

Por Levy Teles, do Estadão Conteúdo
BRASÍLIA – Candidatos ao governo do Estado que não têm o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos três principais colégios eleitorais do Nordeste vêm apostando no “voto casado” no petista e neles em vez de candidatos que são da base política do presidente.
Os casos ocorrem na Bahia, em Pernambuco e no Ceará. Aliados de ACM Neto (União), Raquel Lyra (PSD) e Ciro Gomes (PSDB), respectivamente, anunciaram publicamente voto aos seus aliados que disputam os governos estaduais, mas optaram por apoiar Lula na corrida presidencial. Lyra e Ciro Gomes não declararam nenhum voto a candidato ao Palácio do Planalto. Neto afirmou apoiar Ronaldo Caiado (PSD).
Figuras próximas a Ciro Gomes declararam voto no “Lula lá e Ciro cá”. Na Bahia, há o slogan “Lula-Neto”, em apoio ao voto no PT para presidente e em ACM Neto para governador. Em Pernambuco, figuras próximas a Lyra falam no voto “LuQuel”.
Se, de um lado, há um esforço petista para ir a público ou até mesmo à Justiça Eleitoral para desmentir a vinculação e desassociar esse voto, as campanhas desses três candidatos optam pela inércia.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a situação indica que a força do lulismo em toda a região se mantém e que Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do PT na eleição presidencial, deverá enfrentar dificuldades na formação de palanques.
Bahia (4º), Pernambuco (7º) e Ceará (8º) são, respectivamente, os três maiores colégios eleitorais do Nordeste brasileiro e, juntos, somam cerca de 25,5 milhões de eleitores.

Na Bahia, ACM Neto e o governador Jerônimo Rodrigues (PT) reeditarão o confronto que tiveram em 2022, que consagrou a quinta vitória consecutiva do PT no Estado. O voto Lula-Neto começou a aparecer antes mesmo do início do período de campanha.
A Coluna do Estadão mostrou, em julho, que ACM Neto apareceu em santinhos ao lado de Lula. A imagem que mais tem circulado nas redes sociais é propagada pelo ex-prefeito de Jacobina (BA), Tiago Dias (PSDB), que apoia Neto para o governo e a reeleição de Lula.
A campanha petista foi à Justiça contra a publicação de Tiago Dias. Nesta segunda-feira (24), o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) multou o ex-prefeito em R$ 5 mil pela publicação. Outros correligionários de Neto já deram publicamente o aval a eleitores que desejam votar em Lula e em Neto para governador.
“O PT da Bahia sempre viveu às custas do prestígio de Lula. A conversa deles era ’13 em cima e 13 embaixo’, e isso colou durante muito tempo. Mas mudou”, afirmou o deputado Arthur Maia (União-BA) em vídeo nas redes sociais. “As pessoas podem até votar no Lula, mas com certeza vão votar em ACM Neto para governador.”
A jornalistas, Neto, apoiador de Caiado, negou responsabilidade pelo voto “Lula-Neto”, mas liberou a possibilidade de voto para quem assim desejar. Segundo o candidato, não cabe a ele interferir ou patrulhar as escolhas dos eleitores.
“Cada cidadão pode se manifestar como quiser. Não tenho nenhuma responsabilidade com isso. Na Bahia, as pessoas sabem que apoiamos a candidatura de Caiado a presidente. Eu não fico em cima para saber de cada eleitor em quem ele está votando para presidente”, afirmou ACM Neto.
Éden Valadares, secretário nacional do PT e ex-presidente do partido na Bahia, discorda. “ACM Neto mostra muita fragilidade ao adotar novamente esse tipo de comportamento. Ele nem assume sua preferência por Bolsonaro, nem ninguém consegue acreditar que seria um aliado de Lula”, disse.

