha Y”, relata.

Imagens de Raio-x mostra peixe normal (CY) e peixe sem espinhas (SY) (Foto: Divulgação)
Imagens de Raio-x mostram peixe normal (CY) e peixe sem espinha (SY) (Foto: Divulgação)

A partir daí começou a pesquisa. “Fizemos cruzamentos com acompanhamento dos melhores geneticistas do país. Mas o resultado não era simples: nasciam peixes com espinhas, sem espinhas, com espinhas só de um lado do corpo. Um mecanismo complexo”, explica Menezes.

Mesmo com baixo percentual de peixes sem espinha, a descoberta foi publicada e ganhou o mundo.  “Uma pesquisadora da China leu o estudo e conseguiu identificar o gene que determina a calcificação do tecido que forma a espinha Y em carpas. Ao inativar esse gene por edição genômica, o peixe continua com o tecido, mas ele não se transforma em espinha dura”, detalha.

Com base nesse avanço, a Embrapa Pesca e Aquicultura de Tocantins passou a desenvolver estudos semelhantes no Brasil. A pesquisa utiliza tecnologias de edição genética para interromper a formação da espinha durante o desenvolvimento do tambaqui.

O trabalho se baseia na descoberta de Menezes e sua equipe em Rondônia e agora busca criar lotes 100% sem espinha Y, avaliando desempenho, qualidade da carne e segurança alimentar.

Segundo o pesquisador, os benefícios podem ser amplos. “O produtor não vai precisar esperar o peixe atingir três quilos. Poderá produzir tambaquis menores, de até um quilo e meio, aumentando a velocidade dos ciclos produtivos e a produtividade por hectare”, afirma. “Na indústria, o ganho é enorme. Hoje, perde-se entre 7% e 10% de carne na retirada manual das espinhas. Essa perda deixaria de existir”, acrescenta.

Menezes acredita que o tambaqui sem espinha poderá abrir caminho para a internacionalização do pescado amazônico. “É um peixe de sabor diferenciado, com rendimento de carcaça superior à tilápia. Enquanto uma tilápia rende cerca de 30%, o tambaqui pode chegar a 60% cortado em bandas”, compara.

Apesar do entusiasmo, há ressalvas. O biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira, especialista em ecologia aquática, alerta que as espinhas intermusculares têm papel funcional no desenvolvimento muscular do peixe.

“Do ponto de vista produtivo é interessante e talvez viável genética e tecnologicamente. No entanto, do ponto de vista da ecologia do desenvolvimento embrionário da larva e principalmente do juvenil (alevino), deve ser ter cautela e faço ressalvas”, diz.

“Esses ossos intermusculares (espinhas) são importantes na conformação do tecido muscular do peixe juvenil e adulto e funcionam como suporte para tornar mais eficiente as contrações musculares na hora da natação dos peixes”, explica Oliveira. “Portanto, ao longo do desenvolvimento e crescimento do peixe poderia causar atrofia ou mesmo mal formação nos músculos, ou seja, prejudicando a natação e consequentemente o filé do peixe que talvez se torna-se mais flácido”, acrescenta.

O geneticista Alexandre Hildsorf, da Universidade de Mogi das Cruzes, pondera e diz que as espinhas podem estar relacionadas à propulsão aquática. “Elas transmitem força aos segmentos da musculatura e conferem firmeza corporal. Mas os animais sem espinhas observados até agora não apresentam deformidades nem incapacidade de natação”.

Classe pesqueira

Para o presidente da Fepesca (Federação dos Pescadores do Amazonas), Walzenir Falcão, a tecnologia é promissora, mas requer controle. “Com certeza será de grande valia. Todos nós temos medo de comer peixe com espinha. Mas é preciso cuidado e fiscalização. O que preocupa é que esse peixe seja lançado nos rios e altere o ecossistema local”, alerta.

Falcão lembra o exemplo da tilápia, espécie exótica que causou desequilíbrios ambientais em diversas regiões do país.  “Onde a tilápia foi colocada, destruiu muitos mananciais. Não queremos que o mesmo aconteça com o tambaqui. As pesquisas precisam de controle rigoroso”, diz.

Ele também cita o impacto econômico sobre a pesca tradicional. “Se o peixe sem espinha dominar o mercado, quem vai querer o tambaqui tradicional? Isso pode afetar a renda dos pescadores e o equilíbrio da cadeia produtiva”, ressalta.

Perspectivas

O servidor público federal aposentado Thomaz Meirelles, especialista em gestão da informação aplicada ao agronegócio, vê o projeto como um avanço importante.

“A retirada da espinha do tambaqui já foi um grande avanço, mas sabemos que, mesmo assim, ainda há uma perda significativa de carne durante esse processo. Se a Embrapa realmente conseguir desenvolver uma tecnologia ou genética que elimine a espinha em ‘Y’, será um passo extraordinário — tanto em termos de segurança alimentar quanto de aproveitamento integral do pescado. Afinal, no estado das águas, o Amazonas, o negócio é o pescado.”, comenta.

A retirada de espinha mencionada por Thomaz Meirelles é a técnica utilizada por feirantes na região. A técnica de tirar as espinhas do tambaqui nas feiras de Manaus não surgiu em uma data específica e única, mas sim como uma prática que evoluiu ao longo do tempo impulsionada por profissionais especializados e cursos de capacitação que se intensificaram a partir da década de 2010. 

No Amazonas, existe um curso de capacitação aplicado pela ADS (Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas). O objetivo também é fazer o reaproveitamento do peixe.

“A técnica ensinada hoje é a retirada de espinha de peixe, especificamente do tambaqui. Demonstramos os métodos, tipos de faca e técnicas de corte. Após a retirada das espinhas, ensinamos a filetagem para preparar o peixe picado, usado em bolinhos e possivelmente fishburgers. Além da retirada de espinhas, também trabalhamos na preparação dos bolinhos”, explica a engenheira de pesca Andréa Ribeiro.

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Assuntos Amazonas, aquicultura, Embrapa, espinhas, manchete, Tambaqui
Thiago Gonçalves 9 de novembro de 2025
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