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Dia a Dia

Pesquisa: violência contra a mulher é o problema de segurança mais grave no país

1 de junho de 2026 Dia a Dia
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Basta mostrar um X vermelho na palma da mão para que o atendente ou o farmacêutico acione a polícia e encaminhe o acolhimento da vítima (Foto: Divulgação)
Campanha de combate à violência contra a mulher: problema de criminalidade mais grave do país (Foto: Divulgação)
Por José Maria Tomazela, do Estadão Conteúdo

SÃO PAULO – Para 60% dos brasileiros a violência contra a mulher é hoje a situação de criminalidade mais grave no Brasil, segundo pesquisa do Datafolha. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, na percepção de 6 em cada 10 brasileiros, a agressão contra a mulher fica à frente do tráfico de drogas (16%) e do assalto à mão armada na rua (10%) como a criminalidade que mais preocupa.

Ao mesmo tempo, a população ainda não enxerga, de modo amplo, agressões psicológicascomo uma forma de violência contra a mulher. Esse quadro, até então inédito, foi mapeado pelo Movimento Mulher 360 –associação sem fins lucrativos que atua promoção da equidade de gênero – por meio de pesquisa realizada pelo Datafolha em abril deste ano com 2.004 pessoas acima de 16 anos em todo o País.

É a primeira vez que a violência contra a mulher é apontada como o mais grave problema de segurança pública, segundo o instituto. “Os dados mostram que a pauta sobre violência contra mulher deixou de ser percebida como tema privado ou tema feminino. Virou questão central de segurança pública e social”, diz Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Mulher 360.

A pergunta sobre a criminalidade mais grave foi a primeira feita aos entrevistados, sem saberem que se tratava de uma pesquisa específica sobre violência contra a mulher. Entre as mulheres, cerca de 3 em cada 4 (73%) consideram esta como a situação mais grave; já entre os homens a taxa é de 2 em cada 4 (49%).

Por outro lado, o entendimento sobre o que é violência contra mulher ainda é bastante limitado a manifestações físicas, segundo a pesquisa. Uma parte significativa da população tem ressalvas em reconhecer como violência situações envolvendo privações no direito de ir e vir, relacionamentos com outras pessoas, liberdade financeira e privacidade.

Protesto sobre violência contra a mulher: discurso de ódio usa linguagem misógina (Foto: Tomaz Silva/ABr)
Protesto sobre violência contra a mulher: combate ao discurso de ódio e linguagem misógina (Foto: Tomaz Silva/ABr)

Outros dados apontados pela pesquisa

  • 45% entendem que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é uma violência ou “depende da relação entre as pessoas envolvidas”. Neste caso, 55% entendem como violência;
  • 42% acham que não é violência, ou depende da relação, o marido controlar o salário de sua esposa, contra 58% enxergando como violência.

Essa situação muda apenas quando há ações físicas contra as mulheres:

  • 94% entendem como violência contra mulher um homem humilhar sua companheira em público;
  • 95% consideram violência um marido forçar uma relação sexual com a esposa.

Margareth observa que o percentual de entrevistados que apontam a violência contra a mulher como a criminalidade mais grave está muito acima das demais situações apresentadas na pesquisa, que incluiu ainda uso de drogas em locais públicos (8%), invasão e roubo de casas (2%), furto e roubo de celulares (2%) e roubo de veículos (2%).

Chama a atenção que, entre mulheres de 16 a 24 anos, o índice que considera crime grave a violência contra a mulher chega a 77%, evidenciando a centralidade e a urgência do tema na percepção da população mais jovem.

Os dados também mostram que a maior parte da população (89%) avalia que os casos de violência de gênero aumentaram no último ano, índice ainda mais elevado entre as mulheres (94%) em comparação aos homens (83%). Além disso, a maioria dos entrevistados (71%) acredita que as mulheres hoje correm mais perigo dentro de casa do que fora dela.

Para Margareth, a pesquisa registrou uma tendência confirmada pelas estatísticas. No início de maio deste ano, o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou um aumento de 7,5% no registro de crimes de feminicídio no primeiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. “Por isso, acreditamos que transformar esse cenário exige atuação coletiva, conscientização e o comprometimento de atores públicos, privados e da sociedade”, diz.

Violência psicológica negligenciada

Embora agressões físicas e ameaças sejam amplamente percebidas como violência de gênero, a violência psicológica e coercitiva ainda é negligenciada, mesmo que cause impactos na saúde emocional, autoestima e liberdade das mulheres. A pesquisa mostrou que 45% entendem que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é uma violência ou “pode ser uma violência ou não, depende da relação entre as pessoas envolvidas”.

Já 41% dos entrevistados entendem queum homem pode controlar as amizades de uma mulher com quem tem um relacionamento. Apenas 44% consideram uma violência o homem pedir as senhas das redes sociais de sua mulher e exigir que mostre todas as conversas (37% homens e 50% mulheres).

A violência patrimonial também ainda não é percebida de maneira ampla. Segundo o Datafolha, para 42% o marido controlar o salário de sua esposa não é violência ou isso depende do relacionamento do casal.

Para Margareth, a pesquisa ajuda a mostrar que existe um vazio de reconhecimento justamente nas etapas anteriores à violência física, que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave. “Quando esses sinais não são reconhecidos socialmente como violência, homens e mulheres tendem a normalizar comportamentos abusivos por mais tempo. E isso reduz tanto a prevenção quanto a busca precoce por ajuda”, diz.