No Ceará, Ciro Gomes deverá ser o principal adversário do governador Elmano de Freitas (PT). Um dos irmãos de Ciro, Ivo Gomes, é um cabo eleitoral do voto “Lula-Ciro”. Na semana passada, ele publicou nas redes sociais uma arte em que Ciro aparece ao lado de Lula com a frase “Lula lá, Ciro cá”.
“Sempre fui livre para votar em quem eu considero o melhor”, escreveu Ivo, que foi prefeito de Sobral, berço político da família.
Os petistas reagiram. Mauro Benevides Filho (União-CE), um dos coordenadores da campanha de Ciro no Ceará, integrava a vice-liderança do governo Lula na Câmara, mas foi destituído do cargo há uma semana em razão do apoio ao tucano.
“É uma decisão de governo. Cada um tem lado. As pessoas, quando assumem seus lados, têm que ter responsabilidade por suas decisões”, afirmou José Guimarães, cearense e ministro da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula, em agenda no Ceará.
No último domingo, 23, o ex-governador do Ceará Camilo Santana (PT) foi para a linha de frente para impedir o voto “Lula-Ciro”. Ele exibiu, numa publicação nas redes sociais, uma série de insultos feitos por Ciro Gomes quando disputou a Presidência contra Lula, em 2022.
“Sabe como é que a gente dá o troco? Quem vota em Lula para presidente, não vota em Ciro de jeito nenhum. Ciro é o candidato de Flávio no Ceará. O candidato de Lula no Ceará é Elmano 13”, disse Camilo.
Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, no começo de agosto, Lula disse que a tática será vincular seu nome ao de Elmano. “Com o meu apoio, com o do Camilo, do Cid (Gomes), é quase humanamente impossível Elmano não ganhar as eleições. Vamos vincular – quem vota no Lula, vota no Elmano”, afirmou.
Neste momento, Ciro sinaliza que quer se afastar da disputa nacional e evita, em pronunciamentos públicos se associar a qualquer um dos candidatos. “Temos uma relação pessoal respeitosa (Ele e Lula). Mas, na política, eu comecei a me incomodar muito com as coisas que começaram a acontecer no Brasil”, afirmou Ciro a jornalistas. “Não quero mais saber da política nacional. Aqui no Ceará eu quero unir para mudar.”
Ainda que queira se desassociar do jogo nacional, Ciro formou aliança com o PL no Ceará e apoiará a candidatura de Alcides Fernandes (PL) ao Senado. Alcides é pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE), um dos mais leais bolsonaristas no Congresso Nacional. Mesmo assim, foge de associações a Flávio Bolsonaro.
Em Pernambuco, o principal obstáculo para a reeleição de Raquel Lyra é o ex-prefeito de Recife João Campos (PSB). O principal representante do voto “LuQuel” é o deputado federal Túlio Gadêlha (PSD-PE), candidato ao Senado. Em publicações nas redes sociais e em atos políticos, Gadêlha não tem receio de exibir sua imagem ao lado de Lula e da governadora Raquel Lyra, candidata à reeleição.
Nesse Estado, Lula decidiu apoiar a candidatura de Campos ao governo do Estado. Publicamente, Lyra ainda não declarou voto a nenhum candidato à Presidência. Mas assim como fez durante a atual gestão, continua indicando sinalizações de apoio a Lula durante a campanha.
Em entrevistas recentes, Lyra afirma que está além da disputa nacional e é “pernambuquista”. Na última sexta-feira, 21, em ato político em Olinda, ela disse que o próprio Lula, nascido em Caetés (PE), também é “pernambuquista”.
“O nome é pernambuquista, e sabe quem também é pernambuquista como eu? O presidente Luiz Inácio, porque ele ama Pernambuco como a gente”, afirmou a governadora.
Diferentemente da situação na Bahia e no Ceará, petistas ilustres de Pernambuco dizem a aliados que evitam a associação direta de Lyra a Bolsonaro. A governadora esteve ao lado de Lula e de senadores petistas em eventos no Estado e em Brasília. O PT não tem candidato ao governo do Estado em Pernambuco.
O cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), analisa que a situação complica o jogo para Flávio Bolsonaro.
Flávio tentou um aceno ao eleitorado nordestino ao escolher como vice o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), que tinha uma candidatura competitiva ao Senado em Alagoas. A construção de palanques para Flávio na Bahia, em Pernambuco, no Ceará e em outros Estados enfrenta desafios.
“Flávio está acuado no Nordeste. Ele não tem palanque forte em quase nenhum Estado. Os candidatos principais se recusam a fazer campanha com medo de não se tornar competitivo”, disse.
Lula é usado como puxador de votos em outros Estados. No Rio Grande do Norte, o candidato do PT ao governo do Estado, Cadu Xavier, usa o nome “Cadu do Lula” como forma de atrair o eleitorado lulista.
Teixeira acredita que, ainda que o cenário eleitoral seja favorável para Lula no Nordeste, o resultado nesses três colégios eleitorais pode colocar em xeque o futuro do PT.
“Lula virou a esperança da manutenção desses governos do PT no Nordeste. O lulismo é muito mais forte que o petismo, sem dúvida alguma”, afirmou. “É um desafio para o PT depois dessas eleições, que devem ser as últimas de Lula. Sobrará o prestígio da instituição, uma vez que não há uma liderança à altura construída dentro do PT”.
