
MANAUS – A decadência venezuelana era algo muito triste e que não podíamos fazer muito além de lamentar e torcer para aquele país encontrar o seu próprio caminho de mudança. Dada a ordem do pós-guerra e da autodeterminação dos povos, presente na Carta das Nações Unidas. Com isso, a maior reserva global de petróleo poderia ser uma dádiva ou um peso para a Venezuela, que possui cerca de 34 milhões de habitantes (segundo o Tradingeconomics) e área semelhante ao Estado de Mato Grosso.
A ação norte-americana na Venezuela demonstra o quanto o mundo contemporâneo está vulnerável, como estava antes da II Guerra Mundial, pois o que vimos foi um ato de anexação ou colonização, como pontuou o ex-senador Jean-Paul Prates.
Com o desenrolar dos dias, compreenderemos melhor. Se mantida a escalda retórica, talvez tenhamos que repensar como nos vemos no mundo, pois se a ordem global voltar ao tempo das anexações, tal qual a Polônia caiu frente à Alemanha em 1939 ou das colonizações, como a do Quênia pela Inglaterra, entre 1895 e 1963, derivada da “Partilha da África”, no neoimperialismo a partir de 1880.
A potencial revitalização da deprimente indústria petrolífera venezuelana, que se avizinha, atrairá muita alegria para empresas e investimentos e eventuais celebrações dos detratores do regime ditatorial do Nicolás Maduro, pois para todo governo existem opositores, mas, por outro lado, não podemos perder a visão do que isto significa na ordem (ou desordem) global. Imaginemos se, na esteira dos acontecimentos, a Guiana ou Roraima forem anexados? O que dizer disto?
Lembrando o padrão de mudanças dos antecedentes da II Guerra Mundial, depois da Alemanha anexar a Polônia, caíram a Dinamarca e a Noruega. A sequência temporal é gradual e não faltam avisos sobre a Groelândia, que, quem sabe por estranha coincidência, é dinamarquesa.
Neste contexto, considerando que temos petróleo e terras raras, com uma soberania amazônica sempre em risco, seja pela falta de pessoas (“integrar para não entregar”), seja pelas questões climáticas (“batalha essencial para a meta climática”), teremos que repensar com urgência e emergência a nossa relação com o mundo e com cenários onde a Carta das Nações Unidas seja ignorada.
Neste potencial cenário, mais belicoso, teremos que nos reencontrar com a nossa soberania e com a união nacional frente a um potencial ataque estrangeiro ou, minimamente, o que já temos posto como fato: um aumento da instabilidade no vizinho.
A história demonstra que interesses econômicos e políticos terminam em movimentos bélicos. Cultivar aliados é fundamental, compreender as forças e fraquezas também é. Neste instante de beligerância precisaremos nos reencontrar como sociedade, pois a ameaça externa é a melhor força de união de um país.
A opção pacífica não é mais suficiente para encontrar a paz e a soberania. Teremos que repensar a estratégia para a Amazônia neste novo e inacreditável cenário que lembra os anos 1500, 1880 e 1939. As semelhanças são mais que suficientes para gerar uma nova postura brasileira frente a Amazônia.
Augusto César Barreto Rocha é doutor em Engenharia de Transportes (COPPE/UFRJ), professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), diretor adjunto da FIEAM, onde é responsável pelas Coordenadorias de Infraestrutura, Transporte e Logística.
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