Na prática, segundo ela, isso significa que muitas mulheres só conseguem reconhecer que estão vivendo violência quando ela já escalou para ameaças físicas, agressões ou risco concreto à integridade. Quando, muitas vezes, já é tarde demais.

74% das mulheres sofreram violência

O Datafolha pediu para que as mulheres consultadas respondessem a um módulo de autopreenchimento do questionário, sendo que 875 aceitaram, ou 84% das 1.037 que participaram da pesquisa como um todo.

Neste caso, o levantamento mostrou que, em média, cada vítima já havia passado por 3 situações de violência de gênero. Além disso, três em cada quatro mulheres (74%) viveram alguma situação de violência, sendo insultos ou xingamentos a mais comum (59%), seguido por ameaça de bater, empurrar ou chutar (45%), e ser seguida ou intimidada (43%).

Houve também relatos significativos sobre violência sexual (ser tocada ou agarrada sem permissão), com 38% das mulheres tendo passado por essa situação. Uma em quatro mulheres também já foi espancada ou sofreu tentativa de enforcamento, enquanto 22% disseram já ter sido ameaçadas com armas ou facas.

Culpa das vítimas?

A pesquisa mostra que culpar a vítima continua sendo um padrão: 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência contra a mulher são consequência de opções erradas feitas por elas ao escolher um parceiro.

Para Margareth, essa percepção reforça como a responsabilidade pela violência ainda é frequentemente transferida às vítimas, e não aos agressores, o que pode contribuir para o silêncio, o medo e a permanência em relações violentas.

Segundo o Datafolha, 37% das mulheres que sofreram a agressão de maior impacto no último ano afirmaram não ter tomado nenhuma atitude. “O silêncio ainda é uma das principais consequências da violência”, diz a diretora-executiva do Mulher 360.

A baixa confiança nas instituições e na efetividade das leis contribui para esse cenário, já que apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las, percentual que sobe para 31% entre os homens.

Além disso, enquanto 55% dos homens consideram as leis de proteção às mulheres eficientes, o mesmo percentual de mulheres demonstra desconfiança em relação à sua efetividade.

Esses números, segundo Margareth, indicam um distanciamento entre a existência das leis e a realidade vivida pelas vítimas, aspecto que também apresenta diferença considerável na percepção entre homens e mulheres.

Diante do medo, do sentimento de culpa, da falta de amparo e da desconfiança sobre possíveis consequências, muitas mulheres permanecem em situações de abuso e vulnerabilidade, segundo ela. “A violência contra a mulher atravessa relações familiares, afetivas, profissionais e sociais, expondo um cenário que reforça a urgência de políticas públicas mais eficazes e maior participação de empresas e sociedade no combate a esse cenário”, diz Margareth.

Outros achados da pesquisa

Das 2.004 pessoas abordadas pessoalmente pelos entrevistadores em capitais e regiões metropolitanas de todo o País, entre os dias 06 a 11 de abril de 2026, 1.037 (52%) eram mulheres e 967 (48%) homens. Do total, 45% tinham ensino médio, 30% ensino fundamental e 25% curso superior. Outras constatações da pesquisa:

  • 97% conhecem a Lei Maria da Penha
  • 86% conhecem a Lei do Feminicídio
  • 80% conhecem a Lei da Importunação Sexual
  • 57% conhecem o número de telefone para chamar ajuda
  • 90% concordam que a violência de gênero seja abordada nas escolas.
  • 46% acham que a mulher deve priorizar a família antes da carreira profissional.
  • 45% admitem que a mulher ganhar mais que o companheiro pode gerar conflito na relação.

Sobre a diferença na percepção da violência contra a mulher:

  • 41% dos homens concordam que a imprensa exagera na exposição dos casos de violência contra a mulher; apenas 29% das mulheres concordam.
  • 39% dos homens concordam que não se deve interferir em briga de casal; apenas 28% delas concordam.
  • 26% dos homens concordam que a última palavra na casa deve ser dele; só 14% das mulheres concordam.
  • 40% dos homens concordam que o ciúme é sinal de amor e pode ser saudável na relação; 26% delas concordam.

O que diz o governo?

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) diz que o sentimento de intranquilidade das mulheres com a violência de gênero identificado pela pesquisa coincide com o diagnóstico feito pelo governo e foi justamente com o propósito de aprofundar o combate a esse problema que foi criado neste ano o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, que tem por objetivo elevar esse enfrentamento a uma política de Estado.

De acordo com o governo, o pacto vem consolidando ações articuladas entre Executivo, Legislativo e Judiciário, voltadas à prevenção da violência, à proteção das vítimas, à responsabilização dos agressores e à garantia dos direitos das mulheres. Instituições como o Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) participam dessa atuação integrada.

“A iniciativa já produziu resultados concretos, como a redução do tempo médio de análise de medidas protetivas de urgência, que caiu de cerca de 16 para aproximadamente 3 dias, e a Lei n.o 15.412 de 20 de maio de 2026 que também reduziu burocracias para tornar mais ágil o cumprimento de decisões judiciais de proteção às mulheres. Houve ainda ampliação do monitoramento eletrônico de agressores, integração nacional de dados e expansão da rede de atendimento especializado.

Na Operação Mulher Segura e Alerta Lilás, entre fevereiro e março de 2026, um mutirão nacional realizou mais de 5.000 prisões de agressores de mulheres, sendo cerca de 3.000 prisões em flagrante e aproximadamente 2.000 cumprimentos de mandado de decisões transitadas em julgado”, finaliza a nota.

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Assuntos criminalidade, Datafolha, destaque, segurança pública, violência contra a mulher
Cleber Oliveira 1 de junho de 2026
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