
Por Iolanda Ventura, da Redação
MANAUS – Sem vacina, professores da rede pública de ensino no Amazonas não estão dispostos a voltar às salas de aula. O ensino remoto não substitui a presença nas escolas e com a prolongação das atividades escolares à distância, problemas sociais se agravam para crianças de classes baixas, afirmam especialistas ouvidos pelo ATUAL.
A professora Ana Cristina Rodrigues, presidente do Sinteam (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas), afirma que a falta de planejamento para a imunização da categoria e a ausência de ações preventivas para resguardar a vida dos profissionais e alunos impedem o retorno.
“Somente com a vacinação de todos os trabalhadores em educação podemos falar em retorno seguro, salientando que esta vacinação inicie pelos administrativos que são os primeiros convocados ao trabalho”, diz.

Elma Sampaio, presidente da Asprom Sindical (Sindicato dos Professores e Pedagogos das Escolas Públicas de Manaus), afirma que sem a imunização as escolas contribuirão para uma eventual terceira onda. “Para um retorno minimamente seguro é necessário que a comunidade escolar esteja vacinada, caso contrário, retornar sem vacinação é transformar as escolas em espaços de transmissão e disseminação do vírus da Covid-19”, diz.
O governador do Amazonas, Wilson Lima, afirmou no final de março que pediu a inclusão de profissionais da educação no grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19. O Ministério da Saúde ainda não atendeu o pedido.
Sampaio cita o transporte como outro fator que contribui para o aumento das contaminações. “Uma parcela significativa de alunos e servidores da educação utiliza-se dos transportes públicos para irem às escolas e se o retorno se der, os ônibus ficarão mais lotados ainda, e estes são espaços por excelência de aglomerações”, diz.

As educadoras consideram que a instalação de pias e totens de álcool em gel nas escolas para higienização não resolve. A falta de estrutura física da maioria das escolas públicas contribui para a propagação do vírus, avaliam.
“É necessário que sejam feitas adequações para melhorar a circulação de ar nas escolas”, diz Sampaio. “Mesmo que a presença de professores e alunos seja escalonada, ainda assim teremos aglomerações nas escolas, visto que em média serão 20 a 25 alunos por sala de aula”, afirma.
“Mesmo que seja com 50% dos alunos a cada dia, o espaço físico não é adequado para cumprir os protocolos. E tem que se levar em consideração que são jovens e crianças que não terão em todos os momentos monitoramento para os protocolos sanitários”, concorda Ana Rodrigues.
Segundo Sampaio, não há como acompanhar a todo instante os estudantes para que sigam o distanciamento. “Eles andam sempre juntos, sentam juntos nos bancos dos refeitórios, andam de mãos dadas, permanecem juntos na frente das escolas e retiram as máscaras com muita constância e facilidade”, diz.

Impactos sociais
O longo período de suspensão das aulas presenciais também cria outro problema: a desigualdade social, que se agrava com pandemia, afirma o sociólogo Luiz Antônio Nascimento, professor na Ufam (Universidade Federal do Amazonas). Ele cita como exemplo a fome.
“Se a gente considerar que uma parcela importante das crianças das classes populares tem na merenda escolar a sua principal refeição, quando não a única refeição, na medida que essas crianças não têm ido para a escola, você pode imaginar o quanto que isso aprofunda a condição de miséria”, diz.
Na pandemia, tanto a Prefeitura de Manaus quanto o Governo do Amazonas mantiveram a distribuição de alimentos da merenda escolar com entrega na casa dos estudantes.

O sociólogo afirma que para crianças de classes baixas é comum que o ambiente doméstico não seja visto como local de aprendizagem.
“As crianças pobres e das periferias não têm acesso a outras modalidades de ensino. Então, pensar que a escola é o lugar de aprendizado as desobriga, do ponto de vista cognitivo, a estudarem fora da escola. Em casa não é lugar de estudar. Em casa é lugar de cuidar dos irmãos mais novos, lavar a louça, ajudar a mãe”, diz.
A falta de escolaridade dos pais também dificulta o aprendizado das crianças, que não podem contar muito com a ajuda dos responsáveis, pontua Nascimento.
O sociólogo alerta para o risco de um alto índice de evasão escolar. “Esses setores populares vão aprofundar a descrença na escola e na educação. Vão declarar e manifestar coisas que você já ouve hoje em dia e há muito tempo, que as crianças não ganham nada indo para a escola, as crianças têm que ficar em casa ajudando os pais para sobreviver”, diz.
Luiz Nascimento recomenda que o Estado faça uma mobilização para trazer as crianças de volta às escolas quando ocorrer o retorno das aulas presenciais.
“Nós vamos precisar que o Estado se aproprie de todas as máquinas de comunicação, televisão, rádio, jornais, internet, etc., e fazer grandes mobilizações para estimular que as crianças voltem às aulas. Promover grandes torneios de matemática, português, literatura, ciências, para fazer com que essas crianças recuperem parte do que não tiveram ao longo do período”, sugere.

Para as sindicalistas do Sinteam e da Asprom, a situação relatada por Luiz Antônio Nascimento é real. Elas citam aumento nas despesas e desgaste emocional pelo acréscimo de horas para o atendimento aos alunos e pais e excesso de relatórios e preenchimento de dados.
Paliativo
A pedagoga Michelle Bissoli, professora na Ufam, avalia as aulas on-line como apenas uma solução temporária. “As aulas pela internet são um paliativo nessa situação. Elas não podem ser tomadas agora como nova forma de educação porque a educação se dá pela interação entre adultos e crianças, entre os grupos de crianças e adolescentes”, diz.
Bissoli afirma que além de não haver internet gratuita para todos, os professores, ao contrário dos pais, têm o preparo necessário para ministrar aulas.
“Não se trata de substituição do modelo de escola que a gente tem por esse modelo de internet. Não tem cabimento que isso aconteça. As escolas precisam voltar no momento que isso for seguro e adequado, mas o modelo não pode ser substituído”, defende.

Luiz Nascimento concorda. Segundo ele, o que ocorrerá é a incorporação de ferramentas tecnológicas de educação remota ao cotidiano das escolas. “A escola é fundamental não só como espaço de aprendizado, mas é fundamental para a convivência das crianças. As crianças precisam conviver com outras crianças, mediadas pela presença de um adulto”, diz.
Para o sociólogo, retirar da criança o convívio em sala de aula e substituir pela educação doméstica afetará a capacidade de convivência em sociedade. “Que tipo de seres humanos serão essas crianças que vão ter como convivência só o espaço doméstico? Quando elas chegarem no espaço da rua que tipo de sujeitos serão?”, indaga.
